Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

 

Uma leitura comparada da farsa Quem tem farelos?, de Gil Vicente, e de La Vida de Lazarillo de Tormes

 

  

Trabalho produzido no ano lectivo de 1977/1978, no âmbito da Licenciatura em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa,

e transcrito para este blog em homenagem ao excelente  www.gilvicente.eu 

do Dr. Noémio Ramos

 

 

Todos os números de página referentes a citações de La Vida de Lazarillo de Tormes ou de Quem tem farelos? remetem respectivamente para a edição francesa bilingue (espanhol-francês) da Aubier-Flammarion, com introdução e notas de Marcel Bataillon, e para o volume V das Obras Completas de Gil Vicente, Clássicos Sá da Costa.

 

INTRODUÇÃO

 

“Se quisermos explicar a literatura tal como se nos oferece à contemplação, temos de descer mais fundo que os textos – à estrutura social de que eles são o produto […]. A obra literária conserva-nos a memória de um certo momento da vida colectiva, e só é inteligível na medida em que nos ajuda a reconstituir na sua complexidade e na sua riqueza múltipla esse momento de vida. Considerada isoladamente, no seu valor intrínseco, não é mais que um tição ardido de que nada compreendemos e que nada nos deixa compreender.”

António José saraiva, Para a História da Cultura em Portugal, vol. 2, p. 17

 

“Il y a un dénominateur commun à l’ensemble des œuvres d’une même époque ou d’un même pays. L’esprit d’un auteur reflète l’esprit de sa nation. »

Léo Spitzer, citado por Pierre Guiraud, in La Stylistique

 

         Proponho-me fazer um estudo das relações que ligam o moço, ou criado, ao escudeiro na farsa Quem tem farelos? e em La Vida de Lazarillo de Tormes, duas obras de características diferentes que apresentam, não obstante, vários pontos de contacto ou semelhanças. Partirei duma abordagem em termos históricos e literários genéricos, à qual se seguirá um levantamento dos elementos mais significativos de cada obra, segundo linhas de força que definirei, para finalmente tentar a integração dos dados colhidos, na perspectiva duma síntese histórico-literária, acompanhada das ilações que se impuserem sobre a natureza profunda das relações do moço com o escudeiro.

 

 

1.ª PARTE

IDENTIFICAÇÃO

 

  1. DATA E AUTORIA

         Embora a referência a ocorrências históricas não sejam nem abundantes nem muito precisas no Lazarillo, é possível concluir, com uma ligeira margem de erro, que foi escrito por volta de 1550 (1.ª publicação em 1554) (1). Quanto à farsa Quem tem farelos?, é provável ter sido escrita por volta de 1515.

 

         Já mais problemático é o problema da autoria. Se a atribuição da farsa a Gil Vicente não suscita qualquer dúvida, o mesmo não acontece com La Vida de Lazarillo de Tormes, cuja paternidade é atribuída hipoteticamente a cinco autores:

 

  • Diego Hurtado de Mandoza, importante personalidade política, facto que justificaria o anonimato, já que se vê mal um homem investido de altas responsabilidades publicar um livrinho satírico, uma nonada, como o classifica o prefácio;
  • O autor teatral Lope de Rueda, que poderia ter sido opregonero Lope de Rueda que viveu em Toledo na mesma altura que o herói da narrativa;
  • Sebastián de Horozco, tendo em atenção o espírito satírico e alguns temas dum cancioneiro deixado por este amador das letras que têm muito de comum com La Vida de Lazarillo de Tormes;
  • Um converso, isto é um descendente de judeus convertido ao cristianismo (tese de Américo Castro), alegando a filiação na cosmogonia judaica da expressão criar de nuevo, utilizada por Lázaro quando responde, no princípio do Tratado III (p. 124) àqueles que o exortam a procurar um bom mestre;
  • Frei Juan de Ortega, em cuja célula, segundo uma tradição da sua Ordem, teria sido encontrado o rascunho do livro.

 

Perante a multiplicidade das hipóteses e a impossibilidade de provar alguma delas, a obra permanece, pois, anónima, facto que seria irrelevante não constituísse La Vida de Lazarillo de Tormes um marco na história do romance.

 

  1. A ORIGINALIDADE

         Efectivamente, se bem que não desligado da produção literária anterior (2), representa um momento de fractura dentro da história da narrativa, por uma razão essencial: o herói deixa de ser uma personagem virtuosa e nobre (nobre, nas acepções social e moral), para ser um indivíduo de baixa extracção, um miserável, um esfarrapado. E esta característica é acentuada pelo facto de ser o próprio protagonista o sujeito da enunciação, ou seja, o narrador, através do artifício autobiográfico. Vemos, pois, a distância que nos separa dos romances de cavalaria, então muito em voga: à genealogia nobre apresentada na introdução empolada destes, contrapõe-se a genealogia “desonrosa” de Lázaro: “Mi padre […]fue molinero más de quince años. Y, estando mi madre una noche en la aceña, preñada de mí, tomóle el parto y parióme allí; de manera que con verdad me puedo decir nacido en el río” (p. 82). Baixa extracção, portanto, mas, mais do que isso, ignominiosa, já que Lázaro revela ter sido seu pai acusado de roubo e preso, vindo sua mãe a amancebar-se, depois da morte daquele, com um mouro moço de estrebaria. Herói em tudo oposto àquele que a literatura tradicionalmente promovera como “encarnação dos padrões morais e ideológicos valorizados pela classe nobre” (3), Lázaro aparece, assim, na sua suposta autobiografia, como o anti-herói. Em que medida as condições histórico-sociais permitiam esta reviravolta na estruturação do romance é o que tentarei agora avaliar.

 

  1. O CONTEXTO HISTÓRICO

         Na origem remota das relações sociais existentes à data da criação das obras de que nos ocupamos está certamente a degradação do funcionamento do sistema feudal, que entra em crise com o desenvolvimento do comércio e da burguesia e a consequente desvalorização dos meios de troca de que a nobreza dispunha. Numa fase mais próxima da criação das mesmas obras, podemos apontar algumas causas que nos parecem determinantes de tais relações.

 

3.1. Em Espanha

 

         Do mesmo modo que a Espanha medieval se caracteriza socialmente pela convivência pluri-racial, a Espanha do último quartel do século XV e a do século XVI, ou seja, a partir dos Reis Católicos (1479-1516) vai caracterizar-se pela paixão da unificação religiosa e pelo exclusivismo religioso. Na origem desta mudança de fisionomia, causas múltiplas que simplificaremos assim: os Reis Católicos preocupam-se com a mistura das religiões, dos costumes e das raças; os vencedores da Reconquista, e nomeadamente ahidalguía de fibra cristã, que impõe o seu padrão de vida às demais classes, compensam com o estatuto da limpieza de sangre o despeito causado pela prosperidade económica dos Judeus (que se dedicam à actividade financeira) e dos Mouros (que se dedicam à actividade agrícola no Levante e Andalusia) e organizam um código de honra que se torna o motor de toda a vida social e moral da época. Consequência da virtude individual que vemos patente, por exemplo, no Poema del Cid, pela necessidade do reconhecimento e testemunho dos outros, a mania da honra acaba por se converter num fenómeno social, e este aspecto de testemunho acaba por ofuscar definitivamente o moral, resultando o referido código de honra com normas, exigências e leis que deveriam ser cumpridas.

         A mentalidade fidalga, imbuída dos preconceitos de limpieza de sangre e de honra, nutria, ao mesmo tempo, desprezo pela ciência, pelos negócios, pela técnica, porque eram actividades a que se consagravam as outras castas – Judeus e Mouros.

         A par destes pruridos de casta, com as suas irremediáveis consequências económicas, um traço de grande importância na Espanha do Imperador Carlos V (reinou entre 1516 e 1556) – que é também a de Lázaro – é a enorme legião de mendigos protegidos e alimentados pela Igreja e pela caridade pública. Efectivamente, a Igreja exalta a pobreza, vendo nela a ocasião e o meio para que se exercesse a caridade.

 

3.2. Em Portugal

 

         Se a situação económica e social da Espanha de Quinhentos se pode caracterizar pelo exacerbamento das contradições que levam a situações paradoxais (culto das aparências, mas miséria real; defesa da mendicidade para se poder praticar a caridade; desprezo pelas actividades a que se dedicavam Judeus e Mouros, mas, simultaneamente, despeito pelo poder económico destas castas), a situação de Portugal na mesma época não é mais brilhante.

 

         Antero de Quental, na sua conferência intitulada “Causas da decadência dos povos peninsulares”, sintetiza a evolução que a sociedade portuguesa sofrera desde os primeiros séculos da monarquia – era então essencialmente agrícola e próspera, apesar das guerras e da imperfeição das instituições – até ao século XVII. A charneira, o momento de viragem nesta evolução parece, efectivamente, ser o século XVI e, mais precisamente, as conquistas.

 

         Já Duarte da Gama, colaborador do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516), se eleva contra “as desordens que agora se costumam em Portugal”, passando revista aos costumes do seu tempo, sem denunciar as causas de tal estado de coisas. Refere-se, nomeadamente, ao abandono dos campos pela população rural e pelos próprios nobres:

 

“Outros ham por cousa boa

nam ter homens nem cavalos,

e despreçam os vassalos,

por se virem a Lixboa.

Os quais, se fossem lembrados

das pendenças e das guerras,

folgariam de ter terras

e criados.

 

Já ninguém nam quer usar

da nobreza dos passados,

senam vinte mil cruzados

ver se podem ajuntar.”

 

Se o afluxo das populações a Lisboa esvazia os campos, a miragem da Índia esvazia o reino, no dizer de Sá de Miranda (Carta ao Senhor de Basto):

 

“Não me temo de Castela

donde inda guerra não soa;

mas temo-me de Lisboa,

que, ao cheiro desta canela,

o Reino nos despovoa.”

 

         É que, como no-lo diz Oliveira Martins, “os plebeus olhavam com desdém as profissões mecânicas, para irem à Índia batalhar, afidalgar-se” (4). E é ainda Sá de Miranda quem profliga o vil  materialismo da época, tanto quanto o apego aos títulos e às aparências, isto é, à honra, como fenómeno social, quando afirma:

 

“Quando os antigos a alguém

louvavam, não de senhor

nem de rico era o louvor,

chamavam-lhe homem de bem

e ainda bom lavrador.

 

A nossa gente que quis

arremedar nos louvores,

que agora parecem vis,

aos bons reis Sancho e Dinis

chamaram-lhes lavradores.”

 

         O abandono da agricultura teve como consequência passar o país a importar aquilo que anteriormente exportava: cereais, frutas secas, azeite,… Os bens de consumo atingem preços tais que só os grandes a eles tinham acesso; para a esmagadora maioria da população resta a mendicidade. Nas ruas de Lisboa, no dizer de Oliveira Martins, “perpassavam os mendigos rotos e os fidalgos vestidos de seda […]. Lisboa regurgitava de pobres e morria gente de fome pelas ruas, sob os alpendres das casas” (4). Mendigos rotos e fidalgos vestidos de seda é uma imagem bem sugestiva do profundo fosso que então dividia a nação.

  1. A PARELHA MOÇO-ESCUDEIRO

         Fosso em alguns aspectos real, em outros aparente, que vamos encontrar a propósito da parelha moço-escudeiro, presente no teatro vicentino desde a representação da farsa Quem tem farelos?, em 1515, e na literatura espanhola desde a publicação deLa Vida de Lazarillo de Tormes, mas pré-existente na tradição folclórica da Península, como deixam supor provérbios como “Escudero mezquino, mozo adevino”, recolhido por Correas, e “Escudero pobre, rapaz adevino” (5).

 

         Sobre a figura do escudeiro, reportemo-nos ao comentário de Marcel Bataillon, que, por sua vez, segue a lição de Américo Castro ao ver nele um “hidalgo de natura, usado de franqueza” e “un être foncièrement noble qui souffre d’avoir besoin du vilain auquel l’oppose son sentiment de l’honneur” (6). Com este fidalgo simpatiza já no século XIV o moralista judeu castelhano Santob de Carrión (6). No século XVI, o agravamento das condições económicas a que me referi conduz à marginalização dos fidalgos que se vêem na obrigação de servir um nobre para não morrerem de fome, dada a sua recusa de prestação de trabalhos manuais que consideram incompatíveis com a sua noção de honra. Ora, dada esta rejeição por motivos de preconceitos e dada a miséria a que o escudeiro se via confinado, não admira, por um lado, que não prescindisse dos serviços dum moço obviamente sem preconceitos de honra e, por outro lado, que o moço partilhasse da miséria do amo, como veremos. A tomada de consciência, por parte do moço, da perfeita inutilidade social do amo, assim como a experiência da miséria mais negra explicam sobejamente provérbios como os que citei, os quais traduzem um traço frequente na caracterização dos moços: o não acatamento das ordens do escudeiro sem primeiro as discutir e adivinhar todas as eventuais dificuldades no seu cumprimento (“mozo adevino”).

 



publicado por tambemdeesquerda às 12:18
Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

 

2.ª PARTE

LEVANTAMENTO

 

  1. INTRODUÇÃO

 

Debrucemo-nos uma vez mais sobre o tipo do escudeiro. Cito MarceI Bataillon: "Historiquement, l'escudero est une variété d'hidalgo qui attire l'attention dans la société espagnole du XVIè siècle au point d'y faire fleurir un folklore.  Il illustre cette idée d'Alonso Lopez Pinciano que la hidalguia est autre chose que la noblesse. Celle-ci peut se perdre par une pauvreté telle qu’elle empêche le noble de tenir son rang; mais la hidalguia consiste "seulement en quelques libertés et exemptions' (le contraíre d'hidalgo est pechero, contribuable), c’est une qualité héréditaire impossible à perdre. L'escudero du XVIème siècle, héritier pacifique de l'écuyer du moyen âge qui accompagnait le chevalier à la guerre pour porter son écu, c'est un hidalgo pauvre qui entre au service personnel d'un noble pour ne pas mourir de faim. On comprend que ce type social soit à la fois digne de sympathie et ridicule"(p.27).

 

Nao me deterei sobre a parte inicial da definição de MarceI Bataillon, porque tal caberá ao item consagrado ao tema da honra. Quanto à parte final, sobre o serviço prestado a um nobre para não morrer de tome, o escudeiro de Toledo­ (Tratado III do Lazarillo), ele próprio nos informa que “Canónigos y señores de la iglesia, muchos hallo; mas es gente tan limitada, que no los sacaran de su paso todo el mundo. Caballeros de media talla también me ruegan; mas servir con estos es gran trabajo, porque de hombre os habéis de convertir en malilla, y si no: ‘anda con Dios', os dicen, y las mas veces son los pagamentos a largos plazos; y las más y las más ciertas, comido por servido." (pp.148/150) Donde se conclui que se recusa a entrar ao serviço de qualquer nobre. O mesmo parece acon­tecer com os escudeiros a quem servem Apariço e Ordoño, na farsa vicentina; é, pelo menos, o que deixa supor o diálogo entre ambos:

 

Apariço:     Pardeus, ruins amos temos! / Tem o teu mula ou cavalo?

Ordono :     Mula seca como un palo; / alquila-la, y dahi comemos.

 

Quanto à questão da simpatia e do ridículo, propomo-nos tirar as con­clusões que se impuserem depois duma análise segundo três linhas fundamentais:

 

  • a fome,
  • as apreciações valorativas do moço sobre o amo e 
  • a honra.
  •  

Se sigo estes três temas é porque me parece que, efectivamente, as relações entre o moço e o escudeiro se entretecem a partir da preocupação de comer e da dificuldade em obter alimentos, da imagem que o  moço tem do amo e, finalmente, dos conceitos de honra antagónicos.

 

  1. OS TEMAS 
    • A fome ou preocupação de comer

 

“Quien es tu amo? di, hermano?”, pergunta o moço Ordoño ao seu colega Apariço, que lhe responde: “É o demo que me tome: / morremos ambos de fome / e de lazeira todo o ano” (p. 58).

 

Desde o início da farsa está, pois, presente o tema da fome (7). Fome que cabe em sorte tanto ao criado como ao amo (“morremos ambos de fome”) e que aparece como constante na vida de cada um (“todo o ano”). Não se trata de um incidente que afecte a parelha ocasionalmente; a fome é algo que acompanha a ambos na sua digressão espácio-temporal: “Pentear e jejuar, / todo dia sem comer” (p. 58), ou então “E desdontem não comemos!” (p. 69), ou ainda “Já fora rezão comer, pois os galos cantam já” (p. 77). Mas repare-se que esta preocupação só é exteriorizada pelo moço. O escudeiro parece não a sentir, motivado por preocupações doutro tipo: “Cantan los gallos, / yo no me duermo, ni tengo sueño” (p. 78) – canta Aires Rosado à sua apaixonada, ao mesmo tempo que parece dar resposta a Apariço.

 

Mais adiante, quando a mãe de Isabel maldiz o escudeiro e a serenata que veio perturbar o seu sono, Apariço sugere-lhe: “Dizei-lhe que vá comer / que não comeu hoje bocado” (p. 83).

 

A preocupação de comer ligada à angústia do tempo que passa é porventura ainda mais sensível na narrativa espanhola: “Era de mañana, cuando este mi tercero amo topé. Y llevóme trás sí gran parte de la ciudad. Pasábamos por las plazas do se vendían pan y otras provisiones. Yo pensaba y aún deseaba, que allí me quería cargar de lo que se vendía, porque ésta era propia hora cuando se suele proveer de lo necesario […] Yo iba el más alegre del mundo, en ver que no nos habíamos ocupado en buscar de comer. Bien consideré que debía ser hombre, mi nuevo amo, que se proveía en junto, y que ya la comida estaría a punto, y tal como yo la deseaba y aún la había menester” (pp. 124-126).

 

A alegria de Lázaro justifica-se pelo convencimento de que, pelo aspecto do escudeiro, deveria ser homem que tinha mesa farta. Mas, logo a seguir, Lázaro ressente-se da longa relação da sua vida que presta ao amo, dizendo: “Y yo le dí más larga cuenta que quisiera, porque me parecia más conveniente hora de mandar poner la mesa y escudillar la olla , que de lo que me pedia” (p. 126). E a sua preocupação aumenta quando vê “ser ya cuasi las dos y no le ver más aliento de comer que a un muerto” (p. 126).

 

O passar do tempo traduz-se, pois, por um crescendo da angústia, já que, por um lado, cresce a fome, e, por outro, aumentam as dúvidas quanto às possibili­dades de a satisfazer, tanto mais que o escudeiro afecta um orgulhoso desinte­resse pela alimentação: “el hartar es de los puercos, y el comer regladamente es de los hombres de bien(p.128). Desinteresse afectado de que Lázaro se dá plenamente conta ao comentar, num aparte cheio de graça e ao mesmo tempo reve­lador duma experiência da vida e dum desengano ainda não impregnados do azedu­me que, em narrativas posteriores, fará do criado um cínico: "Bien te hé entendido!... Maldita tanta medicina y bondad como aquestos mis amos que yo hallo ha­llan en el hambre!"(p.12S). E, como que para provar aquilo de que Lázaro já não duvidava, o escudeiro aproveita, sem grandes delongas, a oferta do seu moço para partilhar dos escassos bocados de pão, fruto da mendicidade, num quadro em que assistimos à reviravolta dos papéis de cada um (o moço assegura o susten­to do amo), e que constitui, ao mesmo tempo , uma cena enternecedora pela solida­riedade humana patente.

 

Não se pense, todavia, que a partilha do pão do moço põe termo, desde logo, à convenção que relega amo e moço para posições contrárias: o verniz da honra pode estalar acidentalmente, mas o escudeiro logo preenche as brechas a­bertas: "yo, por estar solo, no estoy proveído; antes he comido estos dias por allá fuera"(p.130). As aparências são assim salvaguardadas – só as aparências. E Lázaro medita, como sábio que é (de um saber de experiência feito): “A quién no engañara aquella buena disposición y razonable capa y sayo, y quién pensara que aquel gentil hombre se pasó ayer todo el dia sin comer […]?” (p.132).

 

Se o escudeiro encobre a sua fome, Lázaro confessa-a: "Desque vi ser las dos y no venia, y la hambre me aquejaba, cierro mi puerta y pongo la llave do mandó y tórnome a mi menester [a mendicidade]" (p.136). Quer dizer: como sábio e positivista que é, sem pruridos de honra, em vez de esperar que o amo lhe traga um sustento que sabe ser mais do que improvável, resolve-se a granjeá-lo pelos meios que lhe ensinara o seu “gran maestro”, o cego. Ao chegar a casa, o amo não se mostra zangado pela tardança de Lázaro; pelo contrário, felicita-o por ter conseguido sustento e serve-se da mesma demora para, mais uma vez, salvar as aparências: “Pues esperado te he a comer, y, de que vi que no veniste, comí” (p. 136). Claro que, logo a seguir, a actuação do escudeiro compromete a aparência de satisfação alimentar: “Sentéme al cabo del poyo, y, por que no me tuviese por glotón, callé la merienda y comienzo a cenar y morder en mis tripas y pan, y disimuladamente miraba al desventurado señor mío, que no partía sus ojos de mis haldas, que a aquella sazón servían de plato. Tanta lástima haya Dios de mí, como yo había dél, porque sentí lo que sentía, y muchas veces había por ello pasado y pasaba cada día […]. Póngole en las uñas la otra [unha de vaca], y tres o cuatro raciones de pan, de lo más blanco. Asentóseme al lado, y comienza a comer como aquel que lo había gana, royendo cada huesecillo de aquellos, mejor que un galgo suyo lo hiciera” (p. 138). Assistimos, pois, a uma segunda edição da cena de inversão de papéis, sendo agora muito claro o sentimento de comiseração de Lázaro, que vê retratada no escudeiro a sua própria miséria e que com ele se identifica. Aliás, logo a seguir, noutro momento de reflexão (dos muitos que entremeiam a narrativa), Lázaro considera a sua experiência passada confrontando-a com o presente e, se bem que a sua situação material tivesse piorado, reconhece uma melhoria nas suas relações com o amo: “Contemplaba yo muchas veces mi desastre, que, escapando de los amos ruines que había tenido, y buscando mejoría, viniese a topar con quien, no sólo no me mantuviese, mas a quien yo había de mantener. Con todo, le quería bien, con ver que no tenía ni podía más, y antes le había lástima que enemistad, y muchas veces por llevar a la posada con que él lo pasase, yo lo pasaba mal”. Com efeito, Lázaro quer bem ao seu amo, aceita mesmo, algo como um dever de amizade, alimentá-lo, e isto porque “éste […] es pobre, y nadie da lo que no tiene; mas el avariento ciego, y el malaventurado mezquino clérigo, que, com dárselo Dios a ambos, al uno de mano besada, y al otro de lengua suelta, me mataban de hambre, aquéllos es justo desamar, y aquéste de haber mancilla” (p. 140).

 

O escudeiro de Toledo era o terceiro amo que Lázaro servia e com os dois primeiros apenas recebera lições de maldade, de hipocrisia e de avareza, mas mostra-se sensível à natureza do novo amo, do que se conclui não se ter a sua sensibilidade embotado no contacto com a dura realidade vivida anteriormente (8). Ora esta capacidade de lástima, de comiseração sincera, é uma faculdade que virá a desaparecer nas narrativas posteriores, nas quais, como já disse, a personagem do criado assume plenamente o estatuto do pícaro que definirei como ser engendrado na ignomínia, vivendo na miséria e na ignorância e deixando-se conduzir como simples joguete pela satisfação de necessidades primárias, tais como a alimentação, no completo alheamento das convenções morais e sociais.

 

"El hidalgo del Lazarillo, diz Samuel Gili Y Gaya (9), se mueve por motivos ideales que su criado sabe comprender y disculpar. Hay en la contraposición de ca­racteres de la novela - como alguien ha dicho - algo del maravilloso dualismo Don Quijote-Sancho. Mateo Alemán no atribuye nunca altas cualidades morales a los amos de Guzmán: choque de ruindad contra ruindad, en la que triunfa el inge­nio mas despierto". Que melhor prova desta capacidade preservada em Lázaro do que a sua frase: “Y no tenía tanta lástima de mí, como del lastimado de mi amo, que, en ocho dias, maldito el bocado que comió […]" (p.142)?

 

Deste levantamento operado na farsa vicentina e na novela anónima, extrairei três conclusões:

 

1°, o moço aparece-nos subjugado pela preocupação alimentar, para a qual não vê remédio, e toma consciência do fluir do tempo em termos de fome, isto é, refere-se sistematicamente às horas e às partes do dia associando­-as ao facto de ainda não ter comido;

 

2°, enquanto na farsa a fome serve de mo­tivo ao moço para escalpelizar o amo sem compaixão, mantendo-se ambos no mais completo alheamento afectivo, na novela, pelo contrário, a fome de ambos acaba por constituir um elo que os une numa relação de compreensão, de simpatia e até de amizade;

 

3.º, no que diz respeito, especificamente, à narrativa, vemos que há recurso à caridade pública, à mendicidade, como meio para angariar sustento.

 

2.2. Apreciações valorativas do moço sobre o escudeiro

 

Quando, depois de ter sido despedido pelo clérigo da Maqueda, Lázaro é instigado a procurar um bom amo a quem servir, manifesta o seu desengano e pessimismo pensando entre si que seria necessário que Deus o criasse do nada como criara o mundo. Está, pois, de pé atrás, numa atitude de descrença na possibilidade  de haver bons amos. No entanto, apesar da experiência passada tão cheia de ensinamentos, logo a seguir deixa-se iludir pela aparência nobre do escudeiro: “parecía [-me], según su hábito y continente, ser el que yo había menester (p.12). Com efeito, Lázaro não tivera ainda a oportunidade de servir um fidalgo; a sua aprendizagem demoço de muitos amos ia apenas no princípio; o seu pessimismo não tinha ainda corroído as fibras profundas da sua personalidade.

 

Atitude diferente manifestam os moços Ordoño e Apariço desde as pri­meiras falas da farsa, anunciando o tom geral das apreciações:

 

─ “Como te va compañero?” pergunta o primeiro ao segundo,

─ “S'eu moro c'um escudeiro,

como me pode a mi ir bem?” ─ responde Apariço (p.58).

 

Confirma-se, assim, que as condições de vida desta classe eram conhecidas e tradicionalmente más. Apariço e Ordoño sabiam-no já por experiência própria. Experiência que Lázaro não tarda a iniciar, pois bem depressa se dá conta de que a comida feita e a mesa farta não passam de miragem. O que todavia distingue Lázaro dos dois primeiros é que este, ao descobrir a miséria real do amo, se compadece e simpatiza com ele, refere-se-lhe em termos carinhosos ("el pobre de mi amo", p.128) e até a sua graça é, quase diria, cândida  (“como le sentí de qué pie coxqueaba, dime priesa […] (p.128), diz Lázaro, vendo o amo prepa­rar-se para comer uma porção demasiado grande do seu pão, ao mesmo tempo que finge não o desejar). Apariço, pelo contrário, refere-se ao amo em ternos irreverentes: "[Meu amo] é o demo que me tome […].[Serve] de sandeu” (p.58), “e presume d'embicado” (p.59); “eu chamo-lhe asno pelado” (p.65). Ordoño, por seu turno, encarece estas apreciações, dizendo:

 

"Pues el mio es repeor;

sueñase muy gran señor,

y no tiene media blanca.

 

Júrote á Dios que es un cesto,

un badajo contrahecho,

galán mucho mal dispuesto,

sin descanso y sin provecho. (p.62)

 

A atitude de compreensão de Lázaro para com o escudeiro confirma-se e manifesta-se muito claramente quando Lázaro diz: "Maldíjeme mil veces […] y a mi ruin fortuna, allí [na dura cama improvisada], lo más de la noche y, lo peor, no osándome revolver por no despertarle pedí a Dios muchas veces la muerte" (p.132). É contra si próprio e contra o seu destino ("ruin fortuna") que Láza­ro se eleva, desesperado, e nunca contra o escudeiro, cujo sono, inclusivamente, respeita.

 

Do mesmo modo, quando Lázaro aprecia o aspecto exterior do escudeiro ao subir a rua, a sua graça irrompe mais uma vez com comedimento: "Y súbese por la calle arriba con tal gentil semblante y continente, que, quien no le conocie­ra, pensara ser muy cercano pariente al conde de Arcos, o, a lo menos, camarero que le daba el vestir (p.132) (10). O que nos deixa a grande distância dos sarcasmos de Apariço ou Ordoño:

 

"Pentear e jejuar,

todo dia sem comer,

cantar e sempre tanger,

suspirar e bocejar:

sempre anda falando só,

faz umas trovas tão frias,

tão sem graça, tão vazias,

que é cousa pera haver dó." (p.58)

[…]

"E se o visses brasonar,

e fingir mais d’esforçado;

e todo o dia aturado

se lhe vai em se gabar." (p.59)

[…]

"Quando se viste,

toma dos horas despacio!" (p.64)

 

Os cuidados estéticos, o culto do canto, a jactância e finalmente as preocupações amorosas do escudeiro, outros tantos alvos contra os quais o moço dispara as suas flechas embe­bidas de filosofia positivista:

 

“Todas querem que lhe dem,

 e não curam de cantar:

sabe que quem tem que dar

lhe vai bem.

Querem mais um bom presente

que tanger,

nem trovar nem escrever discretamente.” (p.61)

 

E também com os pés bem assentes em terra que Lázaro comenta o encontro de seu amo com as “rebozadas mujeres”: "él estaba entre ellas hecho un Ma­cías, diciéndoles más dulzuras que Ovidio escribió. Pero, como sintieron dél que estaba bien enternecido, no se las hizo de vergüenza pedirle de almorzar, con el acostumbrado pago” (p.134). Note-se, todavia, que as graciosas comparações com Macias e Ovídio não servem de trampolim para um insulto, como acontece na farsa:

 

"Mas vem comigo e verás

meu amo como é pelado,

tão doce, tão namorado,

tão doudo, que pasmarás." (p.65)

 

Entre moço e escudeiro, dois modos de encarar a vida contraditórios: o escudeiro vive exclusivamente para as manifestações superiores do espírito e da vida, num permanente enlevo que a dura realidade não consegue afectar: “Can­tan los gallos, / yo no me duermo, / ni tengo sueño”, p.78); o moço – fruto doutro meio e doutra educação – vive para a satisfação das suas necessidades básicas, mostrando total descrença em tudo o que não seja palpável (cf. vv. p.61 já citados). E, no entanto, estas duas visões antagónicas que, no caso da farsa, levam naturalmente ao divórcio afectivo e a um tipo acintoso de relações, acabam por encontrar na novela um modus vivendi que leva, não menos naturalmente, a algo que poderíamos definir como uma simbiose afectiva. Vejamos:

 

As relações acintosas manifestam-se na farsa sob a forma de réplicas sistematicamente contrariantes. É o amo a dizer:

 

“Agora qu’estou desposto

irei tanger à minha dama” (p.70)

e o moço a retorquir:

"Já ela estará na cama" (p. 70);

É o escudeiro a cantar:

"Que venida es la hora,

si queréis partir" (p.71)

e o moço a quebrar imediatamente o quadro lírico com a praga:

 “Má partida venha por ti” (p. 71) ;

é o escudeiro a gabar-se das suas relações pessoais com o rei:

“Já privança com el-Rei

a quem outrem vê nem fala" (p.76)

e o moço a chamar a atenção para a realidade:

"Deitam-no fora da sala" (p.76) (11).

 

Enquanto isto, ao meditar sobre o seu destino, e tendo embora a consciência de piorar de amo para amo, Lázaro furta-se a escalpelizar o escudeiro a quem serve, lamentando antes a sorte deste, numa atitude de crítica profundamente construtiva, bem patente quando diz: "sólo tenía dél un poco de descontento" (p.140), não se esquecendo sequer de desculpar a fantasia e presunção do escudeiro porque “segun parece es regla ya entre ellos usada y guardada” (p. 140). E mostra conservar uma recordação saudosa e até enternecida do amo, quando, pela vida fora, ao encontrar “alguno de su hábito con aquel paso y pompa”, o lastima pela triste vida que deve levar, reafirmando o gosto com que o servira, contrariamente ao que sucedera com os dois amos precedentes.

 

Note-se, finalmente, que a atitude de Lázaro para com o escudeiro, além de tudo o que ficou dito, é também a contrapartida do ânimo dadivoso de que es­te nos dá uma prova cabal quando ufanosamente entrega a Lázaro um real que tinha entrado em seu poder por misteriosa "dicha o ventura" (p.142). Pobre como era, o escudeiro não se mostra nada cioso da conservação ou do emprego criterioso do dinheiro, como o faziam o cego e o clérigo dos dois primeiros Tratados: é dia de festa e, se ambos partilhavam da miséria, ambos partilham da alegria de comer. Ora, o mesmo não acontece na farsa: aí, Aires Rosado, o escudeiro, censura o moço pela demora (“Como tardaste, Apariço!”, p. 69) e lança-lhe à cara: “Apariço, bem sei eu / que te faz mal tanto viço” (p. 69), numa atitude que, por si só, revela o profundo cinismo que impregnava as relações mútuas.

 

Cotejando a leitura que fizemos da farsa com a do “Lazarillo”, difícil não é darmo-nos conta do desembaraço critico, da irreverência, do insulto e do sarcasmo como elementos reveladores do materialismo grosseiro e da descren­ça existencial do moço da farsa, que se empenha em depreciar o escudeiro, com o qual não chega a nenhum tipo de comunicação.

 


Pelo contrário, as opiniões e a expressão dos sentimentos de Lázaro para com o escudeiro aparecem, vimo-lo, como que para justificar o comportamen­to deste com razões de ordem supra-individual (ver item 2.3.-A honra). Tudo se passa como se o escudeiro fosse obrigado a não trabalhar, a vestir-se, pentear-se e perfumar-se com cuidado e vagar, subir pela rua com ar de parente do conde de Arcos, bem comido e bem dormido. Algumas palavras sintetizam esta ati­tude: compaixão (se não carinho), compreensão e simpatia (se não amizade), graça e comedimento nas críticas, tudo isto contribuindo para a desculpa do amo, com o qual Lázaro mantém comunicação no plano afectivo, mas não no ideológico.

 

2.3. A honra

 

O tema da honra, se bem que presente nas duas obras, e, de resto, subjacente à generalidade das obras em que intervém a figura do escudeiro, está mais desenvolvida e explicitamente tratado na narrativa.

 

Quando Aires Rosado encarece a sua própria pessoa na tentativa de an­gariar os favores de Isabel e a simpatia dos pais desta, alude à sua qualidade de “escudeiro privado” (p.75) e de “fidalgo afidalgado” (p.76). Logo a seguir, porém, alardeia de riquezas:

 

“não quero que me dêm nada!

[…]

tenho mais tapeçaria,

cavalos na estrebaria

que não há na corte tais” (p.76/7)

 

Se o escudeiro, ao mesmo tempo que afirma a sua condição de fidalgo, chama a atenção para as suas posses imaginárias, está a admitir implicitamente que a condição de fidalgo não é incompatível com a ausência de bens, com a pobreza. Tenta, no entanto, encobrir a miséria real em que vive por detrás da ostentação nas palavras, nos actos, na maneira de se vestir. Numa palavra, o escudeiro é pura aparência que o moço se encarrega de destruir, pondo a nu a realidade.

 

Ora acontece que a fidalguia é, historicamente, algo de diferente da nobreza. Enquanto esta supõe um certo poder económico, a fidalguia consiste “somente em algumas liberdades e isenções” (12) que se herdam e não se perdem jamais. O escudeiro da farsa é, pois, um fidalgo – ou, pelo menos, pode sê-lo –, mas é um fidalgo pobre e, por isso, não cabe no círculo da nobreza. Ao tentar aparentar riquezas e privilégios mais não faz do que dar de si uma imagem que se coadune com o código da honra a que já me referi (13) e que, como também já disse, resulta da degradação progressiva do primitivo conceito de honra – qualidade dos homens de bem, na acepção moral – pela necessidade sentida do reconhecimento público (14). De qualidade própria do homem íntegro, moralmente, e valoroso, a honra torna-se exterior, e o escudeiro sabe que o argumento da riqueza é mais convincente do que o da fidalguia. Por isso, confia nele para atingir os seus objectivos amorosos.

 

Quanto ao moço Apariço, insensível à paranoia fidalga do amo, persiste em denunciá-la :

 

“Ó Jesu! que mau ladrão!

Quer enganar a coitada!” (p.77)

 

e enganar porque se ela se deixar seduzir será na mira de vantagens económicas:

"Todas querem que lhe dem,

e não curam de cantar

[…] (p. 61) (15)

 

 

É deste mesmo positivismo que dá mostras Lázaro, quando desabafa:

 

“Ó Señor, y cuantos de aquestos debéis vos tener por el mundo derramados, que padecen, por la negra que llaman honra, lo que por vos no sufririan!” (p. l34). Mas, como vemos, a mania da honra é para Lázaro um motivo suplementar para lamentar a sorte do seu amo que 'padece'. 'Mau ladrão' enganador, na visão da farsa; vítima, na visão da novela.

 

Do mesmo modo, se Apariço, a propósito da extrema pobreza do amo, invectiva contra a sua presunção  e culto das aparências (“E presume d’embicado  [=esperto] / que com isto raivo eu. - Três anos há que sou seu, - e nunca lhe vi cruzado”, p. 59), Lázaro, ao certificar-se de que a bolsa de seu amo estava "sin maldita la blanca, ni señal que la hubiese tenido mucho tiempo", compadece-se e medita judiciosamente: “éste […] es pobre y nadie da lo que no tiene” (p.140). Logo a seguir, é verdade, critica a presunção do amo, mas fá-lo construtivamente, a modo de conselho, e, como já o disse, desculpando-o: “sólo tenia dél un poco de descontento, que quisiera yo que no tuviera tanta presunción, mas que abajara un poco su fantasía con lo mucho que subía su necesidad. Mas, según me parece, es regla ya entre ellos usada y guardada” (p.140).

 

E, efectivamente, era, entre eles, regra usada e observada: o escudeiro, sendo hombre de bien, não devia descuidar-se “un punto de tener en mucho su persona (p. 148). É o que Lázaro ouve do amo, quando se admira de este ter deixado a sua terra natal (Castela a Velha) apenas para não ter de se descobrir diante dum cavaleiro seu vizinho. Nada mais natural, para Lázaro, do que descobrir-se diante de alguém que tinha muito de seu – Lázaro é sensível ao prestígio económico: “Paréceme, señor, […] que en eso no mirara; mayormente com mis mayores que yo y que tienen más” (p. 146). Outra opinião é a do escudeiro, que lhe responde: “Eres mochacho […] y no sientes las cosas de la honra, en que el día de hoy está todo el caudal de los hombres de bien" (p.146). Ora, uma das normas, uma das “cosas de la honra” em que estavam empenhados os “hombres de bien” era justamente a recusa de se inclinar diante de um superior, desde que não fosse o rei, atitude que tem a sua expressão proverbial em “del rey abajo ninguno”, e é em função desta norma que o escudeiro se recusa a servir qualquer dos amos eventuais que passa em revista, para os denegrir: "Canónigos y señores de la iglesia, muchos hallo […]. Caballeros de media talla también me ruegan; mas servir con éstos es gran trabajo […]” (p. 148/150/150, cf. p. 9 deste trabalho).


Porquê este prurido? Porquê estas manias? Era isto que Lázaro não podia compreender e que o levava a desejar que seu amo “abajara un poco su fantasía con lo mucho que subía su necesidad" (p. 140). Com efeito, o seu ânimo to­do voltado para o lado concreto da existência não podia ver senão fantasia nas atitudes do escudeiro, e fantasia tanto mais absurda quanto o impedia de zelar pe­la própria subsistência, em termos físicos. A oposição de mentalidades poderia sintetizar-se assim: o escudeiro preferiria morrer de fome a abdicar dos seus privilégios, da sua honra; o moço desconhece a honra e não busca senão a satisfação da fome  e a  ascensão até à “buena vida" (p.166).

 

Vai neste sentido também o aparte cheio de graciosa e profunda ironia de Lázaro quando o amo lhe conta que esteve para ultrajar um artesão seu conterrâneo por este não o saudar dizendo-lhe "beso las manos de vuestra mer­ced", ou, pelo menos, "bésoos, señor, las manos”, contentando-se com a fórmula “mantenga Dios a vuestra merced" (p.148) considerada menos deferente. "Pecador de mí, diz Lázaro para consigo, por eso tiene tan poco cuidado de mantenerte, pues no sufres que nadie se lo ruegue" (p.148). Sente-se bem a enorme distân­cia mental que separa o amo do moço: dum lado, a mania da honra levada ao extremo de considerar ofensiva e humilhante uma saudação em que se for­mula um voto invocando Deus; do outro lado, a perfeita incapacidade de perceber o mecanismo que pode levar um homem a desprezar um voto que invoca a própria instância divina, com a agravante de o homem em questão não gozar sequer de um mínimo de desafogo económico. A este respeito, é bem significativa a referência do escudeiro aos seus bens fundiários: um lugar onde se poderiam construir casas grandes e boas e um pombal arruinado que, se não o estivesse, seria muito rendoso […] (p.148)

 

O preconceito da honra age assim como factor de inércia socioeconómica: o escudeiro é um ser parasitário, improdutivo, cultor  das aparências e mantenedor das estruturas herdadas. A completar este inventário sombrio e para acabar de deitar por terra o que de positivo poderia, ainda e apesar de tudo, descortinar-se no código de honra, o próprio escudeiro confessa, depois duma extensa e eloquente apreciação das qualidades comuns dos escudeiros na época, que “los señores no quieren ver en sus casas hombres virtuosos, antes los aborrecen y tienen en poco, y llaman necios, y que no son personas de negocios, ni com quien el señor se puede descuidar. Y con éstos, los astutos usan, como digo el día de hoy, de lo que yo­ usaría; mas no quiere mi ventura que le halle" (p. 150). Donde se conclui que a sua aspiração se satisfaria entrando ele no ciclo da adulação / recompensa.

Do levantamento feito e da análise operada resulta, naturalmente a convicção de que o escudeiro e o moço, quer na farsa quer na narrativa, agem em função de escalas de valores antagónicas: para o primeiro, trata-se de salva­guardar um prestígio herdado com o nascimento e com o nome, contra ventos e marés, ou seja, não obstante ter sido despojado daquilo que concretamente o fazia merecedor desse prestígio; para o segundo, que apenas herdou um corpo para sustentar e que não se sente ligado por quaisquer laços ideológicos ou sentimen­tais ao que quer que seja, trata-se de sobreviver e, progressivamente, ascender a uma vida desafogada. Nas relações entre ambos, o tema da honra vem, mais uma vez, demonstrar o carácter amigavelmente irónico, compreensivo e construtivo da crítica de Lázaro, a par dos sarcasmos grosseiros dos moços da farsa.



publicado por tambemdeesquerda às 12:04
Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

 

3.ª PARTE

CONCLUSÃO

 

O levantamento operado na farsa Quem tem farelos? e em La vida de Lazarillo de Tormes, segundo as três linhas de orientação definidas como sendo “a fome”, “as opiniões valorativas do moço sobre o escudeiro” e “a honra” parece-me demonstrar, pelo menos, três coisas:

 

1.º, que a parelha literária é historicamente verosímil, que o decoro foi respeitado, que a sua caracterização cabe dentro dos parâmetros definidos pelos historiadores, poetas e críticos (16);

 

2.º, que as relações entre o moço e o escudeiro, se bem que determinadas por factores económicos equivalentes, diferem profundamente, levando as da narrativa espanhola a palma da amizade e da compreensão;

 

3.º, que a farsa, ainda que anterior à narrativa apontada comummente como ponto de partida do género picaresco, se revela, quando observada especialmente do lado das relações sociais e da caracterização do moço, mais intensamente picaresca;

 

Não me deterei nas duas primeiras ilações, que me parecem amplamente demonstradas. Quanto à terceira, há que explicitá-la.

 

Vimos que La Vida de Lazarillo de Tormes aparece em meados do século XVI numa Espanha que, apesar das contradições assinaladas, consegue impor uma imagem de poder e de grandeza sob o báculo do grande pastor, o Imperador Carlos V. No entanto, o sonho de glória e a política universalista algum tempo acarinhada começam a desvanecer-se perante a banca-rota de 1557, provocada pelos gastos enormes em mercenários e cortes de vice-reis, seguida mais tarde pela derrota da Armada Invencível (1588) e pela revolta e subsequente secessão dos Países Baixos. Neste contexto, a tonalidade levemente pessimista da obra pode ser sentida como o reflexo da decomposição dos sonhos de grandeza, que lavrava, e a oposição moço / escudeiro como o tratamento literário da contradição económico-social entre o velho mundo cavaleiresco da Espanha medieval (encarnado pelo escudeiro) e o novo mundo burguês, decididamente voltado para o lado concreto da vida e empenhado em aproveitar as  as potencialidades materiais  (encarnado pelo moço). O facto de o moço aparecer na narrativa socialmente subjugado pelo escudeiro é mais um indício de que as estruturas da Espanha medieval pesavam ainda grandemente sobre os germes de modernização. Mas a filosofia prática e a ironia temperada de Lázaro são também indícios de que a burguesia  se afirma confiante no seu desenvolvimento. Não se afigura pertinente, por outro lado, assimilar uma narrativa em que o pessimismo e a sátira se manifestam tão moderadamente com o desencanto profundamente enraizado das novelas picarescas do século XVII, em que o criado, de positivista passa a cínico, atitude esta que tra­duz a descrença nos valores humanos que impregna o barroco. Acontece que é o Guzmán de Alfarache, publicado no último ano de Quinhentos, que vem a ser cha­mado o Pícaro, por antonomásia, consagrando o aspecto infra-humano, a visão fragmentária da vida (enfoque exclusivo do pícaro) e a frieza sentimental como características def­inidoras do termo e do tipo social. Assim sendo, se tivermos presentes os levantamentos operados comparativamente na farsa e na novela, não podemos deixar de concluir que a primeira se apresenta, pela atitude do moço perante a vida e o amo, mais intensamente picaresca. Como afirma Gili y Gaya, “el picarismo es una actitud ante la vida más que un género literario definible por el asunto o por otros caracteres  externos […]. De aquí resulta una restricción y al mismo tiempo una ampliación del concepto de lo picaresco. Restricción en el sentido de que sólo serán picarescas las obras o los momentos de una obra en que el autor ponga de relievo la visión estrecha y particular con que el pícaro enfoca la vida. Ampliación enquanto pensemos que la actitud  picaresca, profundamente humana, rebasa los límites de nuestra novela del siglo de oro, penetrando en otras épocas y géneros literarios.” (17)

 

 

 

 

 

NOTAS:

  1. Vide Tratado I, p. 86: “mi madre me encomendo a él, diciéndole como era hijo de un buen hombre, el cual, por ensalzar la fé, había muerto en la de Gelves [expedição a Djerba em 1520]”; Tratado III, p. 142: “Y fue, como el año en esta tierra fuese estéril de pan, acordaron el ayuntamiento que todos los pobres extranjeros se fuesen de la ciudad, con pregón que el que de allí adelante topasen fuese punido con azotes” (estas expulsões ocorreram entre 1540 e 1550; Tratado VII, p. 170: “Esto fue el mesmo año que nuestro victorioso Emperador en esta insigne ciudad de Toledo entró, y tuvo en ella Cortes [1539].”
  2. Podemos apontar-lhe antecedentes na época latina (O Satyricon, de Petrónio, e O Asno de Ouro, de Apuleio), assim como na Idade Média (Roman de RenartFabliauxLibro de Buen Amor, do Arcipreste de Hita, …)
  3. A Estrutura do Romance, de Vítor Manuel de Aguiar e Silva
  4. Oliveira Martins, História de Portugal, Guimarães Editores, Lx.ª, 1972, p. 324
  5. Introdução de M. Bataillon à edição citada do Lazarillo, p. 28
  6. Idem, p. 27
  7. É curioso notar o termo “lazeira”, já que a busca da sua etimologia nos levaria, segundo o dicionário, até Lázaro. Lázaro miserável, Lázaro mendigo, foi pois, tudo leva a crer personagem folclórica, antes de entrar na literatura.
  8. “… sachons admirer que la solitude conventionnelle de Lazare en face de ses deux premiers maîtres ait eu pour suite le tête-à-tête vrai avec le troisième, dans la solitaire « maison sans meubles ». Marcel Bataillon, Introdução ao Lazarillo de Tormes, ed. citada, p. 42
  9. Samuel Gili y Gaya, ‘Introducción' ao Guzmán de Alfarache, ed. Espasa-Calpe, Madrid, 1968, pp.11/12
  10. Lázaro habla de sus amos con alegre vivacidad de muchacho, a veces hasta con simpatía, tomando sus defectos como motivo de regocijo y sin recargar demasiado las tintas sombrías de la sátira, Samuel Gili y Gaya, op.cit., p. 11
  11. Samuel Gili y Gaya, i bidem, p. 9: "Los graciosos del teatro clásico […] en au papel de contrafiguras del héroe, de llamadas constantes de la realidad destinadas a limitar los ensueños del caballero a quien sirven, llegan a veces muy cerca de la psicología del pícaro.”
  12. , na p.9 deste trabalho, a citação de MarceI Bataillon.
  13. 1.ª Parte, item 4.1.
  14. “Honra, expressão com que nesta época (século XV) se designava não só o lustre social, mas também os meios materiais com que ele se sustenta” António José saraiva, Para a História da Cultura em Portugal, vol. 2, p. 267
  15. p. 16 deste trabalho
  16. Ver 1.ª Parte, pontos 4. e 5.
  17. Samuel Gili y Gaya, ibidem, p.9

 

BIBLIOGRAFIA

  • Anónimo, La Vida de Lazarillo de Tormes, edição bilingue (espanhol-francês), Aubier-Flammarion
  • Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, Ulmeiro
  • António José Saraiva, Para a História da cultura em Portugal, vol. II, Europa-América
  • Gil Vicente, Obras Completas, vol. V, Sá da Costa
  • Mateo Alemán, Guzmán de Alfarache, com Introdução de Samuel Gili y Gaya, Espasa-Calpe
  • Oliveira Martins, História de Portugal, Guimarães Editores
  • Pierre Vilar, Histoire de l’Espagne, collection Que sais-je?, PUF
  • Vítor Manuel de Aguiar e Silva, A Estrutura do Romance, Almedina


publicado por tambemdeesquerda às 11:34
Quarta-feira, 08 de Outubro de 2014

Aqueles que pensavam ser Nuno Crato um matemático desenganem-se. Afinal, o senhor é, mas é, um filólogo, um linguista. O conhecimento que lhe faleceu, há tempos, quando a identificação de um erro crato - perdão, crasso - numa fórmula matemática houvera poupado a milhares de alunos, a centenas de professores e ao país, respectivamente, a perda de um mês de aulas, a canseira e a despesa da mudança de região e de afastamento da família e o espectáculo deprimente de um ministério incompetente, esse conhecimento sobejou-lhe hoje, aquando da doutoral explicação aos deputados sobre a radical diferença que a língua portuguesa estabelece entre os tempos presente e futuro do modo indicativo. Para o senhor, a garantia de que os professores indevidamente colocados, por erro do seu ministério, se mantinham tinha um prazo de validade curto, é verdade, mas estritamente conforme à gramática: "esses professores mantêm-se" não é assimilável a "esses professores manter-se-ão". Fica assim estabelecido que, doravante, sempre que os falantes da língua lusa se quiserem referir a parte do dia, ao dia, à semana, ao mês ou ao ano seguintes, terão de conjugar competentemente o verbozinho, abandonando o mau hábito de esticar o presente. Exemplificando: nada de perguntar a alguém: "Aonde vais esta noite?", mas sim "Aonde irás tu esta noite?" E, em vez do negligente "Esta noite não saio; fico em casa", o castigado "Esta noite, não sairei; ficarei em casa."

 

Em tempos, expliquei a alguém que me atendia numa loja e que corrigira o meu "Queria...", perguntando-me - "Então, já não quer?", que o imperfeito não exprime apenas o pretérito, pode também atenuar a carga algo agressiva do presente "Quero..." Agora que o ministro Crato nos ministrou tão magistral lição, não sei já se não terei de rever esta concepção permissiva da conjugação e passar a exigir tudo com o vigor assertivo do presente. Por outro lado, vou verificar, ou - melhor - irei verificar se Passos Coelho, durante a campanha eleitoral que o levou ao poder, dizia "Não corto" ou "Não cortarei", "Não aumento" ou "Não aumentarei". É que, se recorreu ao presente do indicativo, não os tendo cortado (os subsídios) nem os tendo aumentado (os impostos) no momento em que falava, está - e estará - obviamente desculpado.

 

Para lá destes pormenores verbais, o que se impõe - e imporá - é dispensar estes senhoritos da governação. E, já agora, no modo imperativo: Desapareçam!



publicado por tambemdeesquerda às 22:17
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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