Quarta-feira, 31 de Maio de 2017

A Casa, Carlos Luís Figueira.jpg

O primeiro romance de Carlos Luís Figueira (julgo saber que há um segundo em gestação) evidencia a capacidade do autor para verter num texto ficcional o dramatismo que caracterizou o combate dos comunistas, nas duríssimas condições da clandestinidade, contra a ditadura fascista. O impacto que tal luta produzia, quer nos aspectos práticos da vida pessoal e familiar dos seus protagonistas, quer no seu relacionamento social, quer ainda no seu equilíbrio psicológico e emocional, está aqui delineado com o traço firme de quem sabe do que fala. E, perante a autenticidade de um relato circunstanciado, muito rico em pormenores dos quais só quem passou pela experiência poderia dar testemunho, a reacção do leitor antifascista não pode ser outra senão a admiração e o respeito.


Num prefácio que enquadra o romance no seu contexto histórico e que descodifica o seu título, explicando que as casas clandestinas eram um “dos mais importantes pilares da organização clandestina do PCP”, Carlos Brito sublinha que “o percurso [de Augusto, o protagonista] é muito parecido com o percurso que o próprio Carlos Luís Figueira fez na sua juventude, nomeadamente quando, pelos meados dos anos 60 do século passado, veio para o interior do país, como funcionário do PCP [….] circunstância que confere uma enorme autenticidade às reacções [da personagem].” Sirvo-me deste sublinhado de Carlos Brito para observar que não só essa autenticidade é flagrante como o próprio narrador, apesar de heterodiegético, isto é, não participante, se insinua, à leitura, como que amalgamado com a personagem Augusto, tornando-se difícil dissociar a personagem actuante da instância narrativa, tanto mais que esta última goza do estatuto da omnisciência. Parece ser, com efeito, uma só voz a que age e a que relata.

 

Temos, pois, uma narrativa que veicula uma experiência de vida e de intervenção política marcadamente excepcional. Se foram numerosos aqueles que, durante os quarenta e oito anos de vigência do regime fascista em Portugal, aspiraram pela liberdade, pela justiça social e pelo fim das desigualdades, foram poucos, de facto, os que levaram tais anseios até ao sacrifício da sua vida familiar e à renúncia a uma carreira profissional. O autor do romance foi um deles, movido, como o protagonista, por aqueles anseios e pelo ideal de uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem. Quer a nobreza dos anseios, quer a grandeza do ideal explicam a prevalência de que neste romance gozam o pensamento político e a acção das personagens, claramente sobrepujantes relativamente a aspectos estritamente relacionados com a literariedade, o que, naturalmente, afecta a valoração do leitor propenso a debruçar-se sobre a utensilagem estilística e a proficiência narrativa do autor.

 

O leitor que, no caso vertente, se deu por tarefa criticar o romance de Carlos Luís Figueira associa a admiração e o respeito que deixou expressos a uma especial atenção à forma como o escritor logra a metamorfose do real em arte, não o obliterando, mas conferindo-lhe aquela aura de fantasia sem a qual é grande o risco de a fotografia se sobrepor à tela (1) . Nesta perspectiva, a carga ideológica de alguns diálogos com falas extensas, a pletora de informação prática concernente às tarefas de que o protagonista se desincumbe e às suas constantes preocupações e congeminações, alguma falta de naturalidade nos diálogos entre Augusto e a companheira e, sobretudo, o registo muito objectivo da generalidade do discurso são aspectos que contrariam o conceito de “abertura” da obra literária, isto é, a sua especial aptidão para propiciar uma leitura plural (2).

 

Mas A Casa é um romance-testemunho e, como tal, obedece a um critério de transparência e univocidade que se não compagina com a ambiguidade que o literário privilegia. Por essa razão, quando comparado, por exemplo, com os Contos Vermelhos de Soeiro Pereira Gomes (3), rapidamente se constata que o neo-realista, pese embora a carga ideológica que subjaz à corrente, envolve situações e personagens num halo de nebulosidade onírica. Não que o leitor não saiba que o militante que se aventura na luta clandestina vive mergulhado no medo ‒ medo de falhar no cumprimento da tarefa confiada pelo Partido, medo de ser descoberto por um agente ou um bufo, medo físico da tortura nos calabouços da PIDE ‒, e tais emoções, bem em evidência no texto, não primam pela doçura do sonho. Não obstante, a transfiguração literária daquelas situações atenua-lhes a feição tormentosa, até porque o leitor interiorizou um pacto narrativo e esse pacto diz-lhe que “por detrás da mentira da ficção, [ambos] irão juntos à descoberta de uma verdade escondida” (4). Se há uma “verdade escondida”, o leitor não se esquece de que o narrado é a “mentira da ficção”.

 

A comparação de A Casa com os contos de Soeiro Pereira Gomes é incontornável, dada a semelhança das situações relatadas, mas carece de legitimidade, ou não obedecessem narrativa breve e romance a “respirações” e dinâmicas perfeitamente distintas. Com comparação ou sem ela, o facto é que, em A Casa, o leitor dificilmente se esquece de que está a ler o relato fidedigno do que verdadeiramente ocorreu e de que aqueles seres de papel que são as personagens tiveram modelos vivos (5), aos quais foram buscar quase tudo o que ostentam. E ainda bem. Porque escasseiam testemunhos da luta clandestina em tempos de servidão prestados por aqueles que estiveram na voz activa da História.

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1. "Toda a história da arte é fundamentalmente a história das tendências realistas e da sua luta contra as tendências formalistas. [No entanto,] a verdade no realismo nunca pode ser a fotografia instantânea, seja da vida social, seja dos próprios objectos e fenómenos naturais. A representação da realidade na obra de arte não pode pretender ser literalmente fiel pela razão simples de que se trata de uma obra de arte e não da própria realidade representada. A verdade na arte é diferente da verdade na vida e essa é condição indispensável para que possa ser a sua real representação." Álvaro Cunhal, "Problemas do realismo", in Obras Escolhidas, IV, edições Avante, pp.786-787

 

2. “a abertura, entendida como ambiguidade fundamental da mensagem artística, é uma constante de toda a obra em todos os tempos”, Umberto Eco, Obra Aberta, Relógio d’Água, 2016, p. 48

 

3. In Refúgio Perdido, edições Avante!, Lx.ª 1975. Da 1.ª edição de Refúgio Perdido, em 1950, pela Sociedade Editora do Norte, não constavam estes contos.

 

4. Roland Bourneuf e Réal Ouellet, O Universo do Romance, Almedina, Coimbra, 1976, p. 101

 

5. Sobre os “modelos vivos” dos romancistas, leia-se o interessantíssimo prefácio de Somerset Maugham a “Seis Novelas escritas na primeira pessoa do singular”, in Chuva e Outras Novelas, Livros do Brasil, Lx.ª, s/d, pp. 58, 59.

 



publicado por tambemdeesquerda às 23:39
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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