Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

Em 1995, com Cavaco Silva na liderança do Governo e Manuela Ferreira Leite à frente do Ministério da Educação, os professores viviam dos momentos mais conturbados da sua história profissional, só ultrapassados pela perseguição que lhes viria a mover a excelsa Maria de Lourdes Rodrigues. É o que se pretende denunciar, em registo satírico, nesta paródia dos autos vicentinos que então publiquei no jornal do meu sindicato.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AUTO DAS ATRIBULAÇÕES DOCENTES (1995)

(Farsa mais séria do que parece, em 1 acto – de protesto dos professores e educadores – e 5 cenas lastimáveis – do Ministério da Educação. Paródia da trilogia das barcas, de Gil Vicente.)

 

FIGURAS: Arrais da Educação (sem ela; exibindo uma estranha semelhança de feições com a Drª' Manuela Perreira Leite, o que é pura coincidência); Arrais da Justiça (elementar); Professora contratada (no desemprego e sem direito ao subsídio respectivo); Professor colocado a 200 Km (de casa e da família); Professora no 7º escalão da carreira (sujeita à absurda prova de candidatura ao 8º escalão), FENPROF.

 

Entra o ARRAIS DA EDUCAÇÃO e diz:

 

À barca, à barca - oulá! -,

temos maré de sucesso!

Quanto a mim, o que vos peço

é que aguardeis por cá.

O espectáculo já está

pronto, pronto, a começar,

com Mestre Gil a ajudar,

para a gente que virá.

 

À barca, à barca, hu!...

Asinha, que se quer ir!

Ó que tempo de partir,

louvores a Cavacu!

 

(esfrega as mãos, de contente)

 

Entra o ARRAIS DA JUSTIÇA e diz:

 

Ora - sus! - que fazes tu,

que mais pareces, megera,

um cão raivoso, uma fera?

Chega pra lá esse ... hu!...

 

ARRAIS DA EDUCAÇÃO:

 

Tu não me trates assim,

ó força do bloqueio!

Deixa vir quem aqui veio

e que se acerque de mim.

Sabes por que aqui vim?

Eu comando a progressão

na barca da Educação!

 

ARRAIS DA JUSTIÇA:

 

Cuida então bem dela, sim?!

 

Entra uma professora contratada e diz-lhe o Arrais da Educação:

 

Anda cá! Aproximar!

Quem és tu, desconsolada?

PROFESSORA CONTRATADA:

 

Eu sou uma contratada

que ficou por colocar.

 

ARRAIS DA EDUCAÇÃO:

 

E que vens reivindicar?

 

PROFESSORA CONTRATADA:

 

Assistência material,

como acontece em geral

com quem não vai trabalhar.

 

Durante anos servi

com zelo e dedicação

o Estado e a Educação.

Até que este ano me vi

– coisa que eu nunca cri –

no desemprego, sem nada.

 

ARRAIS DA EDUCAÇÃO, dirigindo-se ao Arrais da Justiça:

 

Vede, Senhor, a coitada!...

 

ARRAIS DA JUSTIÇA:

 

Vede vós, que eu já vi!

 

Nosso Estado é de direito,

democrático ele se diz.

Por isso, fiz o que fiz (1)

e tal situação rejeito.

Pra mim, isto não tem jeito.

Cumpra-se a Constituição,

reconheça-se razão

a quem move este pleito.

 

(Entra um Professor colocado a 200 km de casa e da família)

 

ARRAIS DA EDUCAÇÃO:

 

Avança, meu malandrim!

Com que então outro atestado...

Vejam-me este ar tão cansado!

Porque te portas assim?!

 

PROFESSOR COLOCADO A 200 KM:

 

Fui parar a Alcoutim (2),

no concurso distrital,

o que não está nada mal

pra quem vive em Bensafrim (2).

 

ARRAIS DA EDUCAÇÃO:

 

E tu queixas-te, marau,

dessa vida de turista?!

 

ARRAIS DA JUSTIÇA, para o Arrais da Educação:

 

Foge tu da minha vista,

se não queres levar c'um pau!

Bensafrim é quase o Vau,

Alcoutim é quase Espanha!

 

ARRAIS DA EDUCAÇÃO:

 

E isso desculpa a manha?

 

ARRAIS DA JUSTIÇA:

 

Mas não é ele quem é mau!

 

Cuida mas é, ó ronceira,

que não atas nem desatas,

lá com os teus pataratas

bacharéis em baboseira,

de corrigir essa asneira:

regulamenta de vez

o artigo sessenta e três

do Estatuto da Carreira (3).

 

(Entra uma Professora no 7º escalão da carreira, com vinte anos de serviço)

 

ARRAIS DA JUSTIÇA:

 

Vinde cá, mulher de bem,

para onde quereis ir?

 

PROFESSORA NO 7º ESCALÃO:

 

Queria pra o topo seguir,

estou no 7º, porém ...

 

ARRAIS DA JUSTIÇA:

 

Mas para passares além

virás tu merecedora?

 

PROFESSORA NO 7º ESCALÃO:

E que fez esta professora

pra merecer tal desdém?

 

ARRAIS DA EDUCAÇÃO:

 

Falta-te a candidatura! (4)

Isto agora é promoção,

já não é só progressão

- não há bem que sempre dura!. ..

Não te chegou a fartura

dos escalões anteriores

quando passavas ... sem dores?

 

PROFESSORA NO 7º ESCALÃO:

 

A minha razão é pura:

 

o que eu fui - sou e serei:

profissional consciente

e dos meus deveres ciente.

No oitavo, não mudarei

uma vírgula ao que sei;

esta prova é uma barreira

com que o Estado na algibeira

mete o dinheiro e a lei.

 

A minha colega Maria

fez o estágio equiparado

ao célebre Exame de Estado

e também ela porfia:

passar pra o oitavo queria ...

 

ARRAIS DA JUSTIÇA:

 

E eu já dei meu parecer,

dizendo que, a meu ver,

essa pretensão colhia.

 

De resto, o Tribunal,

por três vezes consecutivas,

não entrou em evasivas:

o Despacho é ilegal. (5)

Dou, pois, razão, em geral,

à Professora queixosa.

 

 ARRAIS DA EDUCAÇÃO (chorosa):

 

Eu sou Leite, eu sou mimosa!

Porque me tratais tão mal?

 

(Vem a FENPROF, com a bandeira em punho, e diz:)

 

Recusas negociar,

és mesquinha e prepotente,

mas que fique bem assente

que nos não vamos calar.

Está na hora de lutar

pla profissão e o ensino.

Esta é a bandeira, este o hino

de quem se sabe indignar.

 

ARRAIS DA JUSTIÇA, para o Arrais da Educação:

 

A Senhora não se enfade

e não seja autoritária.

Um professor não é pária,

tem a sua dignidade!

E nesta oportunidade

não reivindica mais nada:

 

TODOS, excepto o Arrais da Educação:

 

PROFISSÃO VALORIZADA,

ENSINO DE QUALIDADE.

 

 

(Aqui fenece o Auto)

 

________________________________________

 

NOTAS:

 

1 - O Provedor de Justiça requereu ao Tribunal Constitucional, em 15/11/1994, a “verificação do não cumprimento da Constituição” por parte do Governo, ao não legislar sobre o direito dos professores e educadores que não obtêm colocação a subsídio de desemprego.

2 - A1coutim e Bensafrim ficam, respectivamente, no nordeste e no oeste do distrito de Faro, a perto de 200 km de distância.

3 - Nos termos deste artigo (63º) do Estatuto da Carreira Docente, o Governo deveria conceder "subsídios destinados a criar condições de fixação de docentes em zonas desfavorecidas ou isoladas."

4 - O art 10º do Dec.Lei nº 409/89, de 18 de Novembro, faz depender o acesso dos docentes ao 8º escalão da carreira "de aprovação em processo de candidatura", mero artifício legal para dificultar a progressão, numa carreira cujo conteúdo funcional não muda, do 1 º ao 10º escalão. Qualquer que seja o escalão em que se encontre, o professor ou educador desempenha sempre a mesma tarefa, sempre do mesmo modo, e se, por acaso, reprovar na candidatura atrás referida, continua no sistema, apenas sendo impedido de progredir. 5 - O Supremo Tribunal Administrativo já proferiu três acórdãos em que dá razão aos professores contra o Ministério da Educação: o Despacho de 23/10/92, do Secretário de Estado dos Recursos Educativos, é ilegal, estando os professores habilitados com o chamado “estágio clássico” equiparados aos que têm o Exame de Estado extinto em 1974.

 

24 de Março de 1995



publicado por tambemdeesquerda às 23:20
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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