Terça-feira, 29 de Abril de 2014

Escrever sobre um livro de poemas é tarefa que me obriga sempre a consultar textos de carácter teórico sobre o que é a poesia, como se faz, como se lê. Assim aconteceu, desta vez também, relativamente a Página Móvel com Texto Fixo, de Adão Contreiras, edição da 4 Águas, de Março 2013. Faço este intróito um pouco à maneira do topos da retórica de outros tempos, destinado a conciliar a benevolência do leitor para a leitura de citação cujo carácter rebarbativo se teme. Feita, pois, a advertência, venha a citação, que, desta vez, é de João Rui de Sousa e diz assim: “/A aventura criadora implica/, de uma só vez, todo o ser do poeta – o seu corpo e o seu espírito, a sua energia e a sua responsabilidade. É o instante em que, mais do que nunca, se configura uma fulgurante vitória da palavra livre e soberana, não determinada, descondicionada em relação a todo o preconceito, a toda a alienação, a todo o rotineiro, quando não mesmo opressivo, enlace da pressão social. Esse jorro verbal (…) parte dos subterrâneos do ser e do mais fundo da sua interioridade /, o que/ marca bem, e como que o avaliza, o extraordinário exercício de desocultação que toda a tarefa poética representa.” (Relâmpago, Abril de 2004) Ora a poesia de Adão Contreiras – se não toda, boa parte dela – radica neste figurino, seguramente válido para a poesia moderna, que não já, integralmente, para a poesia normativizada do classicismo, nem sequer para o romantismo, apesar do quebrar das amarras, e muito menos para a Fénix Renascida do barroco ou para a poesia palaciana do Cancioneiro Geral, ambas demasiado comprometidas com o “enlace da pressão social”. Estamos, com efeito, perante uma escrita que se funda na recusa dos cânones e que erige o eu não só como instância central da enunciação, mas também como objecto privilegiado de observação e análise, quer só, quer nas suas interacções com o meio:

 

“É possível dizer de qualquer coisa / sem dizer de mim?” (Quinquagésimo nono parágrafo).

 

Contudo, o autor recusa o egotismo e adopta preferencialmente uma postura de sã ironia, bem patente desde a primeira página:

 

“Estou pensando que poderia pensar / mas não penso o que me deixa pensativo”.

 

Este distanciamento irónico em relação a si mesmo volta a surgir, depois, em vários outros parágrafos (o autor dá o nome de parágrafo a todos os textos) como é o caso dos seguintes:

 

“Estou pensando / mas o que acrescento / são buracos ao universo / penso” (34.º §); À ilharga do destino com sabor a café / é com pau de canela que agito o futuro / penso” (68.º §).

 

Ou em poemas mais extensos (que por essa razão não transcrevo), tais o 49.º, que nos mostra um meio-poeta degustando duas palavras inteiras com sal para se tornar poeta inteiro e concluindo não querer engordar, ou o 50.º, em que o sujeito se compraz com a expansão do universo e com a sincronia planetária que o poupam à linguagem burocrática. Ou ainda, voltando aos poemas curtos, o 17.º:

 

“Que cão me mordeu? / Foi aquele sapato de marca (…)”

 

Este poemeto inaugura, aliás, uma série que celebra o momento. São instantâneos colhidos no dia-a-dia e desviados da sua existência meramente referencial para as paragens da metáfora. Assim,

 

“Hoje encontrei o silêncio debaixo do travesseiro / onde havia ruídos de ontem” (19.º §) ou “Intempéries absurdas no horizonte / desfilam diante das rosas do jardim (…)” (23.º§), entre outros.

 

Celebração do momento, mas sobretudo celebração da palavra, que, na poesia de A.C., não é apenas (o que já é muito, mas é também comum à poesia, em geral) a matéria-prima, a substância com propriedades físicas capazes de desencadear a emoção estética – é também objecto de análise, assim rivalizando com o eu do poeta e instituindo uma breve arte poética, em que encontramos:

  • a definição da palavra e da poesia: “São como fósforos / acendendo-se na mente / as palavras que nascem / involuntárias (…)” (15.º §), “Em crepúsculos de íntimo olhar / moram as palavras a nascer (…)” (16.º §), “Os poetas escrevem com palavras vivas / mas a diária realidade / alimenta-se mais de palavras mortas (…)” (47.º §), “Quando a palavra voa e se estilhaça / de encontro à pedra / soa um labirinto de vozes cingidas / ao coração da matéria” (61.º §);
  • a apologia da concisão: “Prosélitos afãs de minúsculas palavras / invertem a ordem dos chouriços gordos (…)” (9.º §);
  • as condicionantes do ofício de poeta: “Escrever é um exercício infindável / de musculatura / e sorrisos brancos” (22.º §);
  • a descrição metafórica do processo de criação, onde transparece a condição de artista plástico do autor: “Ontem disse palavras com os olhos / e elas ficaram no espelho / coloridas” (24.º §), “Quando o amor se abre entre as pernas / as palavras ficam vermelhas (…)” (26.º §), “No caminho para a palavra certa / existem mil actos em precipício (…)” (39.º §), “Tirar à cal da parede as palavras sem resíduos / é saber que o dia é vegetal (…)” (40.º §), “Vibrações duma cisterna corporal / as palavras são como os alcatruzes / mergulham na profundidade das águas do corpo / e sobem na leveza da sonoridade / e do sentido que trazem (…)” (89.º §)

         Tudo isto culminando num belo poema de celebração do momento criador:

 

É aqui na magia do encontro do ser colado ao dia

com o olho nu da ternura

que abrigo este querer de querer a palavra

e o corpo inteiro.

 

Sólida razão.

 

Caminho sem reservas do dia completo

de musas abrigadas nas cascas dos caracóis

 

É aqui que estou

onde a terra acaba e o corpo começa

e as árvores crescem em sílabas

palavras em local com corpo e marés

constelação de pedras

em redor do silêncio.

 

É aqui que estou.” (Quadragésimo segundo parágrafo)



publicado por tambemdeesquerda às 19:38
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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