Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

 

Reencontrei Urbano Tavares Rodrigues, que não lia há muitos anos, nos Terraços de Junho, livro de “contos e sonhos” – assim o define o autor – recentemente publicado.

A sensualidade estuante, os temas políticos e sociais, a cultura da relação humana e, a outro nível, a elegância do estilo marcadamente metafórico aí estão a pontuar narrativas muito breves, que nessa brevidade contrastam com as que dele conhecia. Não só na brevidade, aliás. Da leitura do conjunto de contos que constituem a primeira parte do livro, resulta a impressão de alguma redundância na sua efabulação. Trata-se de curtas histórias nas quais, quase invariavelmente, a sintagmática é de tal modo parcimoniosa que escassos núcleos/funções cardinais transportam o leitor, no espaço de algumas linhas, para um clímax que se esperaria mais tarde. Como consequência dessa técnica de apontamento, a aproximação entre personagens é rápida e desemboca num relacionamento íntimo mais ou menos inconsequente, mas muito gratificante na sua consumação fugaz.

Mas a incomodidade que se sente na leitura destes contos acentua-se ao chegar à segunda parte do livro, isto é, ao conjunto de narrativas intitulado “Angústia com licor de rosas”. Aqui, maugrado o respeito e admiração (não só nos planos profissional e literário, de resto) que nutro pelo meu professor de Literatura Portuguesa de há muitos anos, não resisti… e vai de passar um traço (a lápis) por cima do último parágrafo de quase todos os contos. Supérfluos, esteticamente infelizes, aqueles apêndices conclusivos como que agridem o leitor, ao colocá-lo perante o aviso “Se te deixaste embalar pela magia da minha prosa, acorda; isto não passa dum sonho!”. Que se trata de sonhos (reais ou inventados, pouco importa), sabe-o o leitor; que necessidade de o esclarecer com observações como estas: “É nesse momento que o despertador começa a tocar furiosamente, chamando-ma para mais um dia de trabalho ingrato” (p. 98), ou “Abro então os olhos (…). Porque é que me terei sonhado empregado dos correios?” (p. 101), ou “Acordei deste sonho com lágrimas nos olhos (…)” (p. 103), ou “Quando me ia deitar, nos dias seguintes, tentava voltar a este sonho (…)” (p. 105), ou “Foi nesse momento que caiu ao chão uma garrafa de água (…), acordando-me brutalmente.” (p. 106), etc.?

Como é que um ensaísta de craveira e ficcionista experiente comete o que se me afigura uma óbvia inabilidade?



publicado por tambemdeesquerda às 18:21
Sábado, 10 de Dezembro de 2011

Entre patrão e operário

 

Entre patrão e operário,

entre operário e patrão,

o que é extraordinário

é pretender-se união.

Não vista a pele do lobo

quem do lobo a lei enjeita.

A propriedade é um roubo.

Ladrão é quem a aproveita.

Negar a luta de classes

é negar a evidência

de um mundo de duas faces,

de miséria e de opulência.

 

          Armindo Rodrigues

 

 

Ana e António

 

A Ana e o António trabalhavam

na mesma empresa.

Agora foram ambos despedidos.

Lá em casa, o silêncio sentou-se

em todas as cadeiras

em volta da mesa vazia.

 

“Neo-realismo!” dirão os estetas

para quem ser despedido

é o preço do progresso.

 

Os estetas, esses, nunca

serão despedidos.

 

Ou julgam isso, ou julgam isso.

 

         Mário Castrim

 

 

 

 

De semântica

 

Recentemente

na fábrica

melhoraram muito

as relações humanas.

Agora, por exemplo,

ao tirar-se o prémio semanal

a uma operária

por uma mistura de fios,

por exemplo, ou por qualquer acto menor de indisciplina,

já não se diz impor um castigo;

diz-se:

estimular o sentido

da responsabilidade.

 

          Miguel Martí i Pol (tradução de Manuel de Seabra)



publicado por tambemdeesquerda às 18:57
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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