Sábado, 03 de Setembro de 2011

            Finalmente, consegui ler o Fausto. Todo. Primeira e segunda parte. Numa edição do jornal Público, que reproduz a tradução de Agostinho d’Ornellas, editada pelo Professor Paulo Quintela. Mas custou. De tal maneira que me auto-inquiri: serei apenas vítima da minha escassa capacidade de discernimento ou é o texto que muitas vezes peca por falta de clareza, sobretudo na segunda parte? Em abono da segunda tese, há até um número significativo de gralhas nesta edição barata. Quem sabe se, para além das que facilmente detecto, não haverá outras, mais subtis, que produzem frases vazias de sentido ou contra-sensos que, incapaz de entender, me deixam com o pouco reconfortante sentimento de que sou inepto? E foi moderadamente angustiado com estas dúvidas mais ou menos metódicas que fui à procura de outra tradução da tragédia na net. Encontrei-a no eBooksBrasil e é de António Feliciano de Castilho, o nosso aedo que os jovens da geração de 70 maltrataram um pouco aquando da Questão Coimbrã.

 

Que diz Castilho do poema de Goethe, na “Advertência” que precede a sua tradução? Depois de considerações sobre “as trevas e monstros desta cordilheira de poesia rebentada a súbitas de profundezas desconhecidas” e um “sem conto de dificuldades de que o poema original nasceu inçado e ouriçado para os seus próprios conterrâneos”, refere-se à tentativa pioneira do seu irmão José Feliciano de Castilho, cujo conhecimento do alemão, suficiente para traduzir Schiller e Klopstock, “não bastava para autor tão abstruso no pensamento, tão fora do comum no estilo, e tão cheio de nós górdios na linguagem”. Como se não bastassem estes juízos de valor sobre a linguagem do poema de Goethe para me tranquilizarem quanto aos meus dotes intelectuais, Castilho celebra a competência do Sr. Eduardo Laemmert, erudito, profundo conhecedor do alemão e do português, que, na sua “tradução interlinear e fidelíssima” do Fausto, “depois de colocar as palavras portuguesas na confusa ordem das alemãs as concerta fora do hipérbato segundo a nossa ordem usual (...)” E mais elogia “a franqueza de verdadeiro sabedor, com que às vezes declara que não aventa o senso ou a intenção do seu poeta, senso e intenção que os mais finos alemães não dissimulam escapar-lhes a miúdo ”. Mas não se fica por aqui Castilho na avaliação dos méritos do poema. Dando generosamente cobertura à minha reconhecida incapacidade para entender vários passos, sobretudo da segunda parte do poema, eis como ele se lhe refere, justificando o facto de apenas ter traduzido a primeira parte: “ao segundo Fausto, ao Fausto da velhice de Goethe, não me atrevi, seria esse um trabalho ainda mais fragoso (...). Na segunda parte, dizem alemães, é que o autor mais se despendeu em gentilezas e esmeros líricos. Pode ser; contemplado nos reflectores não o parece; e depois quando essas excelências acidentais e de mera forma, rara vez traduzíveis, sejam tais como no-las querem encarecer, tantos e tão crespos são no último Fausto os enigmas filosóficos, tão abstruso o senso das ficções, e as ficções mesmas tão desnaturais, tão inverosímeis, tão impossíveis (ia-me quase escapando tão absurdas) que o bom gosto e o bom senso, que tão benévolos perdoaram e receberam a lenda velha do Dr. Fausto, não sei como se haveriam com o Fausto último.”

 

Decididamente, Castilho tinha uma predilecção pela farpa do bom senso e bom gosto que lhe valeu a célebre altercação com Antero e Teófilo, mas, no caso do Fausto, creio que tem razão.

 

Posto isto, o que havemos de reter da leitura do poema? Aquilo que todos sabemos: o sábio Fausto, atormentado pela ideia da vacuidade do conhecimento

 

– “Nem chego a imaginar que haja ciência

Cousa alguma ensinar que aos homens sirva

E convertê-los possa ou melhorá-los” (vv. 393-395) –,

 

insatisfeito com a vida que leva

 

– “Seja qual for o trajo, sempre as penas

Hei-de sentir deste viver mesquinho.

Para brincar somente sou mui velho;

Para não desejar mui moço ainda.” (vv. 1563-1566)  –

 

e pouco preocupado com a “outra vida”

 

– “Pouca monta

O outro mundo tem pra mim; se este

For um dia ruínas, muito embora

venha outro depois! É desta terra

Que brotam meus prazeres, minhas penas

Este sol alumia. Quando deles

A separar-me chegue, então suceda

Seja o que for. E nem saber me importa

Se há ódio ou amor na outra vida,

Nem se existe lá nessas esferas

Região superior ao fundo abismo.” (vv. 1671-1681)  –

 

 faz um pacto com Mefistófeles, isto é, vende a alma ao Diabo, em troca do rejuvenescimento e do poder de fruir copiosamente da vida:

 

– “MEFISTÓFELES. (…)

Façamos o contrato! Com delícia

De meu poder verás as maravilhas:

Dar-te-ei o que homem nenhum viu. (vv. 1683-1685)

(…)

Atenta bem!: nós não o esqueceremos! (v. 1716)

(…)

 

FAUSTO. (…)

O que exiges de mim, maligno espírito?

Papel ou pergaminho? bronze ou mármore?

Que escreva com cinzel, buril ou pena?

Deixo-te livre a escolha.

 

MEFISTÓFELES. Porque hás-de

A tal ponto empolar tua facúndia?

Qualquer papel nos serve, se assinares

Com um pingo de sangue...” (vv. 1738-1744)  –

 

Assinado o pacto, Fausto recupera o viço da juventude e apaixona-se pela imagem de Margarida, que seduz, graças às malas-artes de Mefistófeles.

 

“Senhor pedante,

Deixe-me em paz com seus morais axiomas!

Aqui lho digo claro:  – Se inda hoje

Em meus braços não dorme a linda moça,

À meia-noite estamos separados! (vv. 2609-2613)”

 

A jovem é vítima da censura social e acaba encarcerada. Fausto, atormentado pelo remorso, esforça-se por salvá-la, porém Margarida morre. E é este Fausto arrependido e resgatado pelo amor que continuará a aperfeiçoar o seu ser, na segunda parte do poema-tragédia, sempre tentado por Mefistófeles, que, assim, acaba por não lhe ganhar a alma.

            Provindo a lenda do Dr. Fausto da Baixa Idade Média (segunda metade do século XV), não será de estranhar a problemática religiosa que embebe todo o poema e não raro suscita a lembrança do nosso Gil Vicente, provável contemporâneo do Fausto histórico. Também o humanismo renascentista, que transparece na curiosidade intelectual de Fausto, faz sentido naquele avizinhar do século XVI para que a lenda remete. Mas o poema é de Goethe e Goethe remete-nos para a complexa teia de tendências culturais que caracterizou os últimos decénios do século XVIII e as primeiras do XIX na Alemanha – classicismo, Sturm und Drang/romantismo. É neste ambiente que Fausto, a personagem, nos aparece com a carga de símbolo do próprio homem, alvo de pulsões contraditórias, mas capaz de se superar, indo sempre mais além.



publicado por tambemdeesquerda às 19:49
Realmente, a segunda parte de Fausto é muito complicada. E a tradução de Ornellas parece mesmo não ajudar muito... Passei a vê-la com outros olhos após a leitura do ensaio "O Fausto de Goethe: a tragédia do desenvolvimento", de Marshall Berman, no livro "Tudo que é sólido desmancha no ar", disponível em português pela Companhia das Letras. De resto, parabéns pelo blog, achei muito interessante! Saudações ultramarinas!
Luiz Tavares a 12 de Setembro de 2011 às 07:22

Obrigado pelo seu comentário. Tentarei descobrir o ensaio de Berman. Saudações.
tambemdeesquerda a 12 de Setembro de 2011 às 15:15

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