Quarta-feira, 05 de Outubro de 2011

 

Porque se lê uma tese de mestrado em literatura, quando já não se lecciona, quando não se tem uma actividade profissional que possa lucrar com a informação aí recolhida, quando não se é crítico literário, quando não se estuda literatura (no sentido académico, activo, de construção de um saber sistemático), nem sequer se tem uma especial predilecção pelo tema dessa tese (o romance de internato)? O Outono tem destas coisas boas: liberta-nos das solicitações e emboscadas da vida (demasiado) activa, permitindo-nos finalmente ler tudo o que nos apetece, sem limitações de tempo, e sem submissão ao pragmatismo. Li, assim, Adolescer em Clausura (Universidade do Algarve & Centro de Estudos Aquilino Ribeiro, 1998), com treze anos de atraso relativamente à sua publicação e quando a autora publicou já nova tese, agora de doutoramento (A Militância Melancólica ou a Figura de Autor em José Gomes Ferreira, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 2010), não por qualquer espécie de interesse utilitário, mas por ser a tese de mestrado de uma amiga. E que retirei deste aparente gesto de cortesia ou exercício de gratidão adiado? O triplo prazer de passear através dos romances Uma Luz ao Longe, de Aquilino Ribeiro, Uma Gota de Sangue, de José Régio e Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira, levado pela mão de quem os conhece bem, de estender esse passeio a regiões adjacentes da história da literatura nacional e universal, e, finalmente, de apreciar o rigor vocabular, a profundidade e perspicácia da análise e a utilização sistemática e pertinente de conceitos e operadores da teoria da literatura e da semiótica, num outro passeio de descoberta e redescoberta dos fios invisíveis a olho nu e das delicadas tramas sobre os quais se edifica a obra literária. É que, não sendo a dissertação um romance, também ela pode proporcionar a emoção de uma narrativa que se apropria de diegeses outras e com elas institui/actualiza um universo paralelo em que personagens recolhidas em mundos diversos acabam por dialogar numa instância superior, libertas dos constrangimentos do romanesco e reconduzidas para outro destino – o da sua descodificação.



publicado por tambemdeesquerda às 13:16
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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