Terça-feira, 18 de Maio de 2010

 

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro,

 

Entendeu V.ª Ex.ª, e provavelmente entendeu bem, conceder tolerância de ponto aos funcionários públicos no passado dia 13 e mais dois meios-dias, exclusivamente para os de Lisboa e Porto, por ocasião da visita do papa a Portugal. Fê-lo, presumo, tendo em conta que Portugal é um país maioritariamente católico e porque se impunha conceder a Bento XVI uma recepção à altura da importância histórica da Igreja entre nós.

 

Algumas vozes se fizeram ouvir na ocasião, lembrando a V.ª Ex.ª que somos um Estado laico e que a crise e as dificuldades económicas do país têm sido repetidamente evocadas para convocar os portugueses a trabalharem sempre mais e melhor. V.ª Ex.ª, porém, não lhes deu ouvidos e reiterou a estrita necessidade de receber condignamente o chefe da Igreja Católica, que acumula tal qualidade com as de chefe de Estado e de intelectual insigne.

 

Se eu tivesse dúvidas quanto à solidez das premissas em que V.ª Ex.ª escorou a sua decisão, nomeadamente no particular da devoção dos portugueses, tê-las-ia perdido ao presenciar o espectáculo mediático do acolhimento ao Sumo Pontífice, quer em Lisboa, quer em Fátima, quer no Porto. Vivemos, com efeito, num país de católicos fervorosos, de tal modo incensadores não “de mil deidades”, como o poeta, mas do papa, que com mais propriedade se deveria talvez falar de idolatria – o que, aliás, convoca mais uma vez o tópico erasmista das manifestações exteriores de religiosidade, por oposição à religião vivida no foro íntimo de cada um. Mas isto são contas de outro rosário, e quem sou eu – ateu, por acréscimo – para me pôr a dissertar sobre a fé e a maneira como cada qual a vive?

 

Não entrarei por esse caminho. O meu intuito é outro, e bem diverso. O ponto é este: a vida está difícil para o povo, em geral, e, em particular, para muitos daqueles que, não tendo dotes excepcionais, não lograram ainda, e provavelmente jamais lograrão, alcandorar-se a lugares de administração de grandes empresas públicas, privadas e mistas. Ora as medidas tomadas recentemente pelo governo a que V.ª Ex.ª preside, patriótica e elegantemente coadjuvado pelo seu vice-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, vão torná-la ainda mais difícil.  Não querendo – até por uma questão de respeito para com V.ª Ex.ª e restantes membros do governo – discutir a bondade de medidas como o aumento do IVA e do IRS, o certo é que tomei conhecimento de que, respondendo ao apelo da CGTP, milhares de trabalhadores vão manifestar o seu descontentamento no próximo dia 29 e é expectável que façam greve mais tarde.

 

V.ª Ex.ª é provavelmente agnóstico – condição que o aproxima de mim, ateu confesso, mas o afasta da esmagadora maioria dos nossos concidadãos. O agnosticismo, porém, não o impediu de receber com todo o respeito o papa. Também é de supor que, em matéria sindical, os seus sentimentos se pautem mais pelo cepticismo do que por uma adesão convicta – excepto, claro, no tocante às virtudes do sindicalismo livre e independente da UGT. Não obstante, é um democrata. Nessa condição, há-de admitir que, para além de maioritariamente católico, Portugal é um país maioritariamente de trabalhadores. Poderíamos até dizer: maioritariamente de trabalhadores católicos. Mas que se manifestam, por vezes. E estas manifestações gigantescas (há não muito tempo, eram cerca de duzentos mil), se não radicam na fé católica ou numa qualquer busca do transcendente, não deixam de ter um carácter religioso – no sentido etimológico da ligação. Não se trata da ligação (vertical) ao divino, mas, de facto, elas nascem do sentimento da ligação (horizontal) com os outros – todos aqueles que partilham dificuldades crónicas no trânsito deste mundo – e potenciam esse sentimento. Ora o sentimento da comunhão com o outro não está, garantidamente, mais presente no coração e na mente do crente que se prostra à passagem do papa do que no coração e mente do manifestante que ergue o punho e entoa “a luta continua” ao passar no Largo do Rato.

 

Aqui chegados, V.ª Ex.ª já terá decerto percebido o intuito da minha démarche. É isso mesmo: decorrendo a manifestação do próximo dia 29 num sábado, prescindimos da tolerância de ponto. Mas, da próxima vez que uma manifestação coincida com um dia “útil”, Senhor Primeiro-Ministro, seja tão judicioso como o foi aquando da visita papal e conceda tolerância de ponto aos portugueses.

 

A bem da Nação.

 

Imagem: 

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publicado por tambemdeesquerda às 17:58
Estou a ver na televisao informacao sobre a greve geral de 24 de Novembro- os trabalhadores lutam pelos direitos conquistados com tanto sacrifício ao longo de várias gerações, pela manutenção dos salários, pela dignidade das condições de trabalho e de vida em geral.
tv online a 25 de Novembro de 2010 às 01:14

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