Segunda-feira, 18 de Abril de 2011

 

 

João Viegas Fernandes (desta vez acolitado por Mónica Tomaz) empunha as palavras como bandeiras, brande-as como armas, agarra nelas como em pedras, e atira-no-Ias com a força das certezas forjadas nos combates deste mundo. Como ele, sabemos que, perante o horror do sofrimento humano, não nos é permitido hesitar; que não é tolerável permanecer no limbo da inacção quando o que está em causa é simplesmente a vida. Imaginamo-lo, na sinceridade nua do olhar indignado e no gesto resoluto de protesto, a tingir o discurso político de matizes morais, como quando os antagonismos sociais que o materialismo histórico esclareceu há cento e cinquenta anos aparecem com a designação de "mundo perverso". Não é de estranhar, se Paulo Freire, o Mestre, o adjectiva de "malvado".

"Mundo perverso" - passe o epíteto - profusamente, exaustivamente caracterizado ab initio, à maneira de didáctico garde-fou, como que para se precaver de eventual acusação de vacuidade ou de insuficiente fundamentação: eis o mundo que temos e em que o nosso exercício profissional se cumpre; estas são as premissas com que discorremos; já a seguir veremos como sair do atoleiro. Mas, ao invés do cartesiano "cogito ... ", aqui o silogismo é outro: vivo, logo penso, logo não posso deixar de agir; ou ainda, à maneira de Fanhais: "Vemos, ouvimos e lemos; não podemos ignorar". Já não é a dúvida que é metódica, mas sim a certeza, porque lá está o PNUD com seus números alarmantes, lá estão as crianças a morrer de fome ("Estima-se que cerca de dez milhões de crianças, com menos de cinco anos, morrem todos os anos em consequência directa ou indirecta da desnutrição, ou seja, cerca de trinta mil por dia.", cap. I), lá está o TPI e a infame impunidade concedida aos militares americanos pelos quinze membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, lá está o planeta conspurcado que vamos deixar aos vindouros.

É que só nos anos 70 a UNESCO afirmou, na conferência de Estocolmo, os aspectos sociais, económicos e culturais do conceito de ambiente que o chefe índio Seattle intuíra desde meados do século XIX, como muito bem o prova na sua carta ao Grande Chefe Branco de Washington. O paradigma educacional assente no respeito da natureza e que promova a "sabedoria integral" do ser humano, carece de rápida reinvenção. Ele usará a passagem da consciência antropocêntrica para a consciência ecocêntrica e a subsequente consecução da cidadania ecológica e planetária. Porque "tudo o que acontece à terra acontecerá aos filhos da terra... "

Outro aspecto a considerar no paradigma educacional a implementar é o das novas tecnologias da informação - um dos "suportes fundamentais" da globalização neoliberal. Relativamente à web, há que denunciar quer a sua ineficácia para melhorar a comunicação humana, quer o objectivo de a tornar um instrumento de "comércio electrónico à escala mundial', mais do que uma "dimensão de comunicação livre". Donde a imprescindibilidade do desenvolvimento nos alunos da consciência crítica sobre as mesmas, opostamente ao que faz a educação unidimensional com a "cultura inculta" que veicula e promove - divorciada da ética, dos afectos, logo alienante.

A desordem social fomentada pelo neoliberalismo está na origem do crescimento da indisciplina nas escolas e dos consequentes casos de stress dos professores. O combate a este estado de coisas trava-se necessariamente em várias frentes. Uma das mais eficazes é certamente a da educação, entendida na sua dimensão axiológica, holística, que não, conforme a história tem comprovado, na sua mera função transmissora de conhecimentos e reprodutora do statu. Por outro lado, a educação para a paz não passará de voto piedoso, quando não de deliberada fraude, sempre que, ao invés de "revelar o mundo das injustiças, o torne opaco e tenda a cegar suas vítimas" (P. Freire).

Outros vectores fundamentais de um mundo melhor: a educação multi-intercultural, a equidade entre géneros e os direitos humanos. Quanto à primeira, importa conferir-lhe plena transversalidade curricular, contrariando a marginalidade e supletividade curricular a que as perspectivas neoliberais da escola a confinam; a inequidade entre géneros, a combater, reveste-se de aspectos vários, atravessa a própria linguagem androcêntrica que usamos, que nos moldou e com que sucessivas gerações continuam a ser moldadas; a educação para os direitos humanos, por seu turno, deve visar a sua globalização, na tripla vertente dos direitos cívicos e políticos, económicos e sociais, dos povos e das diferentes culturas, contrariando a prevalência que a globalização neoliberal tem concedido aos primeiros, em detrimento dos restantes.

Como é natural, os autores postulam, na esteira do que JVF vem defendendo nos seus últimos livros, a bondade do "novo paradigma da globalidade e da complexidade para a construção de um mundo melhor". Nos termos do sétimo princípio deste paradigma, "o pensamento global e complexo deve ser associado a uma utopia da esperança, da justiça, da solidariedade, do amor (por si próprio, pelos outros seres humanos e pela natureza) e da felicidade. Isto porque "só se luta pela construção de alternativas quando, simultaneamente, se acredita nelas e se considera que são viáveis".

Este novo livro de JVF (Lisboa, Plátano, 2002) é mais uma pedrada no charco do pensamento único. Conviver com ele é decerto dar um passo em frente no processo de aquisição da literacia de cidadania em que qualquer educador consciente e sério tem de se empenhar.

(Texto de 2002)



publicado por tambemdeesquerda às 12:21
Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

            Já aqui me referi em dois ou três posts ao Dr. Fernando Nobre, por ocasião das presidenciais. Poucas pessoas terão, em tão pouco tempo, baixado tanto na minha consideração. A última proeza do senhor não me aquenta nem me arrefenta – é do mesmo jaez que as anteriores. Só me espanta que a AMI, tão empenhada na assistência humanitária aos deserdados do Terceiro Mundo, deixe andar ao deus-dará, desamparada e claudicante a pobre alma do seu próprio presidente.



publicado por tambemdeesquerda às 22:43
Domingo, 10 de Abril de 2011

            Subitamente, os media parecem ter-se desinteressado da Líbia, como também já se tinham desinteressado da Tunísia, do Egipto, da Islândia. Estes dois últimos países voltam agora a ser notícia. O Egipto, porque os egípcios não parecem satisfeitos com o curso dos acontecimentos pós-derrube de Mubarak, e nomeadamente com o facto de serem os militares a conduzir o processo de transformação do regime, com a agravante de o seu líder ser um ex-fiel do ditador; a Islândia, porque os islandeses insistem em não querer pagar a dívida resultante das trafulhices praticadas pelo respectivo sistema bancário e por governos passados. Em ambos os casos, mas também no da Tunísia, da Líbia, etc., etc., etc., o que faz falta é avisar aquela malta que aquilo não vai lá sem um partido de classe, revolucionário, que não pactue com mudanças de pormenor.



publicado por tambemdeesquerda às 16:47
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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