Sábado, 19 de Dezembro de 2009

 

 

“[A monogamia, na Grécia Antiga,] não foi de maneira nenhuma fruto do amor sexual individual, com o qual não tinha absolutamente nada que ver, já que os casamentos continuaram a ser casamentos de conveniência. Foi a primeira forma de família baseada não em condições naturais, mas em condições económicas, a saber: a vitória da propriedade privada sobre a propriedade comum primitiva e espontânea. Soberania do homem na família e procriação de filhos que só pudessem ser dele e que estavam destinados a herdar a sua fortuna, – eram esses, proclamados sem rodeios pelos Gregos, os fins exclusivos do casamento conjugal. […]
O casamento conjugal não entra pois na história como a reconciliação do homem e da mulher, e muito menos ainda como a forma suprema do casamento. Pelo contrário, aparece como a subjugação de um sexo pelo outro, como a proclamação de um conflito dos dois sexos, desconhecido até então em toda a pré-história. Num velho manuscrito inédito composto por Marx e por mim em 1846, encontro estas linhas: «A primeira divisão do trabalho é a que ocorre entre o homem e a mulher para a procriação.» E posso acrescentar agora: A primeira oposição de classe que se manifesta na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher no casamento conjugal, e a primeira opressão de classe, com a opressão do sexo feminino pelo sexo masculino. O casamento conjugal foi um grande progresso histórico, mas ao mesmo tempo abre, a par da escravidão e da propriedade privada, esta época que se prolonga até aos nossos dias e na qual cada progresso é ao mesmo tempo um passo atrás relativo, visto que o bem-estar e o desenvolvimento de uns são obtidos pelo sofrimento e recalcamento dos outros. […]”
Engels, Friedrich, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, 1884
 
A extensa citação de Engels serve de esteio a breves considerações sobre o(s) casamento(s), que resultam duma dupla surpresa interrogativa, a saber:
1.º, como é possível que alguém, independentemente da sua orientação sexual, ainda pretenda casar-se?
2.º, opondo-se ao casamento de pessoas do mesmo sexo, a Igreja (melhor dizendo: as Igrejas) e a direita não estarão a cometer um erro estratégico?
Aduzo as razões que fundamentam as minhas surpresas.
À partida, e pelo menos em teoria, o móbil do casamento é a consecução de uma união desejada por dois indivíduos que se sentem reciprocamente atraídos e em comunhão de sentimentos. Porém, o casamento define-se como contrato e, como contrato que é, impõe deveres a ambas as partes, donde resulta que o casamento espartilha o que se pretende viver como experiência libertadora, confere um carácter impositivo àquilo que as partes vivenciam como uma experiência exaltante de felicidade – o que configura um paradoxo;
Durante séculos, o casamento e a família monogâmica dele resultante consagraram o papel subalterno da mulher relativamente ao homem (foi a “derrota histórica do sexo feminino”, necessária para garantir a paternidade autêntica na herança (F. Engels, op. cit.) e é do conhecimento geral que a instituição está hoje em crise, como o indicia o número crescente de divórcios e de uniões livres.
Nestas circunstâncias, parece ser forçoso concluirmos que a natureza contratual do casamento já não se coaduna com os anseios irrefreáveis de liberdade que caracterizam o nosso tempo – e estamos conversados quanto à minha primeira estranheza.
 
No tocante à oposição das Igrejas e da direita (laica), vejamos: se o casamento, na sua forma heterossexual, é a melhor garantia de manutenção da moral e dos bons costumes, bem como de reprodução ininterrupta da actual ordem social e política – o que, obviamente, só pode interessar a estas entidades –, a sua extensão aos casais, ou pares, homossexuais potenciará essa garantia, uma vez que a infracção será absorvida pelo sistema. A instituição do casamento homossexual, conferindo a estes casais dignidade semelhante à dos casais heterossexuais, retirá-los-á do limbo de vergonha e rejeição que estimula os sentimentos negativos de quantos se cingem aos figurinos normativos tradicionais. Para a(s) Igreja(s), seria um acto de generosidade fraterna. Para ambas – Igrejas e direita – seria propiciar a multiplicação da célula-base da nossa sociedade e, com isso, optimizar as condições de reprodução da actual ordem social.
 
Bem sabemos que Sodoma e Gomorra ainda estão na lembrança de muitos. Mas, depois de tudo o que Caim lhe disse (remeto para a versão saramaguiana do Velho Testamento, claro), Jeová não terá coragem para, de novo, fazer cair o enxofre e o fogo purificador sobre a cidade. Até porque há as crianças - mais uma vez as crianças! Que estavam inocentes, em Sodoma, mas nem por isso foram poupadas… E que eu deixei de fora nestas considerações (demasiado) ligeiras.  

 

                                                  

                                                   Pergamon Altar Nordfries / The...
                                                   por
josephdesarre, flickr.com

 



publicado por tambemdeesquerda às 19:15
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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