Terça-feira, 29 de Junho de 2010

 

“Há em Portugal quatro partidos: o Partido Histórico, o Regenerador, o Reformista e o Constituinte. Há ainda outros, mas anónimos, conhecidos apenas de algumas famílias. […]” Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, II, Maio de 1871

 

Há em Portugal dois partidos maioritários: o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata. Os dois partidos maioritários vivem num perpétuo antagonismo, irreconciliáveis, latindo ardentemente um contra o outro de dentro dos seus debates quinzenais no parlamento. Tem-se tentado avistar algo que os una. Impossível! Eles só possuem de comum a elegância dos seus líderes e a cúpula do salão nobre que a todos cobre. Quais são as irritadas divergências de princípios que os separam? Vejamos:

 

O Partido Socialista é democrático, liberal, intimamente liberal, e lembra no seu programa a necessidade da economia de mercado.

 

O Partido Social-Democrata é democrático, imensamente liberal e doidinho pela economia de mercado.

 

Ambos têm o mesmo afecto à iniciativa privada;

 

Ambos tecem louvores à integração europeia;

 

Ambos almejam o aumento da produtividade e citam o PEC;

 

Ambos propugnam a diminuição do peso do Estado na economia;

 

Quais são então as desinteligências? – profundas! Assim, por exemplo, a ideia do pagamento das SCUTs entendem-na de diversos modos.

 

O Partido Socialista diz gravemente que é um acto de justiça cobrar portagens nas SCUTs e que o chip é um instrumento patriótico de combate à crise. O Partido Social-Democrata nega, nega numa divergência resoluta, provando com abundância de argumentos que o que é preciso é – um dispositivo electrónico de matrícula.

 

A conflagração é manifesta!

 

Na acção governamental as dissensões são perpétuas. Assim o Partido Socialista propõe a concretização da rede ferroviária de alta velocidade prevista em Resolução de Conselho de Ministros do governo social-democrata, cinco anos antes. Porque é necessário assegurar a ligação ao resto da Europa, não cair no isolamento, seguir ao ritmo dos nossos parceiros da União Europeia… Propõe a concretização da rede de alta velocidade.

 

Mas então o Partido Social-Democrata, agora na oposição, brame de desespero, reúne o seu conclave. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se de agonia, e cada um alarga o colarinho ou o decote na atitude de quem vê desmoronar-se a pátria!

 

- Como assim! – exclamam todos. – Uma rede de alta velocidade!? Com o país afundado na crise!?

 

- Vossas excelências diziam-no afundado na tanga quando o propuseram há seis anos!

 

- …

 

E então contra a rede de alta velocidade jura-se que a tanga e a crise são entidades distintas e que qualquer semelhança entre as duas só pode ser tida por coincidência fortuita. Logo se garatujam artigos, medram estudos, tramam-se votações!

 

Não, não! Com divergências tão profundas é impossível vislumbrar a mais ínfima semelhança entre estes dois partidos.



publicado por tambemdeesquerda às 23:45
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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