Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Não sei se éramos 130 mil, 150 mil ou mais de 300 mil. Sei que éramos, se não centenas, no mínimo, muitas dezenas de milhar. E que, por cada descontente que sai à rua, há dez ou vinte que o não fazem. Um porque está doente, outro porque tem de cuidar dos filhos, outro ainda porque não tem transporte, ou porque não pode, ou porque não gosta, ou porque não o deixam, ou porque.

 

Nestas circunstâncias, era de esperar que a imprensa de referência se fizesse eco do clamor popular, sobretudo numa altura em que as últimas medidas ditas de austeridade e de combate à crise impõem enormes sacrifícios aos mesmos de sempre.

 

Ora o Público de ontem trazia, com efeito, uma enorme fotografia na primeira página. Uma fotografia que ocupa mais de metade da primeira página – a metade esquerda. Depois, ao lado, outra fotografia, bem mais pequena. Esta última mostra frondosas copas de árvores que encimam um grupo de algumas dezenas de pessoas, empunhando bandeirolas e cartazes; a fotografia grande representa a metade direita de um rosto sorridente e tem inscritas estas palavras: “Entrevista exclusiva. Cristiano Ronaldo promete marcar golos e quer chegar às meias-finais. Págs. 2 a 4”

 

Nas páginas interiores, o Público traz mais algumas fotografias da manifestação de sábado. Os manifestantes que nelas se vislumbram, todos somados, pouco ultrapassarão a meia centena, parecendo ter sido preocupação do fotógrafo captar, para além das copas luxuriantes da Avenida da Liberdade, o céu azul e branco do Marquês de Pombal e alguns prédios mais altos.

 

Estando os critérios editoriais do Público acima de qualquer suspeita, ficar-me-ia mal ver neste tratamento jornalístico algo mais do que a preocupação de não mostrar pessoas vestidas sem grande cuidado, bastas vezes despenteadas e algumas esbaforidas, que o dia esteve quente. Admito também que o jornal de referência – movido pela patriótica intenção de ocultar perante as agências de rating que, afinal, em vez de trabalharmos para debelar a crise, andamos a desfilar pelas avenidas de Lisboa – terá preferido mostrar apenas pequenos grupos, de modo nenhum representativos de grandes massas de trabalhadores, que, esses, não estão para desbaratar o seu empenhado esforço de recuperação nacional em acções estéreis de protesto. A corroborar esta minha convicção aí está, de resto, o texto da reportagem, que se espraia em ponderações e cômputos de observadores e especialistas independentes em contagens, para reconduzir o exagero do número avançado por Carvalho da Silva (mais de 300 mil) a cifras muito mais decentes, quais seriam as de 110, 130, talvez – máximo dos máximos – 150 mil.

 

Como já duas ou três vezes me aconteceu, apetecia-me enviar este texto ao Público, como sinal de reconhecimento pela seriedade do seu trabalho informativo. Infelizmente, sem que eu consiga compreender porquê, dessas duas ou três vezes, os meus textos não tiveram o acolhimento do senhor director e da actual senhora directora. Admito que por excesso de trabalho. E, como não os quero sobrecarregar ainda mais, desta vez nem sequer lhes envio este texto, para além do mais algo extenso e com referências disparatadas a copas de árvores, prédios altos e sacrifícios impostos aos mesmos de sempre.

 

Não me dispenso, contudo, de pespegar aqui umas quantas fotografias que eu próprio tirei com o telemóvel, que – vá-se lá saber porquê! – conseguiu captar bastante mais gente do que a câmara fotográfica profissional do repórter do meu jornal de referência.

 

Disse.

 



publicado por tambemdeesquerda às 18:05
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