Quinta-feira, 09 de Janeiro de 2014

         Uns anos antes do 25 de Abril, labutava eu em França. Os meus colegas, em geral, nunca tinham ouvido falar de Camões, nem de Eça, nem de Pessoa, nem do matemático Pedro Nunes, nem de Egas Moniz (Nobel de Medicina em 1949), nem de Abel Salazar, nem de Eunice Muñoz, nem de Aristides Sousa Mendes, nem de Maria Helena Vieira da Silva. Um ou outro identificava Vasco da Gama como navegador; havia quem conhecesse a Amália; um deles, zangado comigo, instou-me uma vez a regressar à minha ilha (Portugal), que ele devia supor algures nas Caraíbas. Mas todos conheciam o português Eusébio. Lá e cá, a mesma ignorância.

 

         Vem isto a propósito do luto nacional pelo herói, pelo ícone, pelo king, pelo símbolo pátrio – que poderá realmente ter difundido o nome do país lá por fora, mas, pelos vistos, apenas o nome, pois nem a localização geográfica parece ter vingado. E é por isso que estranho (maneira de falar: de facto, nada se pode estranhar nesta abençoada terra) quer a dimensão da homenagem prestada a Eusébio, quer a intensidade da dor vivenciada por tantos e tantos portugueses que vimos desfilar pelos ecrãs de todas as televisões. Assim que me lembre, de repente, só nas imagens das cerimónias fúnebres de Kim Jong-il vi tanta gente compungida com a “partida lamentável” de uma pessoa (cito um repórter da Antena 1, no funeral de Eusébio). Curiosamente, os mesmos que agora fazem descrições minuciosas, atentas e respeitosas das manifestações públicas de dor, condoendo-se, aliás, teciam, naquela altura, considerações mais ou menos irónicas ou mesmo depreciativas sobre os norte-coreanos – atitude reveladora de algum etnocentrismo.

 

         O futebol foi, entre nós, um coadjuvante do fascismo. Aliado aos outros dois ff – fado e Fátima – ele foi um poderoso instrumento de alienação das massas, desempenhando a função que, em Roma, os imperadores cometiam ao circo, ainda que sem o complemento alimentar que tinha na antiguidade (panem et circenses). Na medida em que distraía o povo e amenizava, por essa via, o sofrimento inerente à exploração a que éramos sujeitos, bem como o sentimento de privação das liberdades cívicas, esta válvula de escape ajudava a manter a distância respeitável o perigo do comunismo. Hoje, liquidadas as mais substanciais conquistas da Revolução de Abril, quando pouco mais nos resta do que as liberdades formais que a burguesia tanto exalta para dissimular a realidade da sua ditadura, o futebol reafirma-se como instrumento de alienação das massas e de protecção contra as tentações revolucionárias. Não são nem cientistas nem criadores em geral que galvanizam as massas e alimentam o sentimento do patriotismo. Os arroubos dos adeptos e as bandeirinhas verde-rubras que invadem janelas, sacadas e veículos automóveis, por sugestão dum Scolari, exprimem seguramente um sentimento genuíno de orgulho nacional. Todavia, que grandeza haverá nos feitos que geram esse orgulho? Muito pouca, creio. Em contrapartida, os dividendos que o poder tira desta exaltação colectiva são muitos, a começar pela mitigação das contradições e antagonismos sociais: a participação de ministros e líderes políticos da maioria em eventos futebolísticos, ao lado de cidadãos comuns, associa carrascos e vítimas na grande celebração desportiva, igualiza-os na eucaristia do esférico, oblitera os motivos de descontentamento, desvitaliza o protesto, promove a resignação. Donde se infere que a coligação só pode estar grata ao futebol e, em particular, aos jogadores que mais se destacam, como é o caso de Eusébio. Não consta que, na Coreia do Norte, o futebol arraste as multidões, como acontece entre nós. Porém, a alienação propiciada pelo culto da personalidade do Grande Líder não deixa de ter alguma semelhança funcional com o nosso culto do futebol: ela potencia a coesão nacional em torno do objectivo de obstrução aos planos do imperialismo. E se artificialidade há nas manifestações de pesar do povo, os planos em questão não são menos reais, a julgar pelo que a história recente e menos recente nos tem mostrado.

 

         Voltando a Portugal e à comoção provocada pelo desaparecimento de Eusébio, importa ainda sublinhar a sentida e palavrosa homenagem prestada ao futebolista pelo Presidente da República, regra geral silencioso a propósito dos problemas e dificuldades que afectam a vida dos portugueses, sobretudo de cada vez que se imporia assacar as respectivas responsabilidades ao governo que Sua Excelência acarinha. Tal manifestação de gratidão pelos serviços prestados ao país por Eusébio contrasta desagradavelmente, é verdade, com a bem diferente disposição manifestada em relação a Salgueiro Maia e sua família, ou ainda com a atitude adoptada aquando do desaparecimento de José Saramago, mas, temos de reconhecê-lo, não são personalidades que tenham dado ao país tanto quanto Eusébio deu e, por outro lado, seria inadmissível o supremo magistrado da nação não testemunhar a gratidão devida pela sua classe a quem, em última análise, terá dado o seu contributo para que ela não perca os seus privilégios.

 

         Enfim, numa altura em que se gera um clamor pela entrada de Eusébio no Panteão Nacional, importa dizer que seria uma imperdoável injustiça não o trasladar para a Igreja de Santa Engrácia, onde já está Amália. Dos três ff, ficaria apenas a faltar Fátima – Nossa Senhora. Ela que, segundo Paulo Portas, terá afastado o Prestige das nossas costas, levando-o para as da Galiza – isto há uns anos; ela que, segundo o Presidente, terá intercedido a nosso favor para que a avaliação da Troika fosse positiva – agora, mais recentemente – merece, sem dúvida, ser também trasladada para o Panteão, logo que faleça. Eu subscrevo todas as petições que surgirem.



publicado por tambemdeesquerda às 23:16
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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