Segunda-feira, 19 de Abril de 2010

 Francisco Sarsfield Cabral publica no Público de hoje, 19, um artigo intitulado “A bomba-relógio do capitalismo”, onde, a propósito do regabofe de bónus e vencimentos milionários aos gestores de bancos, presidentes executivos de empresas, etc., se interroga sobre as consequências para a coesão social das desigualdades que o capitalismo está a engendrar. É verdade que, entre outras “insuficiências” de análise (em minha opinião), limita os “estragos” aos decénios mais recentes de desenvolvimento do capitalismo e particularmente aos factos que têm vindo a lume nos últimos tempos, mas não deixa de ser uma visão lúcida e, sobretudo, de inspiração ética, de um modelo político e social que tem as suas origens mais remotas no aparecimento da propriedade privada. O que me trouxe à memória uma leitura de há muitos anos de um dos nomes cimeiros da literatura francesa – Anatole France.

Em homenagem aos dois, transcrevo seguidamente três parágrafos do artigo de Sarsfield Cabral e um passo do romance A Ilha dos Pinguins de Anatole France.

 

A bomba-relógio do capitalismo

(…)

A subida vertiginosa dos ganhos dos gestores de topo é debatida há anos, sobretudo nos Estados Unidos. Peter Drucker, o grande mestre da gestão, considera razoável que um executivo de topo ganhasse 20 vezes o salário médio da sua empresa. Ora, em 2000 os executivos das cem maiores empresas britânicas ganharam 47 vezes o salário médio dos trabalhadores. Em 2008 ganharam 81 vezes. E nos Estados unidos, em 2008, ganharam 318 vezes o salário médio.

(…)

No caso dos gestores, a presente disparidade salarial retira legitimidade ao capitalismo. O que parece não preocupar os gestores milionários, convencidos de que, depois do colapso do comunismo, tudo lhes é permitido. Daí escândalos como o da Enron e as loucuras financeiras que levaram à crise (o banco Goldman Sachs é agora acusado de fraude). Ou a chocante falta de sensibilidade social de alguns banqueiros salvos da falência com o dinheiro dos contribuintes americanos e britânicos, e que não tiveram vergonha de vir depois embolsar bónus astronómicos.

Em Portugal os desequilíbrios de rendimentos são maiores do que na maioria dos outros países europeus, o que é razão adicional para nos preocuparmos com a autêntica bomba-relógio que as economias de mercado estão a fabricar. E há sobretudo uma razão ética para não aceitar estas desigualdades. Mas parece que a ética caiu em desuso em largas faixas das nossas sociedades.

Francisco Sarsfield Cabral

 

 

 A Ilha dos Pinguins

Naquele momento, o santo Maël, juntando as mãos, suspirou profundamente:

“Não vedes, meu filho, exclamou, aquele furioso que, com os dentes, corta o nariz do adversário aterrorizado, e aquele outro que esmaga a cabeça de uma mulher debaixo de uma pedra enorme ?

-Vejo-os, respondeu Bulloch. Estão a criar o direito ; a fundar a propriedade ; a definir os princípios da civilização, as bases da sociedade e os fundamentos do Estado.

-Como pode isso ser ? perguntou o ancião Maël.

-Delimitando os campos. É a origem de toda a civilização. Os vossos Pinguins, ó mestre, cumprem a mais respeitável das funções. A sua obra será consagrada através dos séculos pelos jurisconsultos, protegida e confirmada pelos magistrados.”

Enquanto o monge Bulloch pronunciava estas palavras, um Pinguim grande, branco de pele e ruivo descia para o vale com um tronco de árvore ao ombro. Ao aproximar-se de um Pinguim pequeno tisnado do sol, que regava as suas alfaces, gritou-lhe:

“O teu campo é meu!”

E, uma vez pronunciada esta frase poderosa, deu com a moca na cabeça do Pinguinzinho, que caiu morto na terra cultivada por suas mãos.

Perante aquele espectáculo, o santo Maël estremeceu e derramou lágrimas abundantes.

 

Anatole France, A Ilha dos Pinguins



publicado por tambemdeesquerda às 23:55
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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