Terça-feira, 26 de Outubro de 2010

 

Como é do conhecimento geral, o país está mergulhado numa crise gravíssima e os responsáveis políticos, quer governamentais quer do maior partido da oposição, não poupam esforços para chegar a um acordo responsável e patriótico que nos permita ultrapassar este angustioso passo da nossa vida colectiva. Lamentável e profundamente entristecedor para qualquer português que se preze é o facto de nem toda a oposição seguir este exemplo de dignidade e de abnegação perante os superiores interesses da nação, dando mostras de compreensão das dificuldades por que o país passa nem dê um contributo válido para a sua superação, o que passaria necessariamente por ter de adoptar uma atitude construtiva em relação às inevitáveis medidas de austeridade que estão a ser implementadas.

 

Duma publicação de que sou leitor habitual, respiguei alguns números que dão uma ideia aproximada da dimensão da crise a que me venho referindo. Passo a referi-los:

 

  • No primeiro semestre de 2010, as 23 maiores empresas portuguesas obtiveram 2.913.028.265 € de lucros;
  • O BES, o BCP, o BPI e o Totta, cujos administradores, numa atitude que só os honra e é bem demonstrativa do seu patriotismo, foram recentemente aconselhar Governo e PSD  a não comprometerem a estabilidade política, tiveram 893.930.000 de lucros no mesmo lapso de tempo;
  • A EDP, nesses mesmos seis meses, auferiu 639.400.000 € e anunciou que vai aumentar em 3,8% as nossas próximas facturas de electricidade, sem o que a viabilidade da empresa ficará em risco;
  • A Galp, cuja periclitante situação financeira é bem conhecida, viu os seus lucros aumentarem apenas 89%;
  • Por cada dia que passa, o capital arrecada 16.000.000€ de lucro;
  • A cada 30 segundos, os lucros dos grandes grupos e empresas nacionais totalizam mais do que um ano inteiro de Salário Mínimo Nacional;
  • O aumento do SMN para 500€ em 2011 - acordado na Concertação Social entre todos os parceiros sociais - poderá não se concretizar, pois, representando um aumento de 0,80€ por dia, constituiria um enorme factor de risco para o equilíbrio das contas públicas.

Perante o negrume deste cenário, não é necessário ser particularmente astuto para se compreender que as medidas já implementadas e as que se anunciam em vários Pactos de Estabilidade e Crescimento, bem como no Orçamento de Estado - objecto de aturadas negociações entre Governo e PSD, inclusive ao fim-de-semana - são inevitáveis, ainda que sejam também de cortar o coração do ministro da Finanças e de outros portugueses sensíveis.

 

Nestas circunstâncias, não posso deixar de deplorar que ainda haja partidos capazes de produzirem afirmações deste calibre: "Na sequência de sucessivos pacotes de medidas restritivas e anti-sociais, o último dos quais anunciado a 29 de Setembro, o Governo apresenta uma proposta de Orçamento de Estado para 2011 que confirma a natureza de classe da política que PS e PSD têm em curso, ao serviço dos grandes grupos económicos e do capital financeiro, com a cumplicidade do CDS-PP e o patrocínio do Presidente da República." (Comunicado do Comité Central do PCP, 17/10/2010)

 

Com declarações destas, mais não faz o PCP do que reproduzir a estafada cassette marxista a que nos habituou, mas sem lograr os seus intentos. É que, felizmente, o povo português faz-lhe orelhas moucas. Se o escutasse - ai de nós! -, as agências de rating não nos dariam tréguas, os mercados financeiros esmagar-nos-iam com elevadíssimas taxas de juro, os nossos aliados germânicos brandiriam na nossa direcção o fantasma do afastamento da zona euro, em suma, o país mergulharia numa crise gravíssima. Livra! Do que nós nos livrámos!

 

Imagem: http://farm1.static.flickr.com/147/347973893_fba5b56f39_t.jpg



publicado por tambemdeesquerda às 15:42
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