Domingo, 24 de Outubro de 2010

“O enredo é frouxo, invertebrado e, nos momentos esparsos em que consegue encaixar-se com interesse relativo, narra experiências banais, histórias que não se distanciam daquelas que poderiam pertencer ao vizinho ou, quando muito, ao vizinho do vizinho.”

 

O parágrafo anterior pertence à 2.ª parte do romance Livro, de José Luís Peixoto (página 224, Quetzal, Lisboa, 2010), onde, durante algumas páginas, a personagem Livro, produz um discurso crítico da primeira parte. Se faço esta citação, não é por partilhar tal opinião, mas, pelo contrário, por dela discordar e para a rebater. A urdidura da narrativa é, a meu ver, consistente, e quanto à banalidade das experiências narradas, “que poderiam pertencer ao vizinho”, o que se pode dizer é que nem só de histórias mágicas e extraordinárias se faz a ficção, além de que o vizinho, o nosso vizinho, pode muito bem ser uma personagem fascinante, como, aliás, cada um de nós, sendo que a dificuldade está em encontrarmos autor.

 

O Ilídio, o Galopim, o Cosme, o Constantino, a Adelaide, o Livro, encontraram-no e, ao encontrá-lo, saíram do anonimato para trajectos de vida que nos transportam de 1948, por paisagens de um Portugal rural, até 2010, passando pela França dos anos sessenta, com os seus bidonvilles e com a borrasca contestatária de Maio.

 

O que, no meio de tudo isto, constitui um factor de perturbação é, como o próprio autor o reconhece em entrevistas, a natureza da 2.ª parte do romance, que quebra a unidade narrativa, desviando o discurso para um experimentalismo que destoa absolutamente da linearidade relativa da primeira parte (relativa, apenas, porque, como é comum na narrativa contemporânea, encaixe e alternância são procedimentos que Peixoto adopta sistematicamente).

 

A um outro nível, o da sintaxe frásica, a perturbação não se limita a uma ocorrência, antes irrompe com alguma frequência. É o caso da elipse, por exemplo, que pode revestir formas diferentes. Atente-se nesta frase: “Fechou a porta do quintal, pousou a chave sobre a mesa vazia, entrou no quarto, o som de abrir e fechar a gaveta vazia da banquinha, saiu do quarto, segurou na mala, deu três passos, toc, toc, toc, e abriu a porta.” (15). O membro de frase a negrito interrompe a sequência de proposições coordenadas assindéticas (“Fechou… + Pousou… + Entrou…), como se fosse uma indicação dada ao encenador encarregado de montar a cena no teatro. Algo semelhante acontece nestas outras: “Era uma noite de agosto, os grilos.” (p. 202), ou “Parei o carro, as cigarras.”, em que facilmente se subentende “ouviam-se”, ou ainda em “O meu carro, trinta quilómetros, e comprámos dois colchões novos.” (212-213), ou seja “Metemo-nos no meu carro, fizemos trinta quilómetros…”. Já em “Sentado na penumbra, e Portugal, o Ilídio chorava Portugal”, a elipse resulta apenas do facto de se pré-anunciar sucintamente uma ideia que reaparece na proposição seguinte.

 

Outro aspecto relevante na construção deste romance é a chamada autoreferencialidade: o livro que a mãe pousa nas mãos de Ilídio (primeira frase do romance), que este oferece a Adelaide, que esta lê nos intervalos do trabalho na biblioteca, em Paris, que é usado por Constantino para comunicar com Adelaide e que acaba sendo oferecido a Livro é este mesmo livro, onde, a páginas 224, podemos encontrar as palavras “gosto”, “de” e “ti” com os pequenos círculos a que se alude na página 145, em circunstâncias diferentes – preliminares do relacionamento futuro entre Constantino e Adelaide.

 

O que me causou alguma estranheza, sabendo que J. L. Peixoto é formado em Línguas e Literaturas Modernas e leccionou durante algum tempo (Inglês, é certo), foram as grafias incorrectas de algumas palavras francesas. Exemplos:

 

 “Comment s’appele o balcão das informações em francês, Libânia?” (245),

 “…le russe américain et le irlandais français”(246),

 « Où est-tu ? » (254),

 « La Dame au camélias » (256).

 

Resta-me dizer que gostei do romance de Peixoto, que, para além do mais, me encoraja a lançar-me na ficção. “Se esse despenteado que mijava atrás de sobreiros pode escrever e publicar um romance, eu também posso.” (228)



publicado por tambemdeesquerda às 17:12
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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