Terça-feira, 06 de Julho de 2010

 

O PS tinha-nos habituado, durante a vigência dos governos do PSD com ou sem o CDS, a um determinado estilo de oposição que consistia, grosso modo, em criticar severamente as medidas daqueles governos até ao dia em que o próprio PS ascendia ao poder – dia em que passava a adoptar ou, pelo menos, a entender como “necessárias, em determinadas circunstâncias”, “imprescindíveis, na actual conjuntura”, “dolorosas, mas incontornáveis, dadas as severas limitações orçamentais”, as mesmíssimas medidas que até então criticara. Assim aconteceu com o código do trabalho, com a política da imigração, com a política fiscal e com o afrontamento de classes profissionais inteiras, entre muitos outros exemplos que o tempo se tem encarregado de apagar de muitas memórias.

 

Já todos estávamos habituados àquele ritual oposicionista de fraseado contestatário (aqui d’el-rei que a direita nada respeita) imediatamente transmutado em fraseado patriótico de salvação nacional com o sacrifício dos trabalhadores, logo que se chegava ao poder.

 

Agora, porém, com a nova liderança do PSD, a oposição transmudou-se: dialoga lealmente com o poder, participa em infindáveis reuniões de acerto de posições, busca todos os consensos possíveis para que o poder possa… salvar a pátria com o sacrifício dos trabalhadores.

 

Governo e PSD assumem-se como CPCP – Conselho Permanente de Concertação Política – sempre que estão em causa os superiores interesses da pátria, como acontece com o PEC e as portagens.

 

 

Esta oposição que tanto se esforça por não o ser (será que se esforça?!) lembra-me as figuras gramaticais do aposto, do acessório e da aposição. O aposto, que é um complemento do nome, é um substantivo que imediatamente se junta a outro para melhor o determinar ou caracterizar: “Saramago, prémio Nobel de Literatura…”, “O PSD, extensão do governo, actualmente sem funções governativas formais…”, eis dois apostos destacados a negrito. Quanto ao acessório (ou atributo) é quase o mesmo, com a diferença de ser um adjectivo, que qualifica o substantivo: “Políticos frios, Sócrates como Passos pugnam pelos interesses do grande capital…”. Finalmente, se o adjectivo não só qualifica o substantivo como indica uma circunstância complementar da acção do verbo, temos o apositivo ou adjectivo em aposição: “Sócrates aceitou, cordato, o princípio do utilizador pagador…”

 

Mais do que oposição, o PSD é, por natureza que não pelo concurso actual de circunstâncias, um aposto, um acessório, um partido em aposição ao PS.



publicado por tambemdeesquerda às 17:03
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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