Terça-feira, 14 de Junho de 2011

 

 

         São catorze contos de extensão muito diferente, desde as duas páginas das micronarrativas “O Cortejo” e “De Profundis” até as sessenta de “Os Peripatéticos”. O que se insinua no espírito do leitor, ao fim de algumas páginas, é a persistência da temática da decomposição, que surge logo no primeiro conto, “O Búzio” – “Estava doente, e, no seu antro que cheirava a forragens e a podridão, ele dormitava” (13). Mas se, neste conto, o tema está, por assim dizer, pré-determinado, em termos de coerência narrativa, pelo facto de a personagem se encontrar doente, já no segundo, “Míscaros”, a sua ocorrência parece mais determinada pela vontade da autora de instituir um nível secundário se significação, inscrevendo a sua personagem, um jovem estudante entediado e talvez demasiado imbuído da sua própria personalidade, neste ambiente deletério: “Vento sul-sudoeste fraco; céu nublado. Tempo de míscaros. Matérias orgânicas que alastram nos muros e nos fossos, bolores negros, lodos, fungos, vidas persistentes, possuídas de uma animação vegetal crescendo sobre a decomposição, sobre a ruína, nos lôbregos refegos da terra, nos podres esconsos, nos charcos parados, debruados de lamas. Como míscaros, os homens parecem brotar na rua, ressumar das pedras, pardos e cor de azebre, cor de pão de rala, com as suas faces vazias, as mãos que são como raízes impregnadas de água” (15).

         Depois, em “A Pousada”, são a feira e a chuva que servem de álibi à introdução do tema: “A chuva alagava toda a feira; lonas rasgadas flutuavam; ouvia-se, nos seus redutos, o mugir do gado; e o cheiro do pêlo, que desprendia vapor, vinha de mistura com outros cheiros nauseabundos, de legumes que apodreciam, de peixe acamado em salmoura. Ouvia-se um gorgolejar de esgotos, e cataratas de lama precipitadas das ruas escarpadas alastravam na praça, formando um lago onde empolavam bolhas, como um pântano que referve” (30). E, um pouco mais à frente: “débeis flechas de luz penetravam nas ruelas onde os cães fossavam em detritos, e os galinheiros, rentes aos muros baixos, davam ao ambiente um cunho doméstico e também sórdido e abandonado. Brilhava o papel envernizado dos cartazes da feira. Das lamas que iam solidificando, de toda aquela multidão que se agitava e fremia, arrebatada ao longo de todos aqueles becos e acampamentos de comércio, subia um cheiro indestrinçável e lúgubre” (36).

         Em “Espaço para sonhar”, é a decadência de uma certa burguesia rural que confere ao tema uma conotação social evidente: “Um grande abandono reinava; e a casa, com a sua fachada entre palmeiras, tendo sido construída com propósitos fidalgos, grande esplendor de azulejos facetados, cornijas e frisos com efeitos coríntios, ganhava um tanto com aquela ruína. Na meia luz de um dia de inverno, tinha ela a aparência fina e quase irónica de certas misérias nobres; as tafularias do seu estilo apagavam-se, e apenas as altas paredes esboroadas e as persianas tombadas dos gonzos se entreviam entre lúgubres e pardos capitéis formados por galhos de árvores e varas de videira. As japoneiras, de folhas vidradas, e, em volta delas, o chão juncado de grandes flores putrefactas, completavam o efeito bastante sinistro e no qual ninguém se fixava” (53, 54). Mais à frente, no mesmo conto e numa descrição que sugere fortemente o espaço circundante da estação de S. Bento, no Porto, a decomposição como que se agarra à pele da personagem Gil, dificultando a sua ascensão social: “um fartum de óleo onde se frita peixe, de secreções de esgotos que ressumam sob as pedras, de água onde flores e legumes se decompuseram, de hulha trazida na brisa desde a gare e os túneis próximos” (67, 68). Logo a seguir, ao tema da decomposição associa-se o da pequenez intelectual: “Os alunos eram de uma boçalidade renitente, as salas de aspecto torpe, escarradas, com nódoas de tinta e grandes bancos lascados (...). A classe era comum com a dos analfabetos, e ele contemplou um momento os rostos sórdidos e sonolentos, os punhos calosos que se aplicavam, quase dolorosamente, na escrita” (69).

         No conto “No caminho de Emaús”, o contexto e a sugestão bíblica dispensam a inclusão desta temática recorrente. Ainda assim, ela aflora vagamente, na seguinte passagem: “Era uma hora de canícula, arrasante, afogueada, espessa de cheiros que rompiam das valas, dos boqueirões saibrosos das minas onde apodreciam limos e cadáveres de doninhas e ratos dos campos” (95).

         Em “O Noivo”, a “pobreza repulsiva” e os cabelos “cor de folhas mortas” da noiva (105) arrastam consigo a descrição de uma cidade lúgubre: “As lajes dos passeios escorriam uma humidade pegajosa onde dir-se-iam rolar limos e as gomosas decomposições dos boeiros (a grafia consagrada parece ser com u: bueiro)” (106). E a associação pobreza-decomposição aparece de novo três páginas à frente: “Sorria ele também, pensando na noiva, e não dava por que o leito era fétido e dos lençóis se exalava um odor de imundície, de corpo humano que a pobreza marcou com esse estigma da decomposição em vida, mais odioso que a própria doença e que a morte” (109,110).

         No último conto da colectânea, “Invocação a Jano”, a temática da decomposição reaparece, agora em relação de redundância com o tema da rusticidade provinciana: “Mas o verão, aquele charro verão da província, aquelas tardes infinitas, mortas, pegajosas, que exalavam como que cheiro imponderável, de putrefacção, onde era mesmo audível a respiração das folhas imóveis cujo verde desbotava, cuja sombra constrangia!” (197).

         Estas quantas citações legitimam a conclusão de que a temática da decomposição se institui como significante metafórico (ou alegoria) da própria decomposição de uma sociedade marcada pelos estigmas do atraso, do subdesenvolvimento e da incultura, da decadência de uma burguesia ainda muito próxima das suas origens rurais. Mas há, por outro lado, neste contos de Agustina, como que uma pequena fresta de luz que, não a aparentando minimamente com os neo-realistas – que, no dizer de Alexandre Pinheiro Torres, viam a luz ao fundo do túnel e no-la davam a ver, nisso se distinguindo dos realistas tout court –, reequilibram, contudo, a mundivisão da escritora, retirando-lhe um pouco daquela “nauseada ou angustiada negação sistemática, bem semelhante à teologia negativa dos místicos” a que se referem António José Saraiva e Óscar Lopes na sua História da Literatura Portuguesa. E essa fresta de luz, neste meu pequeno artigo indocumentada, irrompe em passos como estes: “Dormia, rolando às vezes a cabeça no travesseiro, como alguém que é torturado. “Ainda, sempre isto, ainda!” E dentro de si, ritmado com o seu coração e com o pulsar das artérias no cérebro, estava o rumor do búzio; de si ele extravasava, subia como um fragor não mais definível, só mais intenso, – projectava-se m ondas sucessivas e altíssimas, até atingir os espaços frios e vazios, sobre a cidade e a noite, sobre as estrelas mortas e milenárias, e os múltiplos sóis que despertam novos mundos” (“O búzio”, 13,14). Ou ainda: “Isto deu-lhe uma sensação de alívio, de paz, de imensa e curiosa exultação que o fez correr de novo, pulando nas pedras, como um garoto anónimo, vertiginoso e ágil, como um ser prodigioso movendo-se, sem limites de tempo e de espaço, possesso dum arrebatamento cálido, infinito” (“Apenas um poeta manco”, 24).



publicado por tambemdeesquerda às 12:31
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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