Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

A rebelião actualmente em curso na África do Norte, motivo de satisfação para quantos se reclamam dos valores da liberdade e da democracia (refiro-me aos conceitos substantivos, que não ao placebo que a ditadura da burguesia nos impinge – com êxito, há que reconhecê-lo) é, ao mesmo tempo, geradora de múltiplas interrogações e de alguma perplexidade.

 

Tunisinos e egípcios, para já (iemenitas e argelinos, na próxima etapa?), dão mostras de que os povos amordaçados, sujeitos à opressão e a condições de vida precárias acabam sempre por derrubar os responsáveis directos por esse estado de coisas e, mais cedo ou mais tarde (numa perspectiva de longo prazo), acabam mesmo por extirpar as raízes do mal (ainda que mal soe esta expressão com ressonância ao famigerado eixo do mal do não menos famigerado Bush).

 

Impressiona a facilidade com que estes regimes ditatoriais vacilam e caem sob a pressão dos levantamentos populares. São verdadeiros ídolos com pés de barro. Porém, ao mesmo tempo, choca sabermos que estes levantamentos, nomeadamente no Egipto, são convocados ou conduzidos ou infiltrados por indivíduos e organizações cuja ligação aos EUA está documentada.

 

A este respeito, incomoda constatar o deslumbramento daqueles que acreditam piamente nas virtudes das novas tecnologias e na inocência dos seus utilizadores. É realmente animador o pensamento de que algumas dezenas ou centenas de pessoas, munidas de um telemóvel ou de um computador ligado à internet são o suficiente para pôr multidões em pé de guerra contra um regime e a sua máquina repressiva. Contudo, como dizia Pacheco Pereira no seu artigo de sábado passado no Público, “usar o Facebook e os SMS num processo de agitação social e político por si só não significa nada sobre o conteúdo do movimento, nem classifica o movimento de per si como democrático”. E menos entusiasmante ainda é o conhecimento dos cordelinhos que se movem por detrás da aparente espontaneidade dessas comunicações. Saber, por exemplo, que os activistas do movimento Kifaya (Basta) do Egipto, que organizou os protestos nas redes sociais dos sítios web do Facebook e Twitter, juntamente com o Movimento da Juventude 6 de Abril, são apoiados pelo International Center for Non-Violent Conflict com sede nos EUA. Este International Center, que tem estado envolvido na promoção e treino do Facebook e de blogs Twitter no Médio Oriente e África do Norte, está ligado à Freedom House, que, por sua vez, tem ligações ao Congresso dos EUA, ao Council on Foreign Relations, ao establishment de negócios e à CIA.

 

E que mal tem isso, se o objectivo é derrubar uma ditadura? – perguntarão aqueles que acreditam na bondade da democracia americana. Não teria nenhum – responderei –, não foram as forças armadas egípcias o maior beneficiário da ajuda militar dos EUA. Ora as forças armadas egípcias são o sustentáculo do regime de Mubarak. Quando o carismático presidente Obama declara, no vídeo de 28 de Janeiro difundido no Youtube, "O governo /de Mubarak/ não deveria recorrer à violência", não haverá razões para se duvidar da sua boa-fé?

 

Quanto às condições de vida de tunisinos e egípcios, é sempre bom saber que o que levou ao empobrecimento de ambos os povos e à desestabilização das suas economias foram os programas do FMI aplicados – há mais de 20 anos, no caso da Tunísia; em 1991, no Egipto, por ocasião da Guerra do Golfo. Ainda no caso do Egipto, aliás, em troca da anulação da sua dívida militar para com os EUA e da sua participação na guerra.

 

É por tudo isto que as rebeliões em causa deixam um travo de inquietação. Os processos de libertação dos povos nunca são lineares; para além de avanços e recuos, a caminhada da humanidade para a justiça social ainda conhece os falsos avanços, que – quantas vezes! – são prolongados recuos semeadores de grandes ilusões. O que nos reconduz às raízes do mal: no caso do Egipto e da Tunísia, o derrube dos fantoches Mubarak e Ben Ali levará provavelmente ao surgimento de novos fantoches, cuja dinastia só se extinguirá quando estes e os outros povos oprimidos se levantarem contra os mestres dos fantoches. Mas este passo decisivo não acontece por obra e graça de qualquer espontaneidade milagrosamente impelida no sentido da justiça; ele carece de uma organização revolucionária que lhe dê coesão e coerência, o que não se verifica no momento presente.

 

(Nota: os 4.º, 5.º e 6.º parágrafos deste post contêm informação colhida no artigo “O movimento de protesto no Egipto: Ditadores não ditam, obedecem a ordens, de Michel Chossudovsky, publicado no sítio http://resistir.info, em 29 de Janeiro de 2011. A imagem, do mesmo sítio, tem o seguinte endereço URL: http://resistir.info/africa/imagens/cairo_28jan11_c_60pc.jpg)

 



publicado por tambemdeesquerda às 12:07
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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