Segunda-feira, 03 de Maio de 2010

Carta enviada à Directora do Público para publicação

 

 

O vosso jornal publica hoje, 3 de Maio, a pp. 30, uma carta de Rui Baptista, leitor de Coimbra, com o título “O senhor da guerra”. Trata-se de uma catilinária (género que creio ser do agrado do autor da carta) contra o dirigente da FENPROF Mário Nogueira – alvo dilecto de quem, neste país, não digere facilmente a combatividade, a coerência e a coragem de homens e mulheres que se entregam de alma e coração a um sindicalismo que não verga a espinha perante as arremetidas do poder.

 

Curiosamente, a página ímpar contígua (e ainda se diz que não há coincidências!...) contém a “resposta” do visado – Mário Nogueira (como se adivinhasse) intitula o seu artigo publicado nesta mesma edição do Público “Esta FENPROF incomoda que se farta!”. Admito ser legítimo, invertendo os termos da equação, pensar que a carta de Rui Baptista é a “resposta” ao artigo de Mário Nogueira – a redacção do Público, melhor do que ninguém, o saberá. Porém, a confirmar-se esta hipótese, tratar-se-ia de resposta fraquita.

 

Está, pois, no essencial, desmontada e respondida a carta de Rui Baptista. Esta FENPROF incomoda, ponto.

 

Não tenho procuração do meu colega e amigo Mário Nogueira para o defender e há, seguramente, outros muito mais habilitados do que eu para rebater as insinuações e acusações de Rui Baptista. Contudo, eu mesmo fui dirigente de um sindicato que integra a FENPROF. Nessa qualidade, sinto-me atingido pelas atoardas de Rui Baptista, pelo que gostaria de lhe dizer duas ou três palavras.

 

O antagonista de Mário Nogueira e da FENPROF confessa “dificuldade em compreender como sindicalistas ao serviço de partidos políticos se arrogam o direito de discutir assuntos de avaliação sem a vivência diária dos problemas dos professores”. É velha a insinuação da “correia de transmissão”, mas o senhor Rui Baptista não sente dificuldade em compreender como cem mil professores respondem, repetidamente, à chamada destes sindicalistas espúrios? Se calhar, estão todos eles “ao serviço de partidos políticos”. E, quanto a discutir “assuntos de avaliação sem a vivência diária dos problemas dos professores”, algumas perguntas: terá o senhor alguma ideia do que são as sedes e as delegações dos sindicatos de professores e da quantidade de professores que por lá passam todos os dias? Terá uma noção aproximada do número de deslocações que os sindicalistas fazem às escolas? Saberá, por acaso, que a esmagadora maioria dos dirigentes da FENPROF e dos seus sindicatos membros está nas escolas, a leccionar, e que só uma ínfima minoria tem dispensa de serviço, aliás indispensável para o desempenho cabal de algumas responsabilidades? Ou preferiria o senhor Rui Baptista que Mário Nogueira deixasse de comparecer na sua escola de cada vez que tivesse uma reunião no Ministério da Educação? E a senhora ministra da Educação – esta e a sua predecessora – estará desligada de qualquer partido político? E, arrogando-se (ou ela não “se arroga”?) o direito de discutir assuntos de avaliação”, devemos presumir que preenche a condição da “vivência diária dos problemas dos professores”? Em que escola leccionava Lurdes Rodrigues? Isabel Alçada lecciona?

 

Visivelmente, de Ortega y Gasset, Rui Baptista reteve o ”ódio aos melhores”, que a sua carta ressuma. Mas não guardou lembrança do respeito pela opinião alheia.

 

 

O senhor da guerra

 

A crónica de Helena Matos, publicada neste jornal (22/4), intitulada "O admirável mundo dos sindicatos", refere as ameaças bélicas de Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, contra a actual ministra da Educação, Isabel Alçada: "Se o Governo quer guerra, é guerra que vai ter (Abril 2010)". Aliás, declaração de guerra já feita em termos idênticos à sua antecessora, Maria de Lurdes Rodrigues, em 2008.

 

Saiu-se bem Mário Nogueira, com o apoio de retaguarda das hostes da chamada plataforma sindical, na campanha contra Maria de Lurdes Rodrigues, que foi empurrada, em boa hora, do último piso da 5 de Outubro para fora com a bandeira branca da rendição. E quando tudo parecia correr numa relação perfeita entre ele e a novel ministra da Educação, Isabel Alçada, por ela ter um passado de dirigente da Fenprof, de um momento para o outro foram ocupadas trincheiras diferentes por a actual titular da Educação não ceder terreno às ameaças do secretário-geral da Fenprof, que tem vindo a perder crédito por dar uma no cravo e outra na ferradura, com o evidente desagrado de muitos docentes.

 

As desavenças entre ambos começaram quando Isabel Alçada afirmou "estar empenhada na criação de um sistema de avaliação de professores que recompense o esforço e a qualidade" (Diário Económico, 26/11/2009). Aliás, tenho dificuldade em compreender como sindicalistas ao serviço de partidos políticos se arrogam ao direito de discutir assuntos de avaliação sem a vivência diária dos problemas dos professores (...).

 

O principal pomo de discórdia parece ser a avaliação dos professores, que, quando discutida à mesa de várias negociações, ficou prejudicada pela ameaça de Mário Nogueira de se retirar de imediato se não fossem satisfeitas as suas condições prévias de um diálogo entre si e os seus botões. Bem mais pacífico foi, porventura, o sistema de avaliação dos dinossauros do dirigismo sindical que chegaram ao topo da carreira docente afastados das escolas onde seria presuntivo estarem a dar aulas se não se tivessem tornado profissionais do sindicalismo (...) Entretanto, professores bem mais credenciados academicamente e com experiência de vida docente invejável marcam passo por um acesso congelado a escalões mais altos da carreira docente porque aprisionados em teias de uma mediocridade que muito tem prejudicado um ensino em que só através de uma maior justiça do actual sistema de avaliação dos professores, separando o trigo do joio, se poderá pôr cobro à situação de Portugal se ter tornado num país de oportunistas, parafraseando Ortega y Gasset, com "ódio aos melhores".

Rui Baptista, Coimbra, in Público, 3-5-2010

 



publicado por tambemdeesquerda às 20:14
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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