Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Há alguns anos que uma preocupação de ordem político-social, mas também singelamente pessoal (egoísta), me começou a habitar: a de que a perda de influência dos sindicatos e dos partidos políticos de esquerda (quando digo esquerda, refiro-me mesmo à esquerda e não ao reformismo dos partidos ditos socialistas) a par do agravamento das condições de vida dos trabalhadores viesse, mais cedo ou mais tarde, a desembocar em situações de violência descontrolada e generalizada.

 

A questão não é, obviamente, nova, nem a correspondente preocupação me é exclusiva. Desde que surgiram, com a Revolução Francesa, os primeiros embriões de partidos políticos (então chamados clubes), seguramente a violência revolucionária e a sua utilização controlada, como motor de transformação político-social, estiveram sempre presentes no espírito, no discurso e na acção dos actores sociais.

 

Entretanto, as sociedades desenvolveram-se, multiplicaram-se as relações de produção, na razão directa do incremento demográfico e da industrialização, as associações de natureza política e sindical proliferaram, como expressão da defesa de interesses de classes sociais e profissionais, e simultaneamente como instrumentos de consciencialização dos seus membros.

 

Em Maio de 1968, a dicotomia reforma / revolução era o leitmotiv dos grupúsculos esquerdistas, na sua denúncia permanente do Partido Comunista Francês e da CGT, e a componente anarquizante do movimento era bem visível sempre que estes mesmos grupúsculos acusavam o partido e a central sindical de retirarem acutilância ao movimento grevista e contestatário em geral, através do controlo e da moderação que lhe impunham.

 

Não vem agora ao caso discutir a justeza destas acusações, mas o certo é que, se tal controlo impediu que a revolução se cumprisse (como alguns supunham), também evitou que a revolta descambasse numa sucessão de actos de violência gratuita e que a violência da polícia e do exército afogasse a utopia num rio de sangue. O PCF e a CGT tinham força, tinham influência, outros sindicatos e partidos de esquerda também as tinham, e foi possível seguir em frente, com alguns ganhos significativos em matéria de mentalidades e de direitos, ainda que o poder da burguesia tenha permanecido intocado e a direita até tenha progredido nas eleições gerais que se seguiram ao movimento contestatário. Se os poderosos praticamente não recuaram, também os desfavorecidos não tiveram que chorar a morte dos seus.

 

Nos últimos anos, o panorama alterou-se a desfavor das forças progressistas. A imprensa tem-se feito eco (ainda que comedidamente e, por vezes, com episódios de censura óbvia) dos acontecimentos ocorridos na Grécia, em França, na Islândia e noutros países, a propósito das medidas de austeridade implementadas alegadamente para combater a crise (a crise produzida ciclicamente pelo sistema acarinhado por aqueles que implementam as medidas de austeridade para a combater). Entre nós, como garantidamente nos restantes países da união Europeia, para nos atermos à Europa), a crise afecta apenas os trabalhadores. Prova disso são os lucros fabulosos de grandes empresas, dos grupos económicos e dos bancos; os vencimentos inqualificáveis de gestores e administradores; as pensões de reforma acumuladas por indivíduos que, miseravelmente, vêm receitar a descida dos salários dos trabalhadores; as festas comemorativas e jantares oferecidos por departamentos do Estado e por autarquias.

 

A esta discrepância entre os sacrifícios impostos aos trabalhadores e as prebendas de que beneficia a burguesia – proprietária, gestora e administradora do Estado como dos bens que deveriam ser de todos – apetece-me chamar imoral, mas, mais do que moral, o problema é de natureza política. E tem solução. Ainda na semana passada, o Partido Comunista Português apresentou, nas suas Jornadas Parlamentares, um conjunto de propostas. É claro que são propostas que não agradam nem a gestores, nem a administradores, nem a banqueiros, nem a políticos da direita ou do centrão. E também é claro que, sendo propostas do PCP, são automaticamente desvalorizadas – não apenas pela imprensa de referência, mas pela esmagadora maioria da inteligência bem-pensante.

 

É também, cada vez mais, claro que as desigualdades e injustiças sociais já não suscitam apenas indignação – cada vez mais, suscitarão desespero. Não estranhei, por isso, que, ultimamente, alguns comentadores e até ex-presidentes da República tivessem vindo brandir a ameaça da revolta social. O General Ramalho Eanes referiu-se à contestação orgânica como forma não só legítima como desejável de libertação das tensões sociais e o Dr. Mário Soares, no seu discurso mais imagético, dizia que, enquanto as pessoas descerem a avenida a gritar slogans, ainda a coisa vai.

 

Realmente, enquanto a CGTP e o PCP mantiverem a capacidade de mobilizar e de canalizar o descontentamento popular, a coisa vai. Não vai até à revolução – historicamente, a única forma de instaurar uma nova ordem mais justa –, que as condições subjectivas e parte das objectivas não estão criadas, mas vai até ao limite possível da expressão do descontentamento e da reivindicação colectiva.

 

Quando assim não for, cairemos no caos da revolta, que imola justos e pecadores.



publicado por tambemdeesquerda às 12:16
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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