Sábado, 30 de Outubro de 2010

 

O país soltou um suspiro de alívio, quando o Dr. Catroga exibiu o seu telemóvel perante os jornalistas para lhes mostrar a fotografia histórica da assinatura do acordo. Em sua casa. Sim, é que o ministro das Finanças trocou o Parlamento pela casa do antigo ministro do Dr. Cavaco. Parece que é mais aconchegada. Já combinaram que, nas rondas negociais dos PEC 4 e 5, se reunirão, respectivamente, na garagem do Dr. Pinto Balsemão (onde está a bateria) e na cave do Dr. Maldonado Gonelha (guitarra acústica).

 

O Dr. Catroga tartamudeou que era uma pena haver só aquela fotografia tirada com um telemóvel, mas enfim, que era histórica e ia directamente para um álbum qualquer que tem lá em casa.

 

Parece também que o Dr. dos Santos terá dito ou mandado dizer ao Dr. Catroga que não podia ficar insensível perante o grito lancinante do Dr. Cavaco, cujo – seguramente lembrado dos esforços insanos dos banqueiros Ricardo Salgado, Fernando Ulrich, etc., e mais lembrado ainda de ser o arrimo sem o qual a pátria estaria seguramente a atravessar uma crise gravíssima – não se conformava com a hipótese de não haver acordo, e vai daí convocou um conselho de Estado para ouvir toda a gente dizer: “Queremos que haja acordo já! E quem não salta é contra o acordo!”

 

Com franqueza! Não há pachorra!

 

Até há bem pouco tempo, tínhamos políticos que mentiam com todos os dentes, mas que o faziam com o ar mais sério deste mundo. Por assim dizer, mentiam com dignidade. Por vezes, faziam solenes comunicações televisivas ao país para dizer: “Estão a ver? Tanto me caluniaram e o processo foi arquivado!”. Ou então: “Eu não sabia, se bem que soubesse, mas não sabia oficialmente, logo não sabia, ainda que por outro lado tivesse conhecimento informal, o que é notoriamente distinto do conhecimento formal e institucional”. Todos sabíamos das manigâncias graças às quais o processo fora arquivado e percebíamos que o conhecimento tem vários níveis de concretização, mas – prontos!, como diz o outro – eles falavam convictamente, sem se rir nem corar, e isso era garantia de que conservavam um mínimo de decoro e de aparência de respeito por quem os ouvia. Porquê termos evoluído agora para este despropósito que consiste em misturar a gravidade dos assuntos de Estado com a banalidade do desabafo feito em família?

 

 Os imperadores romanos calavam o povo esfomeado e descontente com pão e circo. Aos nossos políticos do arco do poder, basta-lhes, pelos vistos, a segunda parte da receita, seguros que estão da sua total impunidade. Mas a farsa em que a vida política doméstica (e demais) está a cair sugere, cada vez mais, que a mudança de repertório e de actores não pode estar muito longe.

 

Imagem: http://farm2.static.flickr.com/1211/901117280_dc289fda79_t.jpg


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publicado por tambemdeesquerda às 18:27
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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