Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

 

 De Simão Bolívar eu tinha guardado memórias vagas dos tempos do Liceu, que mo identificavam como um dos libertadores da América do Sul do domínio colonial espanhol, facto este que explica a filiação bolivariana da revolução conduzida por Hugo Chávez na Venezuela. Mas não passava disso. Como tantas outras personalidades históricas que conhecemos dos compêndios de história, Bolívar era para mim uma personagem plana, o tipo do herói revolucionário do romântico alvorecer do século XIX.

 

De García Márquez, conhecia os enormes romances que são Cem Anos de Solidão, Crónica de Uma Morte Anunciada e, noutro registo, A Aventura de Miguel Littín, Clandestino no Chile. Fiquei agora a conhecer O General no Seu Labirinto, muito diferente dos dois primeiros, por não se filiar no realismo mágico, e do terceiro, que é uma espécie de reportagem.

 

Ficção histórica, O General no Seu Labirinto narra os acontecimentos dos últimos dias da vida de Simón Bolívar, nomeadamente a viagem que empreendeu de Bogotá para Santa Marta, seguindo o curso do rio Magdalena. Mas, como o Autor nos diz num texto final de “Agradecimentos”,  “os fundamentos históricos preocupavam-/no/ pouco, pois a última viagem pelo rio é o tempo menos documentado da vida de Bolívar. Só escreveu então três ou quatro cartas - um homem que deve ter ditado mais de dez mil - e nenhum dos seus acompanhantes deixou memória escrita daqueles catorze dias desafortunados.” (p. 187)

 

A ideia (vaga) que eu tinha de Bolívar ganhou consistência; a personagem histórica adquiriu, como sempre acontece quando lemos uma obra desta envergadura, as formas, as cores, os sentimentos, emoções, fraquezas e paixões do ser humano igual a qualquer um de nós, mas também distinto – neste caso, pela sua excepcional determinação e força de vontade inquebrantável, maugrado a debilidade física e a decrepitude precoce (Bolívar morreu com quarenta e sete anos, mas aparentava mais de sessenta).

 

Pela razoável actualidade que me parece manter nos dias de hoje, nomeadamente quando se verberam os povos africanos que acederam à independência após a Segunda Guerra Mundial e, no caso do colonialismo português, após o 25 de Abril de 1974, transcrevo o delicioso passo referente a uma viva troca de opiniões entre Bolívar e um francês desejoso de exibir a sua erudição e demasiado imbuído da superioridade histórica dos Europeus:

 

“- Os argumentos de Constant contra a tirania são muito lúcidos - disse o francês.

 

- O senhor Constant, corno bom francês, é um fanático dos interesses absolutos - disse o general. - Em contrapartida, o abade Pradt disse a única coisa lúcida dessa polémica, quando indicou que a política depende de donde se faz e quando se faz. Durante a guerra de morte eu próprio dei a ordem para executar oitocentos prisioneiros espanhóis num só dia, inclusive os doentes no hospital de La Guayra. Hoje, em circunstâncias iguais, não me tremeria a voz para voltar a dá-la, e os europeus não teriam autoridade moral para mo reprovarem, pois se há uma história alagada de sangue, de indignidades, de injustiças, essa é a história da Europa.

 

À medida que se embrenhava na análise ia atiçando a sua própria fúria, no grande silêncio que pareceu ocupar o povo inteiro. O francês, esmagado, procurou interrompê-lo, mas ele imobilizou-o com um gesto da mão. O general evocou as matanças horrorosas da história europeia. Na Noite de São Bartolomeu o número de mortos passou de dois mil em dez horas. No esplendor do Renascimento doze mil mercenários a soldo dos exércitos imperiais saquearam e devastaram Roma e mataram à faca oito mil dos seus habitantes. E a apoteose: Ivan IV, o czar de todas as Rússias, bem chamado O Terrível, exterminou todas as populações das cidades intermédias entre Moscovo e Novgorod, e nesta mandou massacrar num só assalto os seus vinte mil habitantes, pela simples suspeita de que havia uma conjura contra ele.

 

- Por isso, não nos façam mais o favor de nos dizerem o que devemos fazer - concluiu. - Não procurem ensinar-nos como devemos ser, não procurem que sejamos iguais a vocês, não pretendam que façamos bem em vinte anos o que vocês fizeram tão mal em dois mil.

 

Cruzou os talheres sobre o prato e pela primeira vez fixou no francês os seus olhos em chamas:

 

- Por favor, caramba, deixem-nos fazer tranquilos a nossa Idade Média!” (p. 92)

 

Não foi só o romance propriamente dito, contudo, que me marcou. O texto de “Agradecimentos” de que já atrás transcrevi uma curta passagem tem alusões interessantíssimas ao método de investigação histórica em que García Márquez foi paulatinamente sendo iniciado, ele que tinha “absoluta falta de experiência e de método na investigação histórica” (p. 187). Atente-se nas seguintes gaffes cometidas pelo Autor e oportunamente corrigidas graças aos esclarecimentos de amigos historiadores:

 

“A ele / historiador bolivariano Vinicio Romero Martínez / devo a advertência providencial de que Bolívar não pode ter comido mangas com o deleite infantil que eu lhe atribuíra, pela simples razão de que ainda faltavam vários anos para que a manga chegasse às Américas. (...)”

 

“O meu velho amigo Aníbal Noguera Mendoza (...), na primeira versão dos originais, descobriu meia dúzia de falácias mortais e anacronismos suicidas que teriam lançado dúvidas sobre o rigor deste romance. (...)”

 

“Por último, Antonio Bolívar Goyanes - parente oblíquo do protagonista e quiçá o último tipógrafo à boa maneira antiga dos que vão ficando no México - teve a bondade de rever comigo os originais, numa caçada milimétrica de contra-sensos, repetições, inconsequências, erros e erratas, e num escrutínio encarniçado da linguagem e da ortografia, até esgotar sete versões. Foi assim que surpreendemos com a mão na massa um militar que ganhava batalhas antes de nascer, uma viúva que foi para a Europa com o seu amado esposo, e um almoço íntimo de Bolívar e Sucre em Bogotá, enquanto um se encontrava em Caracas e o outro em Quito. No entanto, não estou muito certo de que deva agradecer estas duas ajudas finais, pois parece-me que tais disparates teriam introduzido umas gotas de humor involuntário - e talvez desejável - no horror deste livro.” (p. 188)

 

Uma nota negativa para esta edição (2.ª) da Dom Quixote prende-se com o anormalmente elevado número de gralhas (em alguns casos, prováveis erros de ortografia), de que anotarei alguns exemplos mais abaixo, e a tradução de Cristina Rodriguez. Não conheço o texto original em castelhano, mas a frase “Assim que surgiu divertido da banheira” (p. 45), pelo seu contexto, parece-me ser a tradução de “Así que ...”, o que daria em português “Foi por isso que ...” ou “Foi assim que ...”. Outra ocorrência desta tradução na p. 116 (“Assim que a culpa é sua”)

 

 

Gralhas:

Acorrer por ocorrer, na p. 32; grangeara por granjeara, na p. 37; desteis-me por destes-me, na p. 84; curadoura por curadora, na p. 111; magestático por majestático, na p. 121; paralizados por paralisados, na p. 154, entre várias noutras.

 

Imagens:http://farm5.static.flickr.com/4132/4946272102_8f5c5dd94d_t.jpg

 http://farm3.static.flickr.com/2429/3608618968_cfa76d465a_t.jpg



publicado por tambemdeesquerda às 22:14
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