Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2014

Meu companheiro morreu às cinco da manhã

Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã

 

Ah antes fosse noite noite apenas noite

sem a promessa da manhã

 

Ah antes fosse noite noite noite apenas noite

e não houvesse em tudo a promessa risonha da manhã

 

Deitado para sempre às cinco em ponto da manhã

 

Agora que sabia olhar os homens com força

e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã

 

Mas quem se vai interessar amigos quem

Por quem só tem o sonho da manhã?

 

E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite meu companheiro ficou deitado para sempre

e com a boca cerrada para sempre

e com os olhos fechados para sempre

e com as mãos cruzadas para sempre imóvel e calado para sempre

 

E era quase manhã E era quase amanhã

 

Mário Dionísio, As Solicitações e Emboscadas, 1945

 

 

O texto é sempre um lugar de encontro. Do destinador com o destina­tário. Mas enquanto o primeiro está sempre nele presente, ainda quando a ausência de destinatário o transforma em simples produtor de mensagem não recebida, logo não integrante do processo de comunicação, reduzido à condição de destinador potencial, o destinatário é, no caso do texto literário e por via de regra, uma pluralidade de destinatários sucessivos e/ou simultâneos. Como lugar de  encontro da unidade com a pluralidade, o texto promove situações complexas e variáveis - aquilo a que se chama leituras. A diversidade dos leitores faz a diversidade das leituras e a leitura que vou fazer não é senão a história do meu encontro com Mário Dionísio na “Elegia ao companheiro morto”.

 

 

Elegia, termo que na poética clássica designa as composições de índole melancólica, geralmente sobre a morte de alguém. Sendo clássico aquilo que perdura, o emprego do termo elegia parece insinuar a permanência para além da morte, apesar da morte, porque clássico, embora elegia. E como é “ao companheiro morto” ,não será ousado afirmar que a morte do companheiro não implica a morte do companheirismo (amizade  +  acompanhamento), que essa morte não significa de­saparecimento total, pelo menos no que diz respeito ao sentimento. É ainda por este sistema dedutivo que nos leva do âmbito geral de cada signo para os seus significados mais específicos (mais textuais deste texto) que, do sentimento, passamos ao ideal. E então, valendo-nos da leitura prévia do poema, que já nos franqueou moderadamente o seu subtexto, não podemos recusar o emparelhamento companheiro / ideal, camarada / ideologia, entrando no domínio da coloração / conota­ção política. Se os signos são arbitrários na perspectiva da sua génese linguística, já os não podemos tomar por inocentes, encarados no seu funcionamento sintagmático. Eles são usados, manipulados, e veiculam a ideologia de quem os usa. Nesta ordem de ideias, um signo como 'companheiro' está naturalmente des­tinado a significar o plural, que aponta para o colectivo, e bem “fadado” (pas­se a recusa de maior precisão) para significar o militante empenhado, juntamente com o(s) outro(s) na promoção e concretização do ideal.

 

Ainda sobre "Elegia ao companheiro morto", atente-se no dativo e na finura do seu valor. Não é elegia para, preposição demasiado palpável, comum e surda, até no seu “r” oclusivo e nos seus dois “aa”  emudecidos. “Ao” é a palavra que liga a coisa ao seu beneficiário e “ao” é di-tongo (dois num só) em que a vogal aberta apela para o fechamento da semivogal, um pouco à  maneira de um vocativo: “ó companheiro morto, eu estou aqui!”

 

Entramos depois no corpo do poema, que começa narrativamente pelo relato circunstancial da morte do companheiro:

 

“Meu companheiro morreu às cinco da manhã”

 

Para lá das considerações sobre as possibilidades que a língua oferece, o certo é que a omissão do artigo definido chama a atenção do falante português, que habitualmente o emprega. E o artigo definido, que circunscreve, que limita, que aponta para um só – precisamente aquele – quando banido, deixa o seu lugar vago para o indefinido, não circunscrito, não limitado, para os mui­tos, para aqueles, para o colectivo – já de certo modo implícito no signo com­panheiro – corroborando assim a noção de pluralidade.

 

O que, depois, se impõe ao espírito do leitor é a precisão da forma verbal “morreu”, intensificada pela circunstância de tempo “às cinco da manhã”. Com ambas se constrói a imagem de uma realidade crua, que não dá azo à ilusão. O verso seguinte, segundo um processo repetitivo que no decurso do poema revestirá por vezes a forma anafórica, mas, em qualquer caso, sugere sempre o eco, a reprodução constante na consciência-memória da realidade, agudiza essa impres­são, graduando-a:

 

“Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã”

 

É visível a gradação no avanço do lato para o restrito, do esfumado para o pontual, podendo a noite aproximar-se da relativa inconsciência em rela­ção a um facto que paulatinamente invade o campo da consciência, ganhando contornos – “cinco em ponto”. Além disso, a manhã traz a luz que também revela os contornos, que tudo mostra em toda a extensão.

 

Um “ah” depois, a marcar a surpresa, a estupefacção. Mas esta estupe­facção, que aqui encontramos a nível de conteúdo, já estava presente, a nível de substância de expressão (fónico), no final de cada um dos versos do primeiro dístico – “manhã / manhã” – e terá eco numerosas outras vezes ao longo do poema, como veremos, definindo, como “conjunto homogéneo de redundâncias” que é, uma das isotopias do texto. Portanto:

 

“Ah antes fosse noite noite apenas noite”

 

No segundo verso do primeiro dístico, o signo “noite” aparecera duas vezes; agora três. Anuncia-se o processo de alongamento ou expansão por repe­tição a que já aludi. Por outro lado, a justaposição de morfemas iguais – 'noi­te noite' –, por carência de pontuação, tem por efeito como que ampliar o  conteúdo significativo desses morfemas tomados isoladamente e a “noite noite”, mais do que simples noite, aparece-nos como noite dupla, noite redundante, noite nocturna, mais noite (mais escura, mais ocultadora). O uso do imperfeito do conjuntivo vem colocá-la, porém, no domínio do irreal, do desejo. Assim, esta “noite a­penas noite”, porque noite plenamente escura e triste, aparece no poema apenas como objecto insistentemente / dramaticamente evocado / desejado para encobrir uma realidade que a consciência não está (ainda) preparada para aceitar.

 

O verso seguinte vem, todavia, ampliar e completar as virtualidades significantes do signo “noite”, trazendo para o discurso o antónimo “manhã”,­ explicitamente ligado ao signo “promessa”. Ora a conotação / simbologia de “manhã” com “futuro radioso” implicava já a inclusão do semema “promessa” no vasto campo semântico do grande sema do dia / manhã. Assim, o desdobramento de “manhã” em “promessa” parece situar-se no processo de intensificação já assinalado a propósito do uso repetitivo do signo “noite”, ao mesmo tempo que ganha em precisão significativa por ser já não só a luz reveladora de uma realidade, mas ainda a continuidade / perenidade da vida para lá de cada noite: o renascer, o reviver.

 

Atente-se também nisto, que não é de mais repetir: à progressiva complexificação da estrutura formal (“noite” aparece duas vezes no segundo verso, três vezes no terceiro e quatro vezas no quinto; “cinco da manhã” no primeiro verso, “cinco em ponto da manhã” no segundo, “manhã” + “promessa” no quarto, “promessa” +  “risonha”  +  “manhã”, no sexto) corresponde a progressiva conscientificação da realidade excessiva, logo, só susceptível de penetrar no âmbito da consciência total, reflectida, por um processo de adaptação psíquica que passa pela reiteração. Constrói-se assim o poema como apoio formal de uma tomada de consciência dolorosa, ou ainda como excipiente poético que tornará viável a ingestão / assimilação dessa dor.

 

A reiteração da interjeição “ah” e do seu eco no final do signo “manhã” produz-se de novo no início do quinto verso e no fim do sexto, inscrevendo no texto a plangência da sensação dolorosa que vibra agora e logo como re­bate no cérebro:

 

"Ah antes fosse noite noite noite apenas noite

e não houvesse em tudo a promessa risonha da manhã"

 

"e não houvesse em tudo (…) porque a manhã é efectivamente a re­descoberta de tudo quanto a noite uniformizara na aparência escura do nada. E este “tudo”, quando a morte reduzira a quase nada o companheiro, soa antitetica­mente, introduz no discurso o absurdo do corte repentino e brutal, ina­ceitável para a consciência.

 

O verso seguinte rejeita ainda (a consciência rejeita) a frieza excessiva da forma "jazer", preterindo-a pelo particípio “deitado”. Mas o conflito insolúvel em que a consciência se debate está patente na contradição do emprego de um termo de vivos (“deitado”) a par do advérbio “sempre” que aponta para a irremediabilidade do eterno da morte. Dentro desta eternidade absurda, a pontualidade não menos absurda das “cinco da manhã”: infinitamente grande e infinitamente pequeno do tempo a esmagar a relatividade do tempo humano, do tempo-consciência.

 

Este sétimo verso surge isolado, na sequência de três dísticos. Ca­sual ou intencionalmente, ele sugere o momento em que a consciência aceita “para sempre” a dissolução do laço de paridade. Está, “para sempre”, só; monóstica. Entretanto, a frequência do signo “manhã” insinua pungentemente o porvir, logo a continuidade da solidão.

 

O signo “sempre” ecoa ainda no nosso espírito quando surge novo ad­vérbio de tempo a marcar o momento de ruptura entre o passado-conjunção e o futuro-disjunção:

 

“Agora que sabia olhar os homens com força

e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã”

 

“Agora que” ou “agora quando”, ou ainda “logo agora, que...” a significar a tremenda falta de oportunidade da morte, que ocorre no momento em que “sabia olhar”, isto é, em que estava consumado o seu empenhamento na transformação do real (saber olhar é a primeira etapa para saber mudar), ao lado dos “homens com força”, porque armados da verdade, ou ainda “agora que sabia olhar […] com força” a força da mesma verdade, “os homens”. “Companheiro”, “homens” e “for­ça” – três signos a definirem um percurso isotópico o do companheirismo militante, o do empenhamento social, o da revolução. Revolução essa que está subja­cente ao discurso como à consciência dos “homens com força”, que transparece “nas sombras” (desses homens? dos homens ainda por des­pertar / alienar?) como “a promessa risonha da manhã”. Este verso é o mais lon­go (o mais duradouro), o que vai mais à frente na linha (no futuro). É um clí­max, uma homenagem.

 

Logo a consciência sofredora se interroga na adversidade:

 

“Mas quem se vai interessar amigos quem

por quem só tem o sonho da manhã?”

 

Um ponto de interrogação num texto em que não existe nenhum outro sinal de pontuação não pode deixar de ser notado. E ele adquire mais impacto ainda por surgir na sequência do “quem” interrogativo repetido três vezes. É irrecusável a sugestão do eco insistente, e a ressonância nasal do pronome lembra o dobre a finados. Mais do que isso, porém, impõe-se a insistência, a teimosia da pergunta dirigida aos “amigos”, perante a indiferença ge­ral. É um apelo à con-dolência, à partilha da dor, no sentido em que já o dobre convoca os fiéis. Por seu turno, o signo “manhã” aparece desta vez ligado a “sonho”, apontando conjuntamente para o próximo despertar.

 

A última estrofe (de seis versos), mais comprida do que qualquer das outras (dísticos, exceptuando o sétimo e o último versos monósticos) é sugesti­va na própria irregularidade estrutural, parecendo simbolizar o estertor final da agonia. Para esta impressão contribui poderosamente o polissíndeto anafórico da conjunção “e” e a ocorrência igualmente anafórica do advérbio “sempre”, a primeira em posição inicial como que a figurar a ligação que se quer manter ininterruptamente, o segundo como que a veicular a voz da razão que recorda persistentemente o corte irreparável e definitivo. À pontualidade absoluta das “cinco da manhã” sucede novamente expressão mais vaga (“ […] ao fim da noite mesmo ao cabo da noite”) – espécie de trégua concedida à consciência que as­sim se espraia pelo vago fim de noite, sem limites numéricos. E é depois a despedida dos sentidos, numa última viagem da retina-memória que percorre um por um os recantos da imagem deitada: “a boca cerrada”, que já não fala; “os olhos fechados” que já não vêem; “as mãos cruzadas”, que já não tocam, não estreitam outras; enfim, a imobilidade e o silêncio. Este particularizar das sensações, este retalhar da imagem que o hábito fizera apreender globalmente constituem sem dúvida a forma que a dor reveste na consciência e traduzem a recusa da separação pelo apego intensificado a cada parcela. Ao mesmo tempo, ver é apropriar visualmente, é absorver com os olhos, e o que, noutras circunstâncias, poderia significar o desejo de posse erótica, significa aqui desejo de posse de âmbito mais largo, como não-perda.

O verso final cinde-se em dois hemistíquios metricamente perfeitos:

 

“E era quase manhã E era quase amanhã”

 

Iguais pela métrica, os dois hemistíquios são idênticos pelo senti­do, já que a manhã não é senão o princípio do amanhã, quer a nível denotativo, quer a nível simbólico, como significante de um mundo novo. O 'quase' (=por pouco) renova a pungência da dor, insinuando o pouco espaço que medeia entre o tudo e o nada, entre a noite e a manhã, entre a vida e a morte, entre o velho mundo e o mundo novo. Mas o uso do imperfeito “era”, que denota a existência pretérita, é como que desmentido pela forma do próprio verso, em que um primeiro hemistíquio morre a meio, mas é imediatamente continuado por outro idêntico na expressão como no conteúdo, se não mesmo mais pleno: o primeiro morre em “manhã”, com “a promessa risonha da manhã”; o segundo continua até ao amanhã. Dois hemistíquios, dois companheiros, mas um só verso e um só combate.

 

 

A “Elegia ao companheiro morto”, de Mário Dionísio, integra o li­vro As Solicitações e Emboscadas, datado de 1945. Sem dúvida, esta data impor­tante da nossa história hodierna tem de ser aproximada do poema, especificando a sua significação, e como não vem ao caso contar o que foi a segunda guerra mundial, recordemos apenas o muito que foi, para aqueles que a sofreram, a espe­rança de a ver acabar e o fascismo com ela. Guerra, fascismo, exploração, obscurantismo, numa palavra, capitalismo, é o que conota o signo “noite”, sempre seguido do signo “manhã”, no poema, como símbolo de uma sociedade finalmente liberta das taras que caracterizam a longa e difícil infância da humanidade. Assim: isotopia política, se não dominante, pelo menos equiparada em ordem de importância à isotopia da morte absurda. Morte absurda que Federico Garcia Lorca deplorara, dez anos antes, no seu célebre “Llanto por Ignacio Sánchez Mejías”, em memória do amigo morto na arena, poema que a seguir se transcreve e que ecoa inevitavelmente na elegia de Mário Dionísio.

 

 

 

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones de bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.
Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay, qué terribles cinco de la tarde!.
¡Eran las cinco en todos los relojes
Eran las cinco en sombra de la tarde!



publicado por tambemdeesquerda às 00:13
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
mais sobre mim
Dezembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


pesquisar neste blog
 
contador
Website counter
Mapa de visitantes
Visitantes por país
free counters
Visitantes em tempo real
Que horas são?
subscrever feeds
blogs SAPO