Domingo, 13 de Maio de 2012

A gente ouve o primeiro-ministro dizer que ficar desempregado não é necessariamente negativo e que o desemprego até pode ser uma oportunidade para mudar de vida e hesita entre escrever um pequeno post, para desabafar, e esganá-lo. Sendo a segunda opção inalcançável, quer atendendo às dificuldades materiais inerentes à consumação do acto, quer, sobretudo, olhando aos pruridos de ordem ética, fica-se pela primeira. O que não é tarefa muito mais fácil. Antes pelo contrário. É que se, para os fazedores de opinião profissionais e para muitos bloggers, declarações, desmentidos, retractações e contraditas parecem funcionar como estímulo e combustível do seu exercício diário e persistente de análise crítica da actualidade, para outros, tais coisas assemelham-se mais a escorrências fétidas de uma chaga na qual seria de toda a conveniência aplicar cautério cicatrizante.

 

É bem verdade que, por uma vez, vem o ministro das Finanças temperar o despautério, com a judiciosa proposição de que, “comparando com outras experiências negativas, a satisfação de vida de um desempregado não se recupera, mesmo depois de estar desempregado há muito tempo”. Mas nenhuma correcção, por mais detersiva que seja, dissolve alarvidades daquele jaez.

 

Dito isto, há que assinalar a significativa sintonia entre a nossa televisão e o primeiro-ministro. É que, desde há algum tempo, volta e meia, ela desincumbe-se da preciosa tarefa de fazer a cabeça do povo, mostrando-nos exemplos edificantes de desempregados que, de um dia para o outro, se tornaram empresários de sucesso. A coisa é-nos apresentada sob luzes tão auspiciosas que quase se tem pena de não se perder o emprego – quando se tem a castradora infelicidade de se ter um, o que, ipso facto, nos veda a maravilhosa oportunidade de mudar de vida, entrando num clube de elite.

 

Vêem-se aquelas reportagens, e sobretudo ouvem-se os apelos empenhados dos respectivos repórteres (discípulos de Fátima Campos Ferreira) para que não nos conformemos com o desemprego, e só o mais insensível dos telespectadores duvida que amanhã de manhã, sem crédito e sem qualquer talento genial que o distinga do comum dos mortais, estará montado nos negócios.

 

Se P.P.C. e esta sua gente sabem, fingem não saber que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que entrar um desempregado no reino da abastança. Excepto se esse desempregado, como muito bem o lembrou Jerónimo de Sousa, pertencer ao clube restrito dos que se revezam no poder e nas administrações das grandes empresas.



publicado por tambemdeesquerda às 23:04
Quinta-feira, 03 de Maio de 2012

            Não acompanhei de muito perto as cerimónias relacionadas com o funeral de Miguel Portas, mas o pouco que vi pela televisão deixou-me com sentimentos contraditórios e mergulhado numa certa perplexidade. É destes sentimentos que vou dar parte, correndo o risco de ser bem interpretado e de que se considere não ser de bom-tom o que vem a seguir.

         Miguel Portas abandonou o PCP em 1989, tendo, três anos mais tarde, fundado a Plataforma de Esquerda, juntamente com outros dissidentes, que viriam a aderir ao PS. Não foi o seu caso, visto que a sua opção foi a de criar um novo partido, o Política XXI, que, em 1999, associado ao PSR e à UDP, dará origem ao BE, onde se manteve até à sua morte.

         Foi, pois, até 1989, militante do partido da classe operária e de todos os trabalhadores portugueses, do partido que, durante os quarenta e oito anos do fascismo e os trinta e seis de contra-revolução e de restauração capitalista, sempre se afirmou como o mais consequente batalhador pela defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo. E deixou de o ser para integrar um partido que, para lá da conhecida heterogeneidade das suas facções (trotskista, marxista, social-democrata) se afirma, genericamente, da área da social-democracia. Não a “social-democracia” do PSD, nem mesmo a do PS, enfeudada ao neoliberalismo, mas uma social-democracia, digamos, mais genuína, de maior sensibilidade social e mais consentânea com as suas raízes históricas, que remontam aos finais do século XIX. Porém, o facto é que, entre marxismo e social-democracia não há compromisso possível: a segunda pronuncia-se inequivocamente pela ilusão do reformismo; o primeiro sabe que o capitalismo não é reformável e que só a revolução, superando as contradições e antagonismos de classe, conduzirá a sociedade a uma síntese superior.

         E é aqui que está o busílis. A burguesia portuguesa não é ingénua e sabe donde lhe pode vir mossa. Ao passar-se do PCP para a social-democracia, mesmo esta com farpela de extrema-esquerda (o que não deixa de ser curioso), Miguel Portas passou a ser um adversário político “doce”, “convicto, mas doce” – adjectivos que vi serem-lhe atribuídos por vários lídimos representantes da classe dominante, desde Marcelo Rebelo de Sousa a Pedro Santana Lopes.

         Creio que era Bernard Shaw que dizia serem as pessoas sensatas muito úteis àquelas que o não são. Poder-se-ia dizer o mesmo dos políticos doces e, em geral, das pessoas que levam a sua tolerância tão longe que acabam no extremo de pactuar com as injustiças e as desigualdades, ou, pelo menos, com os seus promotores. Porque a política não é exactamente um jogo de futebol, em que ganhar ou perder se traduz por uma classificação na tabela. A vitória sucessiva de partidos de direita (PSD e CDS) ou do partido dito socialista, ao longo dos anos, em Portugal, tem tido como contrapartida a destruição de conquistas da Revolução que configuravam avanços civilizacionais. Nos dias que correm, a concretização da agenda ideológica da burguesia no poder, pela coligação reaccionária, visa a supressão do Estado social e a sua substituição por uma selva em que os trabalhadores por conta de outrem, os desempregados, os pensionistas, os contratados com vínculos precários, os trabalhadores a recibo verde, os pequenos empresários são devorados por quem se encontra no topo da cadeia alimentar – grandes empresários, banqueiros, administradores e gestores, bem como os seus serventuários no poder político – todos eles, naturalmente, grandes defensores da tolerância e da convivência “democrática”, ou não dependesse a manutenção dos seus privilégios imorais da doçura e da compreensão das suas vítimas, condenadas a condições de vida miseráveis ou próximas disso, ao assistencialismo e à caridade, à degradação moral, por vezes, até à morte. Com os promotores destas políticas não há que ser doce nem tolerante. Pelo contrário, há que dar corpo à célebre máxima de Saint-Just: “pas de liberté pour les ennemis de la liberté”.

         Em conclusão: não estão em causa as qualidades intelectuais e morais de Miguel Portas; está em causa a sua opção política. E por muito que me esforce por acreditar na sinceridade do seu empenhamento na transformação social, as efusivas mostras de pesar pela sua morte, vindas de quem pouco se preocupa com a sorte de milhões de trabalhadores, deixam-me a desagradável impressão de que quiseram prestar-lhe um tributo pela sua deserção.



publicado por tambemdeesquerda às 16:37
Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

Texto e vídeo importados de http://www.resistir.info/

 

Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa sobre cem anos de poder económico. O filme retrata a proteção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza.
Mello, Champalimaud, Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base. 

 
 


publicado por tambemdeesquerda às 11:49
Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Carlos Zorrinho aproveitou a comemoração solene do 25 de Abril na Assembleia da República para declarar que o PS fará uma “ruptura democrática” com quem “baixar os braços, com quem ousar tentar destruir numa legislatura o que levou décadas a construir”. Esta declaração, mais do que expectantes, deixa-nos incrédulos. Há uns meses atrás, aquando da discussão e votação do Orçamento de Estado, já Seguro afirmara o intento de uma “abstenção violenta” (mas construtiva). Na altura, todos vimos a abstenção, mas nem os de olhar mais penetrante conseguiram vislumbrar algo que remetesse para a carga semântica do adjectivo. Desta vez, não se duvidando do carácter democrático de tudo o que o PS faz, é porventura do conteúdo do substantivo que convém duvidar. Ruptura? Talvez, mas antes com quem ousa tentar defender as conquistas da Revolução, pois sempre que dispõe dos instrumentos do poder, o PS tenta fechar as portas que Abril abriu, ao mesmo tempo que as escancara à sanha destruidora da direita reaccionária.

 

Aos jornalistas que o interrogavam à saída da sessão solene, Zorrinho esclarecia que “ruptura democrática” significa “não acompanhar o governo” em medidas que consubstanciem um ataque ao serviço nacional de saúde, à escola pública, etc. Isto é, “ruptura democrática” significa ser oposição – o que se suporia o PS fazer à coligação reaccionária. Pelos vistos, não fez. Mas, qualquer dia, lá virá a “ruptura democrática” e então sim, teremos o PS a defender com unhas e dentes o Estado social que tanto se empenhou em destruir. Aliás, para não irmos mais longe, veja-se como, ainda tão recentemente, e num momento crucial, o PS “acompanhou o governo” e a direita, por interposta UGT, no acordo de concertação social.

 

É por estas e por (todas as) outras que um dia destes conviria trocar as voltas aos oxímoros que parecem ser tão do agrado dos dirigentes do PS e, pegando no “violenta” de um e no “ruptura” do outro, fazer de vez uma ruptura que, sendo violenta, não deixaria de ser democrática.



publicado por tambemdeesquerda às 22:49
Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

 

Reencontrei Urbano Tavares Rodrigues, que não lia há muitos anos, nos Terraços de Junho, livro de “contos e sonhos” – assim o define o autor – recentemente publicado.

A sensualidade estuante, os temas políticos e sociais, a cultura da relação humana e, a outro nível, a elegância do estilo marcadamente metafórico aí estão a pontuar narrativas muito breves, que nessa brevidade contrastam com as que dele conhecia. Não só na brevidade, aliás. Da leitura do conjunto de contos que constituem a primeira parte do livro, resulta a impressão de alguma redundância na sua efabulação. Trata-se de curtas histórias nas quais, quase invariavelmente, a sintagmática é de tal modo parcimoniosa que escassos núcleos/funções cardinais transportam o leitor, no espaço de algumas linhas, para um clímax que se esperaria mais tarde. Como consequência dessa técnica de apontamento, a aproximação entre personagens é rápida e desemboca num relacionamento íntimo mais ou menos inconsequente, mas muito gratificante na sua consumação fugaz.

Mas a incomodidade que se sente na leitura destes contos acentua-se ao chegar à segunda parte do livro, isto é, ao conjunto de narrativas intitulado “Angústia com licor de rosas”. Aqui, maugrado o respeito e admiração (não só nos planos profissional e literário, de resto) que nutro pelo meu professor de Literatura Portuguesa de há muitos anos, não resisti… e vai de passar um traço (a lápis) por cima do último parágrafo de quase todos os contos. Supérfluos, esteticamente infelizes, aqueles apêndices conclusivos como que agridem o leitor, ao colocá-lo perante o aviso “Se te deixaste embalar pela magia da minha prosa, acorda; isto não passa dum sonho!”. Que se trata de sonhos (reais ou inventados, pouco importa), sabe-o o leitor; que necessidade de o esclarecer com observações como estas: “É nesse momento que o despertador começa a tocar furiosamente, chamando-ma para mais um dia de trabalho ingrato” (p. 98), ou “Abro então os olhos (…). Porque é que me terei sonhado empregado dos correios?” (p. 101), ou “Acordei deste sonho com lágrimas nos olhos (…)” (p. 103), ou “Quando me ia deitar, nos dias seguintes, tentava voltar a este sonho (…)” (p. 105), ou “Foi nesse momento que caiu ao chão uma garrafa de água (…), acordando-me brutalmente.” (p. 106), etc.?

Como é que um ensaísta de craveira e ficcionista experiente comete o que se me afigura uma óbvia inabilidade?



publicado por tambemdeesquerda às 18:21
Sábado, 10 de Dezembro de 2011

Entre patrão e operário

 

Entre patrão e operário,

entre operário e patrão,

o que é extraordinário

é pretender-se união.

Não vista a pele do lobo

quem do lobo a lei enjeita.

A propriedade é um roubo.

Ladrão é quem a aproveita.

Negar a luta de classes

é negar a evidência

de um mundo de duas faces,

de miséria e de opulência.

 

          Armindo Rodrigues

 

 

Ana e António

 

A Ana e o António trabalhavam

na mesma empresa.

Agora foram ambos despedidos.

Lá em casa, o silêncio sentou-se

em todas as cadeiras

em volta da mesa vazia.

 

“Neo-realismo!” dirão os estetas

para quem ser despedido

é o preço do progresso.

 

Os estetas, esses, nunca

serão despedidos.

 

Ou julgam isso, ou julgam isso.

 

         Mário Castrim

 

 

 

 

De semântica

 

Recentemente

na fábrica

melhoraram muito

as relações humanas.

Agora, por exemplo,

ao tirar-se o prémio semanal

a uma operária

por uma mistura de fios,

por exemplo, ou por qualquer acto menor de indisciplina,

já não se diz impor um castigo;

diz-se:

estimular o sentido

da responsabilidade.

 

          Miguel Martí i Pol (tradução de Manuel de Seabra)



publicado por tambemdeesquerda às 18:57
Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

 

 

  

“Se as vozes não voltam não se escreve este livro e o que é este livro senão pessoas tentando abrir a porta” (Comissão das Lágrimas, p. 52)

 

 

“Se for mulher, metes-lhe Cristina” (p. 86), dizia a Simone o Senhor Figueiredo, “dono da fábrica, da modista, do escritório” (p. 51), na realidade dono do cabaret. “Simone, apesar de chamar-se Alice” (p. 19), mãe de Cristina, “viera de barco para dançar num teatro e não era teatro que lhe chamavam” (p. 12). O pai putativo (“diz-se que o patrão pai da filha, diz-se que o marido padre”, p. 90), preto (sempre este epíteto – estigma e farpa), “foi padre, não era padre já” (p. 12). O avô cego que “tacteia o mundo (…) convencido que as mãos, ao moldarem o ar, fabricam parentes” (p. 50) e o tio que “separa o corpo” da sobrinha, com a advertência “Nem pio” (p. 89). São estas algumas das vozes que povoam esta narrativa nos limites do caótico, em que Cristina, narradora privilegiada, retornada de uma Angola a viver os atribulados anos pós-independência e internada numa clínica de Lisboa, segrega um discurso delirante, deixando a cada passo que outras vozes o assumam.

 

AS VOZES

 

O sentimento que domina o leitor de Comissão das Lágrimas é o da dispersão, para o que contribui poderosamente esta multiplicidade de vozes emissoras do discurso. Por vezes, elas cruzam-se, como acontece no excerto seguinte, despistando o leitor por instantes:

 

[Cristina:

―]“e como repousar com as danças à noite  e os dias a fugir das espingardas da tropa nas ruas de Luanda, o meu pai não se sabia onde, chegava a casa, com meia dúzia de pretos, arrependido de ter vindo, a minha mulher que não era minha mulher, a minha filha que não era minha filha” (p. 131/132)

 

            Aliás, numa intrusão irónica e mal camuflada do autor no discurso do seu narrador, confessa-se:

 

“uma matilha de mabecos a trote, à espera de um fio de cheiro que os guie, desenterrando os mortos, se a caça escasseia, conforme desenterro defuntos que pilho à minha mãe e ao meu pai porque não sei qual de nós três fala agora” (p. 187)

 

            Este procedimento, que consiste, no fundo, em fazer confluir e mesmo colidir o acto da enunciação com a própria história, assume neste livro uma certa relevância. Veja-se, por exemplo, esta outra intromissão, que chega a lembrar-nos a escrita de Saramago (referência que talvez não seja do agrado de ALA …):

 

“no momento em que a mola se libertava de um espigão invisível e recomeçava a distender-se tal como este capítulo, até aqui resistindo-me” (p. 297)

           

Para além disso, a insistência com que esta instância enunciadora é chamada à colação acaba por instituir um nível de auto-referencialidade notório, sem contudo atingir o grau de saturação que atingiu, por exemplo, em Livro de José Luís Peixoto:

 

“Se as vozes não voltam não se escreve este livro” (p. 49),

“que penoso dizer isto, dá a impressão de ser fácil e como a caneta demora, as vozes principiam a rarear” (p. 131),

“e a somar na mesma dificuldade com que escrevo sem dar conta que escrevo” (p. 149),

“decidi que este livro vai acabar dentro em pouco” (p. 201),

“onde decidi que este livro termina” (p. 207),

“quem escreve isto por mim” (p. 297),

além do passo em epígrafe do artigo.

 

A SINTAXE

 

            Em Comissão das Lágrimas, ALA reincide no uso de uma sintaxe frouxa e desviante. De vez em quando, um período mais solidamente articulado proporciona ao leitor como que uma trégua na balbúrdia reinante. Um breve e imperfeitíssimo inventário, permite-nos identificar dois procedimentos típicos desta escrita atormentada:

  • Omissão frequente de verbos, desde os verbos declarativos, na passagem ao discurso directo,

 

“― A trabalheira que me dás rapariga

E contente, no caso de eu [lhe dizer]

 ― A trabalheira que lhe dou senhor?” (p. 26),

 

até aos  verbos predicativos, e outros, facilmente supríveis pelo contexto:

 

“no apartamento de Lisboa vê-se o Tejo da marquise na condição de abrir o trinco porque os vidros [são]opacos” (p. 13);

“mas se me afastasse perguntava às névoas que o cercavam, na esperança de [haver]parentes ali, um afilhado, um sobrinho, o tio das perdizes” (p. 26)

 

  • Cortes sintagmáticos abruptos com justaposição de elementos díspares

 

e não conhecemos vocês nem os, e as palmeiras mais fortes, nem os vimos, senhor, como as palmeiras me emudeceram, a mulata colares de cobre, pulseiras, carezas de branca rica que se tornaram farrapos (…) (p. 245)

           

Estas supressões e interrupções tendem a conferir ao discurso um débito sincopado e desconexo – sugestão eficaz da perturbação mental da narradora.

            Casualmente, períodos como os que seguem vêm adoçar o caos relativo com alguma poesia ou um pensamento que refulge:

 

“e se calhar nenhuma filha com eles, inventaram-na, há quem invente filhas e passeie uma ausência ao colo até que um choro que mais ninguém escuta se cale e possam deitá-la, adormecida, no berço, afastando-se sem ruído de um nada que os alegra (…)” (p. 104);

“a vida, por mais que os meses mudem, não passa de um hoje sem fim” (p. 163),

“o problema não é morrer, é não termos vivido, nada estremece em nós com aqueles nomes, somente lágrimas fora do prazo que não pertencem a desgosto nenhum” (p. 269),

“o que os objectos exprimem se reparamos neles, perdem a sua inércia, recriminam-nos, exaltam-se, um minuto depois de direitos entortam-se de novo” (p. 283)

 

            UMA NARRATIVA “CUBISTA”

 

“e o mundo, palmo a palmo, de volta, os tiros cessavam e mais travessas, mais becos, mais musseques, tapumes derrubados onde soluçavam frangos, uma cabra flutuando ao acaso ou o badalo somente, suspenso de nenhuma papada, a caminhar por ali, pessoas ocultas numa dobra de prédio, não fazendo parte do escuro, fazendo parte das casas, cada vez menos pés, menos braços, menos carne, tijolos em que lábios, tornados paredes, respiravam ainda seguindo-o com olhos de caliça que apesar de cegos o viam”

 

Ao ler-se o parágrafo que precede, como não recordar o quadro “Guernica”, de Picasso? Num e noutro, o mesmo horror da guerra, animais e gente subitamente irmanados no sofrimento, corpos destroçados, objectos como que investidos de vida (“tijolos em que lábios, tornados paredes, respiravam ainda”).

Mas, apesar da sua intensidade, creio que esta sugestão é um dado subjectivo e meramente impressionista. Se este romance suscita o epíteto de cubista é sobretudo pela fragmentaridade das ideias e por um certo simultaneísmo, entendido como ocorrência simultânea de várias vozes. Outrossim, a recusa da tese mimética é uma evidência, tanto na pintura cubista como nesta narrativa, e, quanto à noção de perspectiva, se o cubismo pictórico a rejeita, o romance de ALA não me parece favorecê-la, na medida em que o foco narrativo é sempre assumido por personagens tão atormentadas que lhes é impossível um distanciamento objectivador/perspectivador.

Até a técnica da colagem, que o cubismo incorporou no início do século XX, parece estar aqui documentada na utilização sucessiva de memórias avulsas e heteróclitas:

 

“é quando apenas o gato emerge do soalho a procurar-nos, não em Luanda, aqui, o mesmo gato, juro, o meu avô terra ou antes cordas que o desciam e eu junto à camioneta a fitá-lo, a minha mãe de súbito Alice de novo, não Simone, não vão matá-lo, pai, não tenha medo, todos esqueceram as pessoas de pulsos amarrados na praia menos nós, uns dias de licença na condição de tomar os comprimidos contra as manhãs difíceis, ruínas poeirentas, fragmentos miúdos, eu nos braços de uma mulher mas qual porque dúzias de vizinhas que os militares levaram […].” (p. 27)

 

José Gil, citado por José Mário Silva, no seu excelente artigo “Vozes sobre vozes” (Expresso, suplemento Actual nº 2033, 15/10/2011), corrobora a minha anterior observação, referindo-se embora a outro romance de ALA:

“Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos.”

Em conclusão, e ainda a propósito da dificuldade em identificar, por vezes, as vozes cruzadas nesta narrativa, uma recordação com muitos anos. Na aula de Português, um colega, de pé, junto da secretária onde se sentava a Dr.ª Fernanda Medeiros, professora da disciplina, no Liceu Normal D. Manuel II, lia a tirada de Telmo Pais na cena IV do acto III do Frei Luís de Sousa:

            ― “Meu Deus, meu Deus! (ajoelha) levai o velho que já não presta para nada, levai-o, por quem sois!”

            ― Quem é o velho, Fulano?

            E o colega, imediatamente:

            ― É o romeiro.

            ― Ó menino, então o Telmo ia pedir a Deus que levasse alguém que não fosse ele mesmo?! Achavas isso bem?

            Como reagiria a pobre da professora, que amiúde se queixava da desgraça da turma, perante as dificuldades suscitadas pela leitura de A Comissão das Lágrimas? Estou mesmo a vê-la fulminar-nos com aquele anátema que mais de uma vez lhe ouvi, sob a forma de predição:

            ― Se, algum dia, um de vocês conseguir tirar um curso superior, que me escreva. Vou ficar muito surpreendida…

Pensando melhor, imagino que, se ainda é viva, a senhora terá deixado de ler os romances de Lobo Antunes aí por volta do Manual dos Inquisidores. Aos últimos não reconheceria seguramente o estatuto de obras literárias, quanto mais obras de leitura obrigatória nos programas de ensino … E eu, que nunca cheguei a escrever-lhe, teria dificuldade em convencê-la. Até porque subscrevo sem ressalva estas palavras certeiras de António Guerreiro:

“ao impedir o leitor de compreender e seguir uma intriga, [ALA] retira-lhe algo que é uma necessidade imanente do romance e do qual ele não pode prescindir, entrando em falha. Dito de outro modo: o livro de António Lobo Antunes pressupõe uma história enquanto objecto de uma narração, exige do leitor que este saiba do que é que falam e de onde vêm as personagens, mas omite tudo isso, sem se importar com o facto de não assumir a responsabilidade da sua forma. Parece comprometido com o fragmentário e a dissolução das categorias narrativas, mas continua a exigir uma totalidade.” (“Quem falou em polifonia?”, Expresso, suplemento Actual nº 2033, 15/10/2011)

 

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N.B. Não tendo tido a oportunidade de ler os excelentes artigos de José Mário Silva e de António Guerreiro no suplemento Actual do Expresso, foi em http://alawebpage.blogspot.com/ que a eles tive acesso.

      

     



publicado por tambemdeesquerda às 13:26
Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011



publicado por tambemdeesquerda às 00:53
Terça-feira, 08 de Novembro de 2011

        

    É com alguma desconfiança que se avança na leitura deste livro de contos de Luís Sepúlveda, que parece, ao longo das primeiras páginas, padecer de alguma falta de fôlego narrativo. A badana da contracapa como que confirma aliás essa primeira impressão, com a informação de que “o presente livro reúne um conjunto de narrativas que se encontravam dispersas por edições há muito esgotadas ou que permaneciam inéditas nas gavetas do autor”. “Inéditas nas gavetas do autor” significa, provavelmente, escritos da juventude, que L. S., por qualquer razão, se resolveu a resgatar da inexistência, para um destino incerto.

            Os contos estão repartidos por três séries ou secções (“Amores e desamores”, “Heróis e canalhas” e “Imprevistos”) a que se soma ainda um conto isolado, com o título “Uma outra porta do céu”. Ora, ao chegarmos ao primeiro conto da segunda secção, “Parou um carro a meio da noite”, ainda nos sentimos algo defraudados com o que nos parece ser a escassa perícia de um narrador excessivamente preocupado com a informação referencial a dar ao leitor, multiplicando deícticos e informantes:

            “Parou um carro em baixo. Posso ver daqui as luzes que se reflectem no tecto (…)

            “O carro está ali parado há uns minutos, mas as portas não se abrem. O automóvel permanece quieto junto do passeio, em frente da entrada deste edifício onde vivo ainda.” (p. 69)

            Para mais, a somar à desagradável sensação de um narrador que não nos larga, que nos explica tudo, não vamos nós deixar escapar algo importante, a repetição de segmentos narrativos, com ligeiras variantes, insinua a impressão de que o autor recorre a tal expediente com fins de enchimento:

            “Mas o automóvel continua lá em baixo e parece-me que estão a fumar lá dentro.” (p. 71)

            “(…) mas as pancadas na porta continuam e eu não sei se estou calado ou estou a gritar que não está ninguém, que não cheguei, que se vão embora dali, que preciso de silêncio, de silêncio e tempo, porque há muito tempo que um carro parou lá em baixo e continua de luzes apagadas, e na rua não há ninguém que possa ver a sua cor preta e as luzinhas que se avistam lá dentro de cada vez que acendem cigarros, mas as pancadas na porta continuam (…).” (p. 75)

            Só que, contrariamente ao que acontece em contos que antecedem este, aqui, a reiteração não é usada como simples procedimento estilístico ou como vulgar expediente expansivo. Pelo contrário, ela funciona como ingrediente essencial da diegese, criando no espaço narrativo a ilusão da angústia do acossado, prenúncio do suicídio.

            A partir deste momento, ultrapassada a desconfiança inicial, o leitor reconcilia-se com o autor e com os sucessivos narradores de serviço e aceita a cumplicidade sem a qual não há magia (isto é, literatura) que resista. Aliás, a magia torna-se outro ingrediente essencial de contos como o do comboio Antofagasta-Oruro (“Mudar de rumo”), dado como perdido para sempre num banco de nevoeiro, com todos os seus passageiros, ou “Uma casa em Santiago”, casa esta cujo enigmático sumiço corta cerce a bela história de amor nascente com Isabel, no n.º 20 da calle Ricantén.

Conforme se diz em “Uma outra porta do céu”: “Onetti tem razão: é preciso renunciar aos territórios físicos e habitar o território da imaginação.” (p. 224).



publicado por tambemdeesquerda às 22:48
Domingo, 06 de Novembro de 2011

Recebi, pela segunda ou terceira vez, um email edificante, que, por imperativo ético, transcrevo mais abaixo. De tão exacerbadamente moralizante, o texto em questão poderia ser vertido em linguagem bíblica, numa espécie de tábua dos 11 mandamentos:

1.º, não receberás pensão por morte de teu pai ou mãe funcionários públicos;

2.º, não cuidarás de arbustos em hospital público, se já houver jardineiros incumbidos de tal tarefa;

3.º, não te reformarás antes de sentires que o último sopro de vida se te esvai entre os lábios;

4.º, não aceitarás que te paguem mais do que 12 meses em cada ano civil, e assim sucessivamente

 

Este tipo de emails é muito útil para difundir a ideia de que o povo grego é o responsável pela crise de que, na verdade, os responsáveis são os dirigentes políticos corruptos, o poder económico e o poder financeiro. Não foram com certeza os trabalhadores gregos que fizeram as leis que permitiram os desaforos (alguns dos exemplos dados são-no, realmente) a que o email se refere. Em contrapartida, lá, como em Portugal, são os trabalhadores que acabam por pagar a irresponsabilidade criminosa dessa gente.


Pena que quem elabora este email não faça a destrinça entre os exemplos 4 e 6, entre outros. Porque é fácil compreender a quem é que interessa vender mercadorias a preços exorbitantes, assim como é fácil entender que vale mais receber 12 meses por ano a 1000€ por mês do que 15 meses a 500€. Quando se desdenha dos Gregos por receberem o 15.º mês, está-se a enviar aos trabalhadores portugueses a seguinte mensagem: aceitem sem protestar que vos retirem o 13.º e o 14.º meses; não queiram ser como os malandros dos Gregos que, por causa dessas regalias, estão agora no estado que sabemos. Mensagem esta que é extremamente útil… ao governo que nos vai espoliar desses direitos adquiridos cuja lógica... levou os Gregos “até à demência,  até à falta de vergonha”, como se diz no Jornal Económico.

 

Diz-se que a Grécia gasta muito dinheiro em equipamento militar, omitindo-se que a Alemanha e a França condicionaram a concessão de empréstimos à Grécia à compra de submarinos e fragatas produzidos por aquelas duas potências, actuais donas da Europa. Está-se mesmo a ver que os submarinos e as fragatas são indispensáveis para a Grécia ultrapassar a crise e que, com esta venda, a dupla franco-alemã está a dar uma valiosa ajuda aos Gregos, que não se sabem governar.

 

Também o exemplo das reformas aos 50 e 55 anos, respectivamente para mulheres e homens, veicula uma mensagem que é um óptimo adjuvante da acção dos governos europeus empenhados em destruir décadas de conquistas civilizacionais dos trabalhadores e em prolongar as carreiras contributivas até aos 67, 68 anos. Não se celebra o facto de os progressos científicos e tecnológicos permitirem hoje que se trabalhe muito menos do que no passado e que, após 35 ou mesmo 30 anos de trabalho, se usufrua de um período de vida em que é ainda possível concretizar projectos que as obrigações profissionais impediam. Não. Pelos vistos, o que é mesmo sério é trabalhar enquanto a morte não sobrevém.

 

Muito estranhamente, mas deve ter sido lapso involuntário do autor destes 11 mandamentos, não há nenhuma referência aos lucros das grandes empresas gregas, nem aos salários, pensões e mordomias dos respectivos gestores e administradores executivos e não executivos, nem às grandes fortunas. Decididamente, na Grécia, são os funcionários públicos – jardineiros, motoristas e reformados – os grandes responsáveis pela crise. Que coincidência! Em Portugal, também é assim!

 


TEXTO DO EMAIL


GRÉCIA: é difícil acreditar
Bom, acho que a Europa devia ter namorado com mais atenção antes de ter casado com a Grécia, principalmente pela fama que ela tinha.

Agora, se é para manter o casamento, tem de aguentar, pagar e impor economias. 

                            Retirado do fórum do Jornal Económico - 29/06/2011

                       Lê-se, por vezes, que os Gregos, coitadinhos, são um pobre povo periférico que está a sofrer as agruras de uma crise internacional aumentada às mãos da pérfida Merkel.

                       Já é tempo de sair desta superficialidade, de perceber que os Gregos têm culpas no cartório, que não foram sérios e que não o estão a ser.
                       Os Gregos levaram a lógica dos "direitos adquiridos" até à demência, até à falta de vergonha.
                       Contam-se factos inauditos.
                       Os exemplos desta falta de seriedade são imensos, a saber :

                       1 - Em 1930, um lago na Grécia secou, mas o Estado Social grego mantém o Instituto para a Protecção do Lago Kopais, que, embora tenha secado em 1930, ainda tem, em 2011, dezenas de funcionários dedicados à sua conservação.

                       2 - Na Grécia, as filhas solteiras dos funcionários públicos têm direito a uma pensão vitalícia, após a morte do mãe/pai-funcionário público.
                       Recebem 1000 euros mensais - para toda a vida - só pelo facto de serem filhas de funcionários públicos falecidos.
                       Há 40 mil mulheres neste registo que custam ao erário publico 550 milhões de euros por ano.
                       Depois de um ano de caos, o governo grego ainda não acabou com isto completamente.
                       O que pretende é dar este subsidio só até fazerem 18 anos...

                       3 - Num hospital público, existe um jardim com quatro (4) arbustos.
                       Ora, para cuidar desses arbustos o hospital contratou quarenta e cinco (45) jardineiros.

                       4 - Num acto de gestão muito "social" (para com o fornecedor), os hospitais gregos compram pace-makers quatrocentas vezes (400) mais caros do que aqueles que são adquiridos no SNS britânico.

                       5 - Existem seiscentas (600) profissões que podem pedir a reforma aos 50 anos (mulheres) e aos 55 (homens).
                       Porquê ?
                       Porque adquiriram estatuto de profissões de alto desgaste.
                       Dentro deste rol, temos cabeleireiras, apresentadores de TV, músicos de instrumentos de sopro ...

                       6 - Pagava-se 15º mês a toda a classe trabalhadora.

                       7 - As Pensões de Reforma de 4.500 funcionários, no montante de 16 milhões euros por ano, continuavam a ser depositadas, mesmo depois dos idosos falecerem, porque os familiares não davam baixa e não devia haver meios de se averiguar a inexactidão dessa atribuição.

                       8 - Chegava-se ao ponto de só se pagarem os prémios de alguns seguros quando fosse preciso usufruir deles !


                       9 - A Grécia é o País da União Europeia que mais gasta, em termos militares, em relação ao PIB (dados de 2009).
                       O triplo de Portugal !

                       10 - Há viaturas oficiais da administração do Estado que têm 50 condutores.
                       Cada novo nomeado para um cargo nomeia três ou quatro condutores da sua confiança, mas como não são permitidos despedimentos na função pública os anteriores vão mantendo o salário.

                       11 -   Em, 27/06 último, o Prof.Marcelo, acrescentou mais uma à lista.
                       Afirmou ele: " Na Grécia, cerca de 90% da terra não tem cadastro.
                       Agora digo eu: sabem o que significa isso?
                       Significa que os proprietários não pagam impostos.
                       Eu já tinha ouvido dizer que os gregos não pagavam impostos.
                       Ora, a grande receita do Estado provém dos impostos.
                       Isto quer dizer que o erário publico do Estado grego esta vazio, totalmente vazio.
                       Quer dizer, os milhões da UE é que serviram, durante todos estes anos, para manter o nível de vida atingido dos gregos.
                       Não admira que já tenham estoirado 115 mil milhões e agora precisem de mais 108 mil milhões.


 



publicado por tambemdeesquerda às 17:39
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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