Domingo, 28 de Agosto de 2011

Uma mão cheia de multimilionários franceses, na esteira de um norte-americano, deu-se ultimamente conta de que talvez não estivesse a pagar a crise na mesma medida em que é forçado a fazê-lo o comum dos mortais. Vai daí, decidiram os ditos cidadãos interpelar o poder político com uma vibrante chamada de atenção: vá lá, deixem de nos apaparicar, que nós também podemos fazer uns sacrificiozinhos para o bem comum. Ficámos assim a saber – aqueles que ainda tivéssemos dúvidas – que, nisto dos sacrifícios, há uns a quem se não pergunta se concordam, antes de se lhos imporem, e outros que se vêem constrangidos a rogarem-nos por especial deferência. Os economistas e comentadores do costume, esses, não tardaram a explicar ao povo ignaro, com um arrasador argumentário académico e a lógica demolidora dos compêndios neo-liberais, que os nossos ricos pouco mais são do que pessoas remediadas, além de que os benefícios da taxação das suas fortunas seriam inferiores às perdas geradas pela fuga de capitais. E o povo ignaro que somos ouve aquilo e diz para com os seus botões que se calhar é mesmo assim, o melhor é a gente aquietar-se, aqueles senhores falam tão bem. Mas às vezes este apaziguamento não dura e uma ideia negra fica a remorder-lhe o espírito, rouba-lhe a paz da alma: não será que os move o medo de virem a perder tudo, tal é o desconcerto social, de tal modo que até preferem dar o que os seus homens de serviço no governo se escusaram a pedir-lhes até agora? É. A História contém alguns exemplos elucidativos sobre o que às vezes acontece quando já nada há a perder. Mesmo assim, entre nós, a ideia dos multimilionários estrangeiros teve um acolhimento que não se pode dizer entusiástico, e é de crer que o actual conselho de administração dos interesses do grande capital adopte legislação que, sem pôr em risco a sobrevivência dos pobres ricos, dê ao povo ignaro a ilusão de que eles também estão a pagar a crise e até contribuindo mais do que os trabalhadores. Com o que, mais uma vez, terá atingido o seu objectivo permanente: enganar-nos, desmobilizar-nos, manter a nossa raiva dentro dos limites do plausível, para que a crise possa continuar a grassar e a destruir vidas, e para que os ricos possam ser cada vez mais ricos, ainda que, por vezes, tenham de prescindir filantropicamente de 0,8 a 1,2% dos seus rendimentos.



publicado por tambemdeesquerda às 18:03
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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