Segunda-feira, 21 de Março de 2011

I

 

            Dois ucranianos encontram-se, abraçam-se efusivamente e, enquanto isto, um deles apunhala sorrateiramente o outro pelas costas. O apunhalado ainda tem tempo para sussurrar:

 

            ― Porque me apunhalas, se não te fiz favor nenhum?

 

            Foi mais ou menos esta a anedota que Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) contou, ontem à noite, no seu habitual comentário da TVI, querendo com ela ilustrar a volubilidade de comportamentos da França e da Grã-Bretanha em relação ao ex-amigo Kadhafi. Com a honestidade intelectual que nem sempre o caracteriza, MRS ajudava depois os telespectadores a descodificar a anedota: é que, quando se aceitam favores de proveniências inconvenientes, o melhor é fazer desaparecer as provas, isto é, quem no-los fez. É sabido, com efeito, que Sarkozy beneficiou de substancial financiamento do “guia da revolução” para a sua campanha presidencial e que uma prestigiada escola superior inglesa, a mesma onde estudou e se doutorou al Islam, filho de Kadhafi, recebeu igualmente donativos provenientes da Líbia, o que levou à demissão do seu reitor. (Isto pelo que a imprensa noticiou; ignoramos – o comum dos mortais – que e quantos outros negócios foram feitos no âmbito das relações de amizade e de cooperação entre estes perfeitos cavalheiros impolutos e o tiranete paranóico que agride barbaramente o seu próprio povo.) Mais importante, MRS acrescentou ainda que no Bahrein o poder também está a matar civis inocentes, com a ajuda solidária da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, e aí não se intervém. É que o petróleo líbio dá muito jeito. Quando MRS tem destes assomos de verdade, mesmo com aquele risinho cínico de quem, no fundo, se está borrifando para uns quantos civis líbios que possam quinar, apetece chamar Pedro Santana Lopes e Miguel Pais do Amaral – que venham pôr cobro neste desbocado!

 

 

 

II

             

            A Rússia e a China, que, abstendo-se no Conselho de Segurança da ONU (juntamente com o Brasil de Dilma), viabilizaram a operação militar em curso contra a Líbia, vieram já exprimir algum incómodo pelo facto de a implementação da zona de exclusão aérea estar a vitimar civis, corolário indesejável que se pretendia a todo o custo evitar, tendo sido até o facto de Kadhafi estar a matar civis inocentes que levou o Conselho de Segurança da ONU a aprovar a implementação da referida zona de exclusão aérea. Do mesmo modo, a Liga Árabe mostra-se algo apoquentada com o facto de se estar a atingir aqueles mesmos que urgia defender a todo o transe. Ora, se a Rússia e a Liga Árabe têm a desculpa de serem um país e uma organização com amplas provas dadas nos domínios da democracia e do respeito pelos direitos humanos, já a China tinha a obrigação de se lembrar dos ensinamentos do livrinho vermelho de Mao e de não passar cheques em branco ao tigre do imperialismo – que será de papel, sim senhor, mas ainda vai fazendo estragos, enquanto o papel não se rasgar de vez. Vir chorar sobre o leite derramado é que não abona a favor da sua coerência.

 

III

 

            No meio deste espectáculo deplorável de volubilidade, apenas um actor político nacional se comportou, no Parlamento Europeu, com a dignidade telúrica de um bloco de granito. Não, desengane-se quem pensou que me referia ao Partido Comunista Português, cujos eurodeputados foram os únicos portugueses a votar contra a intervenção militar na Líbia. Que ganhou o PCP com isso? Ficou isolado, mais uma vez, como quase sempre, no seu vezo quixotesco de combater moinhos de vento. Bloco de granito foi o de Esquerda, que, fiel a si mesmo e ao seu deslumbramento por Obama (lídimo representante e continuador das políticas de pilhagem dos recursos naturais do planeta, como diriam os comunistas, mas, na realidade, cavaleiro da Ordem da Guerra ao Terrorismo) alinhou com toda a deputação da direita e da social-democracia europeia.

 

            Com uma extrema-esquerda (?) destas, que falta nos faz a social-democracia?

 

 



publicado por tambemdeesquerda às 20:24
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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