Domingo, 29 de Maio de 2011

 

 

 

Os cínicos pós-modernos, detractores blasés da utopia, lançar-me-iam um olhar desdenhoso. Mas os devotos das elucubrações estilísticas dos novos tempos – aqueles para quem esta literatura só tem cabimento numa versão laica do Index Librorum Prohibitorum – não me poderiam excomungar da confraria dos neo-barrocos. Não sou, com efeito, um fiel. E, se uso o condicional, é porque é escassa ou nula a probabilidade de me lerem.

        

Vale a pena ler (e reler) Avieiros (1942). Por muito datado que seja. Por muito que o sociolecto nos proponha uma constante ida ao dicionário. É que ali há vida para além da literatura, que não se esgota na busca incessante de novos cultismos e conceptismos. Vida que transpira de cada página. E é uma lição de vida embarcar com o Tóino da Vala e a Olinda Carramilo, ciganos do Tejo como tantos outros, no seu saveiro – simultaneamente ferramenta de trabalho e lar –, e com eles lançar as redes ao rio, na faina do sável. São vítimas da fome, granjeando cada dia o sustento de mais um dia, na caminhada de todos os explorados em direcção a uma terra sem amos. Porque, se os tempos mudaram, a fome, essa, aí está, imposta pelos amos da terra, aqueles a quem nada convém que a literatura deixe a sua torre de marfim para pôr na nossa alma “sabor ferruginoso e fogo frio”, para nos levantar “até à altura insigne dos homens comuns”, como diria Neruda.



publicado por tambemdeesquerda às 23:04
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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