Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

I

 

            Quando já se falava da crise do subprime, da bolha imobiliária, da falência do Lehmon Brothers e de outros que tais primores do sistema, ainda as perorações dos senhores Ulrichs, Belmiros e quejandos nos soavam a catilinárias extemporâneas num pequeno país que, graças à sua insignificância económica, lograria passar incólume entre os pingos de chuva da derrocada financeira. O próprio Sócrates e o seu inefável Manuel Pinho, que a cena dos corninhos celebrizou, se encarregaram de nos administrar uma terapêutica dose diária de anestésico optimismo em que o vulgo encontrava motivação q.b. para o gozo do ócio domingueiro nas praias da Costa, assim desencadeando a conhecida excomunhão do Engenheiro Belmiro, pouco propenso a aceitar descanso tão deletério a quem mais não devia fazer do que contribuir sete dias por semana para o indispensável incremento da produtividade pátria.

            Porém, muitos meses se passaram e foi aumentando o número dos seguidores das ulrichianas e azevêdicas lições. Os comentadores, analistas e simples jornalistas de serviço ao regime esfalfaram-se na árdua tarefa de demonstrar à sociedade e à saciedade que os sacrifícios eram para todos – do Amorim das cortiças ao Zé Jaquim das linguiças – e que havia que aceitar reduções de salários, aumentos de impostos e perda de direitos como condição incontornável do equilíbrio das contas públicas, da recuperação da confiança dos mercados e da consequente entrada no céu. A máquina ideológica da plutocracia burguesa funcionou a todo o gás, condicionando o infeliz consumidor do discurso dos media para a aceitação acrítica e resignada de todas as infâmias. O dogma da inevitabilidade entrou no nosso quotidiano como faca afiada em unto e predispôs-nos para o altar sacrificial. Pode agora o governo impor o mais iníquo orçamento de sempre que os media, atentos e venerandos quanto convém, não deixarão de perfilhar o adjectivo “difícil” para o qualificar. Assim agraciam o poder, reconhecendo-lhe esforço abnegado na feitura de tão difícil documento. Perante tão ingentes dificuldades e atinentes sacrifícios do poder, que mais restará ao cidadão comum senão render-se? “E pur…” – e, no entanto, há quem resista. (Continua)



publicado por tambemdeesquerda às 19:31
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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