Sábado, 27 de Novembro de 2010

 

De Vasco Graça Moura, possuo há anos o romance Naufrágio de Sepúlveda (Quetzal, Lx.ª, 1988), cuja leitura foi sempre preterida por outras mais urgentes. Mas acabei de ler, há dias, O Enigma de Zulmira, muito mais recente (Quetzal, Lx.ª, 2002), que me deixou uma boa recordação.

 

A escrita de Graça Moura situa-se nos antípodas da do actual Lobo Antunes. Enquanto este, na sua última fase – de desconstrução, em que o registo de memórias, aliado à segmentação do discurso e à posterior justaposição quase aleatória de segmentos conduz àquilo a que o crítico Rui Catalão chamou catástrofe narrativa –, produz romances que de algum modo se aproximam da poesia (a lírica, claro, que não a narrativo-épica), Graça Moura recusa a inovação, aposta na continuidade. Temos, assim, um romance realista, na concepção, na trama, na discursividade sem falhas nem atropelos. E até a linguagem, rica, lembra agora a do Eça, irónica e cosmopolita, logo a de Camilo, irónica e vernácula, se bem que o ritmo frásico seja geralmente mais acelerado em Graça Moura. Reencontrei neste romance alguns vocábulos que me eram familiares na infância, que nunca mais ouvi nem usei desde então e que me tinha convencido há muito de serem regionalismos a evitar – é o caso dos adjectivos esbeiçado e esbotenado, que não constam do dicionário do Word e significam, respectivamente, gasto, coçado e de bordas quebradas, deteriorado.

 

Quanto à história, interessante, põe-se a questão da verosimilhança. Uma jovem, filha de boas famílias, de temperamento particularmente fogoso, que milita no PCP e acaba por se envolver eroticamente com um agente da PIDE, de quem, aliás, faz gato-sapato, como acontecera com todas as relações anteriores – eis um enredo que não parece muito convincente. Mas este resumo muito resumido da história complexifica-se quando entram em cena as circunstâncias dos anos 50, da Guerra Fria, dos conflitos internos das organizações políticas e da actuação das polícias políticas (neste caso, o KGB, como não podia deixar de ser). Ora, se verosimilhança não é o mesmo que verdade, podemos sempre admitir que, se não aconteceu, poderia, apesar de tudo, ter acontecido.

 

A ficção da recolha de elementos sobre a personagem e a sua história, tendo em vista a redacção de um guião para a posterior realização de um filme, constituindo um interessante álibi narrativo, serve ainda de pretexto, sobretudo na parte final do romance, a considerações de ordem prática sobre a elaboração de uma narrativa: “(...) no fundo, nesta altura do campeonato, já não se tratava da história da Zulmira, mas sim do estranho caso da Zulmira e do argumentista. Era entre ela e ele. Entre o que lhe contavam dela e o que podia sair da cabeça dele. Era aí, nessa híbrida charneira, que tudo se ia jogar. Que se ia engendrar a ficção. Que ele arrancaria dos factos mas lhes acrescentaria aquilo que imaginasse. Que a verosimilhança podia ser inflectida aqui e ali. Por exemplo, deixarem a Zulmira à solta, depois de a interrogarem das primeiras vezes. Ou deixarem-na ir a França. Ou restituir um certo clima de princípios dos anos cinquenta.” (p. 151)

 

Este Enigma de Zulmira foi, para mim, um enigma duplo – dela e de Vasco, que não imaginava a escrever um romance destes.



publicado por tambemdeesquerda às 17:58
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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