Sexta-feira, 11 de Março de 2011

O presente texto, de Michel Chossudovsky, publicado em http://www.odiario.info/?p=2004, contém elementos de reflexão imprescindíveis para se ajuizar dos acontecimentos na Líbia e da insaciável gana do imperialismo para brincar com a vida e a dignidade dos povos. Lembremo-nos das mentiras forjadas para que a opinião pública não condenasse a invasão e ocupação do Iraque. Não estaremos perante uma nova encenação sangrenta?

 

 

11 Março 2011

 

Os EUA e a NATO estão a apoiar uma insurreição armada na Líbia Oriental, tendo em vista justificar uma “intervenção humanitária”.

 

Não se trata de um movimento de protesto não violento como no Egipto e na Tunísia. As condições na Líbia são diferentes. A insurreição armada na Líbia Oriental é apoiada directamente por potências estrangeiras. A insurreição em Benghazi, que imediatamente arvorou a bandeira vermelha, negra e verde com o crescente e a estrela: a bandeira da monarquia do rei Idris, simbolo do domínio das antigas potências coloniais. (Ver Manlio Dinucci, Libya-When historical memory is erased, Global Research, Febraury 28, 2011).

 

Conselheiros militares e forças especiais dos EUA e da NATO já estão no terreno. A operação foi planeada para coincidir com o movimento de protesto nos países árabes vizinhos. A opinião pública foi levada a acreditar que o movimento de protesto havia-se espalhado espontaneamente da Tunísia e do Egipto à Líbia.

 

A administração Obama em consulta com os seus aliados está a ajudar uma rebelião armada, nomeadamente uma tentativa de golpe de Estado.

“A administração Obama está pronta a oferecer «qualquer tipo de assistência» aos líbios que tentem derrubar Moammar Kadafi, secretária de Estado Hillary Clinton [27 Fevereiro]. «Temos estado a estender a mão a muito diferentes líbios que estão a tentar organizar-se no Leste e para que a revolução mova-se também em direcção Oeste», disse Clinton. «Penso que é demasiado cedo para dizer como isto vai terminar, mas temos de estar prontos e preparados para oferecer qualquer espécie de assistência que alguém pretenda ter dos Estados Unidos». Há esforços encaminhados para formar um governo provisório na parte Leste do país onde a rebelião começou em meados do mês.

 

Os EUA, disse Clinton, estão a ameaçar mais medidas contra o governo de Kadafi, mas não disse o que eram ou quando poderiam ser anunciadas.

 

Os EUA deveriam «reconhecer algum governo provisório que eles estejam a tentar por de pé…» (McCain)

 

Lieberman falou em termos semelhantes, apelando a um «apoio concreto, a uma zona de interdição de voo, reconhecimento do governo revolucionário, o governo de cidadãos e apoiá-los com assistência humanitária e eu lhes forneceria armas”.
(Clinton: US ready to aid to Libyan opposition - Associated, Press , February 27, 2011, sublinhados do autor)

 

A INVASÃO PLANEADA

 

Uma intervenção militar é agora contemplada pelas forças dos EUA e NATO sob um «mandato humanitário».

 

«Os Estados Unidos estão a movvimentar forças navais e aéreas na região» para «preparar o conjunto completo de opções» na confrontação com a Líbia: o porta-voz do Pentágono, Coronel Dave Lapan dos Fuzileiros Navais, anunciou que «foi o presidente Obama que pediu aos militares para se prepararem para estas opções», porque a situação na Líbia está a ficar pior» (Manlio Dinucci, Preparing for “Operation Libya”: The Pentagon is “Repositioning” its Naval and Air Forces…, Global Research, March 3, 2011, sublinhado do autor).

 

O verdadeiro objectivo da «Operação Líbia» não é estabelecer democracia mas tomar posse das reservas de petróleo líbias, desestabilizar a National Oil Corporation (NOC) e finalmente privatizar a indústria petrolífera do país, nomeadamente transferir o controlo e a propriedade da riqueza petrolífera da Líbia para mãos estrangeiras. A National Oil Corporation (NOC) está classificada entre as 100 principais companhias de petróleo (A Energy Intelligence classifica a NOC no 25º lugar entre as 100 principais companhias do mundo. -Libyaonline.com)

 

A Líbia está entre as maiores economias petrolíferas do mundo com aproximadamente 3,5% das reservas de petróleo globais, mais do que o dobro daquelas dos EUA (para mais pormenores ver a Parte II deste artigo, «Operação Líbia» e a batalha pelo petróleo).

 

A planeada invasão da Líbia, que já está em curso, faz parte do conjunto mais vasto da “Batalha pelo petróleo”. Cerca de 80 por cento das reservas petrolíferas da Líbia estão localizadas na bacia do Golfo de Sirte da Líbia Oriental (Ver mapa abaixo).

 

As concepções estratégicas por trás da «Operação Líbia» recordam empreendimentos militares anteriores dos EUA-NATO na Jugoslávia e no Iraque.

 

Na Jugoslávia, forças dos EUA-NATO desencadearam uma guerra civil. O objectivo era criar divisões políticas e étnicas, as quais finalmente levaram à fragmentação de todo um país. Este objectivo foi alcançado através do financiamento encoberto e do treino de forças paramilitares armadas, primeiro na Bósnia (Bosnian Muslim Army, 1991-95) e a seguir no Kosovo (Kosovo Liberation Army (KLA), 1998-1999). Tanto no Kosovo como na Bósnia, a desinformação dos media (incluindo mentiras rematadas e falsificações) foram utilizadas para apoiar afirmações dos EUA-UE de que o governo de Belgrado havia cometido atrocidades, justificando dessa forma uma intervenção militar com razões humanitárias.

 

Ironicamente, a «Operação Jugoslávia» está agora na boca dos fautores da política externa estado-unidense: o senador Lieberman comparou a situação na Líbia aos acontecimentos nos Balcãs na década de 1990 quando, foi ele que o disse, «os EUA intervieram para travar um genocídio contra os bósnios». «E a primeira coisa que fizemos foi dar-lhes armas para se defenderem. Isso é o que penso que podemos fazer na Líbia» (Clinton: US ready to aid to Libyan opposition - AssociatedPress, February 27, 2011).

 

A estratégia poderá ser pressionar a formação e o reconhecimento de um governo interino da província secessionista, com o objectivo de fragmentar o país.

 

Esta opção já está a caminho. A invasão da Líbia já começou.

 

«Centenas de conselheiros militares estadunidenses, britânicos e franceses chegaram a Cirenáica, a província separatista do Leste… Os conselheiros, incluindo oficiais de inteligência, viajaram em navios de guerra e navios de mísseis até às cidades costeiras de Benghazi e Tobruk” ( DEBKAfile, US military advisers in Cyrenaica, February 25, 2011).

 

Forças especiais dos EUA e dos aliados estão na Líbia Oriental a dar apoio encoberto aos rebeldes. Isto mesmo foi reconhecido quando comandos britânicos das Forças Especiais SAS foram presos na região de Benghazi, onde estavam a actuar como conselheiros militares para forças de oposição:

«Oito comandos de forças especiais britânicas, numa missão secreta para pôr diplomatas britânicos em contacto com destacados oponentes do Coronel Muammar Kadafi na Líbia, foram humilhados depois de terem apoiado forças rebeldes na Líbia Oriental», informa o Sunday Times de hoje.
Os homens, armados mas à paisana, afirmaram que foram verificar «as necessidades da oposição e oferecer ajuda» ( Top UK commandos captured by rebel forces in Libya: Report, Indian Express , March 6, 2011, sublinhado do autor).

 

As forças SAS foram presas quando escoltavam uma «missão diplomática» britânica que entrou ilegalmente no país (sem dúvida de um navio de guerra britânico) para discussões com líderes da rebelião. O Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico reconheceu que «uma pequena grupo de diplomatas britânicos foi enviada à Líbia Oriental para iniciar contactos com a oposição rebelde» (U.K. diplomatic team leaves Libya - World - CBC News, March 6, 2011).

 

Ironicamente, as reportagens não só confirmam a intervenção militar ocidental (incluindo várias centenas de forças especiais), como também reconhecem que a rebelião se opunha firmemente à presença ilegal de tropas estrangeiras sobre o solo líbio:

 

“A intervenção da SAS enfureceu dirigentes líbios da oposição que mandaram encerrar os soldados para uma base militar. Os opositores de Kadafi receiam que ele possa utilizar qualquer sinal de intervenção militar ocidental para conseguir mais apoio patriótico para o seu regime» ( Reuters, March 6, 2011). O «diplomata» britânico que foi capturado com soldados das forças especiais era membro da inteligência britânica, um agente do MI6 numa “missão secreta”. (The Sun, March 7, 2011)

 

Declarações dos EUA e da NATO confirmam que estão a ser fornecidas armas às forças opositoras. Há indicações, embora não haja até agora uma prova clara, que foram fornecidas armas aos insurrectos antes do levantamento. Possivelmente, conselheiros militares e de inteligência dos EUA e da NATO também estavam no terreno antes da insurreição. Este foi o modelo usado no Kosovo: forças especiais apoiando e treinando o Kosovo Liberation Army (KLA) nos meses que precederam a campanha de bombardeamento de 1999 e a invasão da Jugoslávia.

 

O desenvolvimento dos acontecimentos mostram que as forças leais ao governo líbio recuperaram o controlo de posições que pertenciam aos rebeldes:

 

«A grande ofensiva das forças pró-Kadafi lançadas para recuperar o controlo das cidades e dos centros petrolíferos mais importantes da Líbia recuperou o controlo da cidade chave de Zawiya e da maior parte das cidades petrolíferas à volta do Golfo de Sirte. Em Washington e Londres, a conversa da intervenção militar ao lado da oposição líbia foi escondida ao aperceberem-se que as «informações da inteligência no terreno dos dois lados do conflito líbio era demasiado incompleta para servir de base à tomada de decisões” (Debkafile, Qaddafi pushes rebels back. Obama names Libya intel panel , March 5, 2011, sublinhado do autor).

 

O movimento da oposição está fortemente dividido quanto à questão da intervenção estrangeira.

 

A divisão é entre o movimento das bases por um lado e os «líderes» da insurreição armada apoiados pelos EUA, que são a favor de uma intervenção militar estrangeira por «razões humanitárias».

 

A maioria da população líbia, tanto os apoiantes como os opositores do regime, é fortemente oposta a qualquer forma de intervenção externa.

 

DESINFORMAÇÃO DOS MEDIA

Os grandes objectivos estratégicos da invasão não são referidos pelos media. Depois de uma campanha enganadora dos media, em que notícias eram literalmente falsificadas sem qualquer relação com o que realmente estava a acontecer no terreno, um largo sector da opinião pública internacional apoiou firmemente e por razões humanitárias a intervenção estrangeira.

 

A invasão está na mesa de trabalho do Pentágono, e destinada a ser executada independentemente dos desejos do povo da Líbia, incluindo os dos opositores do regime, que têm expressado a sua oposição à intervenção militar estrangeira em desrespeito da soberania do país.

 

POSICIONAMENTO DAS FORÇAS NAVAL E AÉREA

 

A fazer esta intervenção militar, ela seria executada como numa guerra geral, uma blitzkrieg, o que pressupõe o bombardeamento de alvos militares e civis.

 

Sobre isto, o general James Mattis, comandante do U.S. Central Command (USCENTCOM), declarou que o estabelecimento de uma «zona de interdição de voo» implicaria uma campanha de bombardeamento geral, que alvejasse entre outras coisas o sistema de defesa aérea da Líbia.

 

«Seria uma operação militar - não faria sentido dizer às pessoas para não utilizarem aviões. Teria de ser destruída a capacidade de defesa aérea para criar uma zona de interdição de voo. Não haja ilusões quanto a isto»”. (U.S. general warns no-fly zone could lead to all-out war in Libya , Mail Online, March 5, 2011, sublinhado do autor).

 

O Pentágono está a movimentar os seus barcos de guerra para o Mediterrâneo. O porta-aviões USS Enterprise atravessou o Canal de Suez poucos dias após a insurreição (http://www.enterprise.navy.mil).

 

Os navios anfíbios dos EUA, USS Ponce e USS Kearsarge, também tomaram posições no Mediterrâneo.

 

Foram enviados 400 fuzileiros navais dos EUA para a ilha grega de Creta «antes da sua deslocação para navios de guerra ao largo da Líbia” (Operation Libya”:US Marines on Crete for Libyan deployment Times of Malta, March 3, 2011).

 

Entretanto, a Alemanha, França, Grã-Bretanha, Canadá e Itália estão a colocar barcos de guerra ao longo da costa líbia.

 

A Alemanha enviou três navios de guerra a pretexto de assistência à evacuação de refugiados na fronteira Líbia-Tunísia. «A França enviou o Mistral, o seu porta-helicópteros, pois este tipo de meios aéreos, segundo o Ministério da Defesa, contribuirão para a evacuação de milhares de egípcios”. (Towards the Coasts of Libya: US, French and British Warships Enter the Mediterranean, Agenzia Giornalistica Italia, March 3, 2011). O Canadá despachou (2 Março) a fragata HMCS Charlettetown.

 

Entretanto, a US 17th Air Force, chamada US Air Force África, baseada na Ramstein Air Force Base, na Alemanha, está a dar assistência à evacuação de refugiados. As instalações da força aérea EUA-NATO na Grã-Bretanha, Itália, França e Médio Oriente estão prontas para a acção.


* Michel Chossudowsky é Professor da Universidade de Otawa, e amigo e colaborador de odiario.info.

Este texto foi publicado no dia 9 de Março em GlobalResearch.ca:

www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23548

 

Tradução de António Vieira Simões

 



publicado por tambemdeesquerda às 22:57
Excelente post, infelizmente o imperialismo americano com sua sede de energia pelo visto esta longe de acabar.
emerson a 13 de Março de 2011 às 21:21

Caro,

Se a América quisesse algo da Líbia, não duvide que já tinha lá entrado, não estava à espera da sua aprovação.
Estranho é o facto de não censurar o asqueroso regime político de Khadafi. Em vez disso, fala da cassete imperialista.
Dylan a 16 de Março de 2011 às 15:22

É altura dos puritanos decidirem se a UE e os EUA devem intervir na Líbia - sendo acusados de ingerência nos assuntos internos de outros países e sorvedouro dos recursos naturais dos mesmos - ou esperarem sentados que ocorra uma espécie de 25 Abril feito na internet e terminando num banho de sangue. Por favor, escolha...
Dylan a 16 de Março de 2011 às 15:15

RESPOSTA AOS COMENTÁRIOS DE DYLAN
(ao post de 11 de Março, com um artigo de Michel Chussodovsky)

Não se trata de uma questão de puritanismo. Se eu pudesse acreditar na boa-fé dos EUA e da EU, talvez achasse bem que se emendasse a Carta das Nações Unidas no tocante ao direito de ingerência. Porém, sinto-me incapaz disso, por razões várias, de que enumero algumas:
• vivi no tempo do fascismo salazarista, com o qual as democracias europeias e a americana conviveram pacificamente, até que o povo se libertou pelos seus próprios meios (felizmente, sem termos sido bombardeados pela NATO);
• presenciei, à distância, o papel dos EUA no golpe de Estado de Pinochet e a sua convivência pacífica com o regime deste e de tantos outros torcionários latino-americanos;
• testemunhei a bárbara agressão à Federação Jugoslava, destruída na sequência de ingerência “humanitária”, por alegada limpeza étnica, na sequência da qual, aliás, surgiu um novo Estado, já reconhecido por algumas democracias, contra o direito internacional, com um líder que esteve envolvido em tráfico de droga e, mais recentemente, em tráfico de órgãos humanos;
• observei o apoio dos EUA aos taliban (e ao amigo Bin Laden) e a posterior zanga, com a conhecida história de invasão, ocupação e instauração de um regime corrupto e fantoche;
• acompanhei o processo das “armas de destruição maciça” que nunca existiram, embora os Quatro Magníficos das Lajes as tenham visto não se sabe como nem onde, o que não impediu a invasão e ocupação do Iraque, com tudo o que isso implicou, implca e implicará;
• vejo que os EUA, e a EU, continuam a conviver amistosamente com os regimes mais asquerosos do planeta, sempre que isso lhes traz vantagens ou assegura a manutenção das mesmas. Fizeram-no com a Tunísia de Ben Ali e o Egipto de Mubarak; fazem-no com os sauditas e as demais ditaduras árabes; fizeram-no com o ditador líbio, nos últimos anos, a partir do momento em que este adoptou medidas que lhes agradaram (“A partir da II Guerra do Golfo, Kadhafi deu uma guinada de 180 graus. Submeteu-se a exigências do FMI, privatizou dezenas de empresas e abriu o país às grandes petrolíferas internacionais. A corrupção e o nepotismo criaram raízes na Líbia”, Miguel Urbano Rodrigues, http://www.odiario.info/?p=1993)

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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