Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Quando, ontem, no primeiro debate televisivo entre candidatos presidenciais, Fernando Nobre se gabou de ter criado mais de trezentos empregos e desafiou Francisco Lopes a dizer se já tinha criado “um único emprego”, senti-me muito mal. É que, como Francisco Lopes, eu também nunca criei um único emprego e talvez por isso mereça ser tratado como um indivíduo pouco merecedor da consideração dos seus concidadãos. Acto contínuo, porém, meditei durante uns segundos sobre a indignidade da minha condição e dispus-me firmemente a emendar-me, naturalmente criando alguns empregos. Desgraçadamente, não logrei vislumbrar como. Porém, à guisa de compensação, ocorreu-me uma ideia infeliz, da qual antecipadamente me penitencio. Consiste ela em que, dos dez milhões de portugueses que somos, mais coisa menos coisa, deve haver muito para cima de nove milhões que nunca criaram um único emprego, sendo que muitos deles, inscritos ou não em centros de emprego, bem gostariam de encontrar um que lhes assegurasse a sobrevivência com um mínimo de dignidade. Tranquilizada a consciência, dei livre curso à meditação encetada segundos antes, perguntando-me se Fernando Nobre não teria confundido Francisco Lopes com van Zeller, Belmiro ou Amorim. Melhor dizendo, aliás – para citar aqueles que criam emprego sem o destruírem noutro lado –, com um qualquer micro-empresário da restauração ou da mecânica automóvel. Não obtive resposta.

 

Desbridada a meditação, ocorreu-me ainda que, se nunca criou um único emprego, Francisco Lopes é contudo um destacado dirigente dum partido que combate as políticas daqueles que têm destruído empregos – não aos trezentos mas aos milhares –, cujos são nomeadamente o PSD e o PS. Ora o antagonista de Francisco Lopes apoiou candidaturas desses predadores sociais em diferentes ocasiões. Por que misteriosa razão?

 

Ainda me aflorou ao espírito uma ideia estapafúrdia e particularmente perversa, a saber: Fernando Nobre granjeou o prestígio que tem graças a uma associação humanitária que só pode desenvolver a sua actividade com os contributos dos seus doadores, homens e mulheres de todas as condições e partidos, ou sem partido, movidos apenas pelo anelo da solidariedade activa. Há-os, com certeza, apoiantes de Cavaco, de Alegre, de Moura, dele mesmo, Nobre. E de Lopes, como é o meu caso. Como se sentirão eles a apoiar, ainda que indirectamente, um candidato que não apoiam politicamente?



publicado por tambemdeesquerda às 23:55
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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