Terça-feira, 09 de Novembro de 2010

 

“Sôbolos rios que vão” é o primeiro verso das célebres redondilhas em que Camões faz o balanço da sua vida passada e projecta o futuro através da superação mística das contingências humanas. Sôbolos rios que vão é também o título do vigésimo segundo e mais recente romance de António Lobo Antunes.

 

Deste romance, diz a professora Maria Alzira Seixo, entre outros encómios, que “é um dos mais maravilhosos que o autor escreveu até hoje. É um dos casos em que a reflexão sobre a vida pessoal (enfim, a autobiografia!) consegue aliar-se, em ambos os escritores [Camões e Lobo Antunes] à expressão literária de um modo artístico insuperável” (Jornal de Letras n.º 1044, 6-19/10/2010). Já Rui Catalão, aparentemente menos indefectível admirador de ALA do que a professora Alzira Seixo, tempera a sua análise crítica falando-nos de “um livro muito belo e muito desequilibrado”, livro este em que “a maior fragilidade do Sr. Antunes reside em sacrificar a construção das cenas, ou dos episódios, à montagem de frases dispersas e imagens fragmentadas”. E acrescenta: “o livro está repassado de grandes momentos de literatura e os seus efeitos dramáticos chegam a ser comoventes. Mas esses efeitos que resultam de uma técnica de escrita que articula processos mentais de associação, dinamitam qualquer chance de o livro erguer outra coisa que não seja a catástrofe do cenário, da acção e das personagens” (Ípsilon, 15/10/2010).

 

Nutro grande respeito e admiração pela professora Alzira Seixo, de quem fui aluno, mas não consigo partilhar a sua simpatia por este romance de Lobo Antunes, que me faz lembrar o filme “Branca de Neve” de João César Monteiro, filme que, aliás, não vi, nem – julgo – poderia ter visto, uma vez que, depois de uma curta cena inicial em que se vê o realizador a colocar um pano sobre a objectiva da máquina de filmar, a tela escurece e nada mais se vê até ao fim, apenas se ouvindo vozes. Em Sôbolos Rios ouvem-se vozes, sobretudo a do protagonista, mas, quanto à possibilidade de visualizar, o que se passa é que as imagens são de tal modo fragmentadas e incoerentes que acabam por instituir o caos.

 

É certo que a narrativa contemporânea nos habituou às mais diversas infracções e desvios: as categorias que a enformam – tempo, espaço, acção, personagem – sofrem tratos de polé que poriam em pé os cabelos dos clássicos, ainda que alguns procedimentos agora banais não sejam novidade (basta lembrarmo-nos de Os Lusíadas, p. ex., com o seu começo in media res). Mas uma coisa são as analepses e prolepses, os encaixes e alternâncias, a sobrevalorização do stream of consciousness em detrimento da acção, a despromoção da personagem; outra é a desconstrução artificial do discurso e a sua redução a uma amálgama de segmentos disformes.

 

Admite-se um discurso incoerente, se é uma corrente de consciência torturada que se pretende reproduzir (ou criar) literariamente (o que acontece efectivamente com o protagonista de Sôbolos Rios), mas esse discurso há-de constituir um segmento relativamente curto dentro da estrutura do romance. Enformar toda a narrativa com o molde da torrente caótica de uma consciência doente (através da elipse frequentíssima de verbos e da justaposição de acções independentes ocorridas em tempos e espaços diferentes) é destrui-la. E já não falo da pontuação, pouco menos do que arbitrária, que faz da de José Saramago (tão vilipendiada!) algo de quase convencional...

 

Enfim, dir-se-ia que António Lobo Antunes se empenhou em concretizar o preceito de que quanto pior melhor. Mas o facto é que quanto pior pior.



publicado por tambemdeesquerda às 00:35
Quer mesmo um comentário ao que escreveu?
GFA a 1 de Dezembro de 2010 às 02:39

Claro que sim.

Não concordo com o seu comentário relativamente a obra, muito menos quando afirma que o livro tem um "discurso incoerente". Para mim o livro é tão rico que se o volta-se a ler mais 2 ou 3 vezes iria certamente descobrir muitas coisas que me passaram ao lado. Não nos podemos esquecer que a personagem desde livro nunca sai da cama do hospital e o texto que o autor nos apresenta são os seus pensamentos. Sôbalos Rios que São é quanto a mim uma excelente obra. Relativamente a pontuação, faço-lhe a pergunta que Saramago fazia muitas vezes: “Mostre-me algo que prove que violei as regras gramáticas do português?”
Tiago Franco a 19 de Fevereiro de 2011 às 18:18

Tiago Franco,
Antes de mais, obrigado pelo seu comentário.
Quanto ao romance do Lobo Antunes, quando pessoas tão sabedoras quanto a professora Alzira Seixo e o crítico literário Rui Catalão se pronunciam tão favoravelmente, tenho de admitir que talvez o problema seja meu. O facto é que, na minha modesta opinião, se uma escrita como esta faz sentido, sabendo-se as circunstâncias que lhe subjazem – e que, no essencial, são aquelas a que o Tiago Franco se refere, isto é, o facto de o protagonista estar hospitalizado, vítima de cancro – no espaço de um, dois, três capítulos, já me parece má ideia generalizá-la à totalidade da narrativa. É que, afinal de contas, como obra de arte que é, o romance – este como qualquer outro – deverá, em última análise, visar o prazer estético do leitor, ainda quando reconhecida e abertamente persegue outros objectivos, como sejam a denúncia de injustiças e a pedagogia social, como acontece com o romance neo-realista. Ora da leitura de Sôbolos Rios eu não consegui retirar qualquer espécie de prazer.
Deixo esta resposta ao seu comentário no seu blog, que visitei, e no meu.
tambemdeesquerda a 19 de Fevereiro de 2011 às 23:21

Boa noite,

Desde já peço desculpa pelo tempo que demorei a responder, mas, não sei porque, o seu blog não aparecia na minha pesquisa e depois de ler o seu comentário também não sei porque é que o seu comentário não apareceu no meu blog.
Concordo consigo quando afirma que temos que tirar prazer do que lemos, eu, alem de acabar sempre a leitura dos livros, independentemente de gostar ou não, só repito o autor se tiver tirado prazer da leitura anterior. Temos pontos de vista diferentes relativamente a ultima obra de Lobo Antunes. No que a mim diz respeito gostei da obra, sobretudo porque me fez recordar a minha infância e pensar sobre o meu futuro.
Desde já saúdo a sua resposta ao meu comentário, é que por vezes nos blogosfera quando não estamos de acordo com o autor do blog muitas vezes nem os nossos comentários são publicados. Julgo que ouvir o ponto de vista de outro pessoa, mesmo não sendo o mesmo que o nosso é sempre positivo.
tiago M. Franco a 24 de Março de 2011 às 19:46

Boa noite, Tiago Franco, e obrigado pela resposta - cuja falta estranhei e que está agora explicada.
Ainda relativamente a Lobo Antunes, devo dizer-lhe que gosto de outros livros dele (dos primeiros) e que gosto muito das crónicas.
Espero que continuemos a encontrar-nos nestas andanças pela literatura.

Caro Fernando Martins,

Encontrei esta crítica no site 'alawebpage,' e queria partilhar consigo que mesmo não concordando com a sua opinião, respeito a forma como a articulou.

Não me pareceu que fosse assim tão caotico nem tão impossível de visualizar. Ao contrário, achei que a rede de associações mnemónicas montada pelo narrador acabou por criar uma pluralidade de conotações admiráveis, donde surge a coerência que o amigo parece não ter encontrado. Enfim, gosto do Lobo Antunes e outra vez mais fiquei positivamente impressionado com o que ele consegue fazer com a linguagem.

Mas, são opiniões e como tinha dito respeito a sua.

Cumprimentos,

Bruno
Bruno a 15 de Maio de 2012 às 07:12

Caro Bruno,
Obrigado pelo seu comentário.
Como já noutras ocasiões, a propósito de outros comentários, tive a oportunidade de referir, tenho muita dificuldade quer em descortinar uma coerência narrativa satisfatória, quer em sentir a emoção estética que, em última análise, penso ser objectivo central de qualquer manifestação artística, nos últimos romances de ALA. Tenho em projecto um pequeno texto em que reflectirei sobre as relações da escrita de ALA com outras manifestações artísticas (pintura e música, entre outras). Se quiser esperar uns dias e voltar aqui, logo me dirá de sua justiça.

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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