Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

À leitura do primeiro capítulo, o leitor desprevenido imagina-se a ler um romance convencional. O discurso é linear e transparente, não há efeitos especiais no domínio da pontuação, a disposição gráfica é a tradicional, o narrador comporta-se como uma câmara de vídeo que, no entanto, anuncia já a omnisciência na frase “Estas palavras do pai marcaram Lenz durante anos” (p.11), enfim o micro-episódio narrado enquadra-se perfeitamente nas temáticas banais de todo o pós-romantismo. À falta de informantes espaciais, os nomes das personagens (Lenz Buchmann, o protagonista, Julia Liegnitz, a secretária, Hamm Kestner, o chefe do Partido, etc.) permitem ao leitor situar a acção algures na Alemanha; a caracterização do protagonista (que bem poderia ter encarnado, alguns anos mais tarde, sob a identidade do Dr. Mengele), assim como as referências ao “Partido” (sempre maiusculado, mas sem qualificativo) e a um acto de sabotagem montado pelos seus dirigentes (“Lenz Buchamann e Hamm Kestner haviam falado já da hipótese de uma explosão no edifício do Teatro principal, meio talvez necessário para instalar o estado de tensão na cidade” (p. 245) indiciam, por outro lado, que a acção decorre entre as duas guerras mundiais, muito provavelmente no final dos anos trinta, logo numa sociedade já seriamente afectada pelos valores da força, da desigualdade, da supremacia racial e da intolerância.

 

O que ficou dito é uma súmula (paupérrima) das categorias da narrativa, que não permite inferir o desprazer com que a li. É que, à medida que o leitor vai avançando na leitura, apercebe-se de que, afinal, está perante um tratado sobre a educação e a formação (melhor dizendo, formatação) da mentalidade e da personalidade na sociedade nazi: “Lenz calça as botas e prepara-se para a caça. Primeiro o ritual de domínio sobre os pequenos objectos imóveis: as botas, a arma, o colete pesado.

“Aqueles movimentos eram os que melhor contribuíam para formar o ser humano. E que bom atirador ele era.

“Por seu turno, os elementos ágeis da natureza reivindicavam uma desobediência que não era tolerável.”  (p. 13)

 

O estilo do autor é de tal modo despojado e parco na utilização de recursos estilísticos que a ficção mais parece um auxiliar didáctico destinado a facilitar a apreensão e compreensão de conceitos por eventuais estudantes de psicologia, de antropologia ou de sociologia. Enfim, esta aridez narrativa faz deste romance um exemplar algo rebarbativo de uma espécie de naturalismo serôdio, de neo-naturalismo póstumo.

 

Apesar dos elogios da crítica, não me sinto tentado a ler outros romances de Gonçalo M. Tavares.

 



publicado por tambemdeesquerda às 16:08
A Net tem coisas maravilhosas, uma delas é o facto de podermos trocar de opiniões.
Voltamos a encontrar por estes sítios, tal como desejou quando fiz o meu ultimo comentário em Sôbolos Rios que Vão.
Pois bem, voltamos a estar em desacordo relativamente há obra. Confesso que adorei este livro de Gonçalo M. Tavares. É, na minha opinião, uma excelente reflexão sobre o comportamento humano.
Citando uma parte do livro, e tendo como pano de fundo os recentes acontecimentos em Inglaterra, veja como a obra é bastante contemporânea. " Lens não tinha ilusões: só não entrava numa qualquer rua da cidade com a mesma cautela e com a arma preparada para disparar porque, naquele outro espaço, algo ainda inibia o ódio: a mútua vantagem económica." Muitos dos piores comportamentos que sociedade tem estão, quanto a mim, muito bem reflectidos neste livro.
Tiago M. Franco a 10 de Agosto de 2011 às 20:45

Viva, Tiago Franco. Prazer em voltar a encontrá-lo.
A sua bitola de apreciação da ficção é bem mais benévola do que a minha. Um romance pode obviamente conter uma reflexão sobre o comportamento humano, e grandes romances da literatura universal, a começar pela nossa, propiciam-nos o conhecimento das sociedades ou dos grupos sociais que retratam. Mas Os Maias não seriam o magnífico fresco da sociedade portuguesa dos finais do século XIX se Eça se tivesse limitado a urdir uma tramazita com condessas, banqueiros, diplomatas, dândis e amores diversos como excipiente para fazer passar a sua reflexão sobre a choldra nacional; A Queda de Um Anjo não seria o delicioso romance que conhecemos se Camilo tivesse apenas querido “exemplificar” a sua visão sobre a ignara classe política do seu tempo, e assim sucessivamente. Mesmo os escritores politicamente mais comprometidos, como era o caso dos neo-realistas, ou, mais recentemente, o nosso Nobel, todos eles têm a sua visão do comportamento humano e um pensamento estruturado sobre os processos sociais, mas essa visão e esse pensamento aparecem sempre transfigurados pelos artifícios da literatura, sem o que poderiam produzir ensaios ou obras de divulgação doutrinária, mas nunca literatura. No Levantado do Chão do Saramago, como nos Avieiros de Redol, há reflexão, há pensamento social e político, mas tudo isso está acondicionado num discurso elaborado estilisticamente e condimentado com muita emoção, o que dá àqueles livros o poder encantatório próprio da dimensão romanesca. Ora, é precisamente isto que me parece faltar no romance de Tavares, tão destituído de artifícios literários que a sua leitura se torna um exercício árduo de apreensão e de descodificação de conceitos que constituem a matéria-prima de ciências humanas como a sociologia.
Quanto à actualidade do livro, é claro que a sua acção decorre numa época facilmente identificável com a ascensão do nazi-fascismo. Os acontecimentos dos últimos dias em Inglaterra inserem-se num quadro caracterizado por uma crise global e sistémica do capitalismo. Se, no contexto destes acontecimentos, a violência mediatizada é a que praticam massas de jovens desocupados, desempregados, sem perspectivas de futuro nem motivações ideológicas estruturadas, no caso da construção da sociedade nazi-fascista era a violência institucional do Estado, ainda que camuflada, que sobressaía. Mas é verdade que, num caso como no outro, estão em causa mecanismos de reacção social ao funcionamento do Estado, nas suas vertentes política e económica (a tal “mútua vantagem económica” – equilíbrio instável que desapareceu). A classe dominante inglesa tinha ainda vantagem em manter este exército de deserdados naquela situação, mas esses deserdados parecem já não ver benefício em mantê-la. Como falta, contudo, ali uma orientação política coerente e uma organização revolucionária, tudo vai acabar com umas centenas largas de detenções e condenações, para tranquilidade de conservadores, de trabalhistas e de sua majestade. Até nova explosão.
Saudações.

Bom dia Fernando,

Concordo consigo relativamente ao facto de o livro ser desprovido de uma verdadeira história, ali não há a reconstituição de como foi construído o memorial do convento, como em Saramago, mas cada capitulo tem uma a sua própria historia, e cada um deles podia servir de base para uma tese; é assim no funeral do irmão, onde a mulher de Lenz chora desenfreadamente quando, na realidade, mal se dava com o cunhado. É assim quanto tenta cuspir na cara do padre, mas as poucas forças que tem não o permitem; ou ainda quando convida o maluco para sua casa. Não, não há uma história riquíssima que nos é contada do princípio ao fim, há, na realidade varias histórias curtas, em que o autor aproveita para questionar o comportamento humano. Julgo que é uma grande inovação na nossa literatura e quanto a mim o autor sabe aproveitar muito bem esse facto.
Não concordo relativamente há data que indica, período entre as duas Grandes Guerras, como data para a história se desenrolar. Lenz Buchumann há em todas as épocas e em todos os países, com a diferença de uns chegarem ao poder (por exemplo: Hitler, Mussolini, Pinochet ou mais recentemente Kadafi) e outros, felizmente, não conseguem a sua ascensão. Também nas empresas e nas famílias existem “Lenz Buchumann”, com a grande diferença de não serem tão mediáticos. Confesso, tendo em conta a actual situação, ter receio de aparecer por cá alguém com um discurso muito bonito, a dizer que faz e que acontece e nós, descrentes nesta actual democracia, cometamos o erro de eleger essa pessoa.
Tiago M. Franco a 17 de Agosto de 2011 às 19:40

Olá, Tiago.
Há, de facto, uma sucessão de micro-episódios, com alguma autonomia relativamente ao todo, mas também, há que reconhecê-lo, unidade narrativa, quer no tocante à personagem, quer no tocante à acção principal (formação da personalidade e modelação do comportamento), ao tempo e ao espaço.
A sua perspectiva alegórica do romance (Lenz como arquétipo da crueldade dos ditadores) parece-me totalmente legítima e não é sequer prejudicada pela existência, no texto, de índices e informantes (embora vagos) que nos remetem para um quadro histórico bem conhecido.
Quanto ao seu (fundado) receio, partilho-o. Não sei se conhece os sítios alternativos http://resistir.info/ e http://odiario.info/ . Vale a pena visitá-los, para se ter uma visão da actualidade que não se rege pelas normas dos poderosos deste mundo. Relativamente ao que se tem passado na Líbia e na Síria, por exemplo, e apesar de tudo o que pode haver de negativo no comportamento dos dirigentes desses países, talvez a verdade não seja exactamente aquela que os media nos impingem diariamente.
Saudações.

Viva,

Um caso recente que aconteceu no nosso pais, para os lados de Oeiras fez-me lembrar uma passagem desta obra:
"Lenz não pôde mesmo deixar de pensar que até nas sociedades mais equilibradas e aparentemente mais justas, os homens poderosos só não matariam na rua, a frente de todos, um vagabundo, com as próprias mãos ou com uma arma, porque não queriam humilhar em publico as leis de um país."
Palavras para que, esta tudo dito.
Tiago M. Franco a 5 de Outubro de 2011 às 16:20

Tenciono ler nas próximas semanas "APRENDER A REZAR NA ERA DA TÉCNICA", mas tudo o que já li de Gonçalo M. Tavares me deixou absolutamente surpreendido, é um escritor desconcertante, e desconcertante é o adjectivo que me parece mais adequado para denominar este jovem escritor.
ASeverino a 6 de Agosto de 2013 às 09:12

Talvez o meu azar tenha sido o facto de ter começado pelo "Aprender a rezar". E como o achei sensabor, perdi a vontade de ler mais livros do Gonçalo. Agora, tenho de aguardar até me esquecer desta experiência desagradável.

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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