Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

  

II

 

Por isso, o primeiro-ministro alertou já para as consequências que não deixarão de sofrer aqueles que ousarem “incendiar as ruas”. É útil criar a ideia de que os tumultos vão surgir e de que serão exemplarmente reprimidos. Em caso de necessidade, o regime pode até levar alguns a provocá-los, à maneira de Lenz Buchamann e Hamm Kestner, chefe do Partido, que, em Aprender a Rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares (1), promovem “uma explosão no edifício do Teatro principal, meio talvez necessário para instalar o estado de tensão na cidade”. Quem não concordará com a repressão de tumultos? E, já agora, na eventualidade de uma situação potencialmente tumultuosa, como seria o caso de um povo espoliado de todos os direitos arduamente conquistados, quem discordaria de uma suspensão das liberdades e garantias individuais, a bem da democracia? Por outras palavras, pese embora o absurdo do enunciado, quem não concordaria com a instauração de uma ditadura, se estivessem em causa os superiores interesses da democracia?

 

A ditadura da burguesia assume a forma democrática parlamentar (aquela que temos conhecido, nomeadamente desde a aprovação da Constituição, em 1976), enquanto a contestação das suas políticas antipopulares se mantém dentro dos estritos limites do respeito pelo direito à propriedade (seu valor supremo), ao trabalho (de todos os seus serventuários, incluindo os que o são inconscientemente, por falta de consciência de classe) e à mobilidade. Quando, perante um agravamento brutal das condições de vida do povo, a contestação irrompe com uma pujança susceptível de pôr em risco a manutenção do status, isto é, a sua dominação de classe, e em função do grau calculado de risco, a burguesia não hesita em pôr de lado a sua fachada democrática, assumindo a forma de ditadura terrorista – o fascismo que conhecemos durante quarenta e oito anos.

 

É com estes pressupostos que encaro as advertências de Pedro Passos Coelho e as repetidas referências na comunicação social à eventualidade da ocorrência de tumultos nas ruas das nossas cidades. Ciente do carácter profundamente injusto e da natureza de classe das suas políticas, a burguesia sabe que o clamor popular pode atingir proporções dificilmente controláveis e põe de sobreaviso os contestatários potenciais.

 

Neste contexto, o papel dos media é crucial. Repetindo vezes sem conta o discurso justificativo da austeridade, com o leitmotiv de que temos vivido acima das nossas possibilidades (2); instilando a ideia de que não há alternativa ao sistema em que vivemos e de que os sacrifícios são inevitáveis e atingem todos; criando a ilusão (se considerarmos os efeitos recessivos das políticas implementadas) de uma recuperação económica a prazo, eles comportam-se como missionários laicos, responsáveis por uma doutrinação persistente da religião do capital.

 

 

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(1)   p. 245, cf. meu post de 10/02/2011

(2)   A comunicação social tem noticiado hoje que o Presidente do Conselho de Administração do Hospital do Barlavento Algarvio recebe anualmente 745 000 €, ou seja, em média, 62 000 € (12 400 contos) por mês. 745 000 € são apenas 106 anos de salário mínimo nacional, à razão de 14 salários por ano e arredondando o SMN para 500 €… Um caso a somar a todos aqueles que fomos conhecendo nos últimos anos (PT, EDP, banca,…)



publicado por tambemdeesquerda às 18:24
Fernando,

Desde já peço desculpa pelo tempo que demorei a responder. Na verdade não tinha o livro comigo e tive a necessidade de voltar a pegar nele para poder fazer outra citação sobre a actual situação no nosso país.
Sobre o seu comentário, não posso estar mais de acordo. Mais, na minha opinião se houver necessidade, membros do poder vão mandar provocar essas explosões e atribuir as culpas aos manifestantes, para que a sociedade civil pensem ser um bando de criminosos e os políticos ficarem bem na fotografia.
Existe outra parte do livro que também fala sobre a actual situação dos mercados financeiros, se achar oportuno poderemos trocar as nossas opiniões relativamente à frase, aqui fica:
“Neste particular, a cidade para distribuir e aproveitar as riquezas, parecia depender de uma vontade exterior. No fundo, havia a sensação que depois de muito se andar, depois das espantosas invenções técnicas, o homem continuava a depender de a árvore dar ou não frutos, apesar de já não haver árvores e de os frutos já não serem arrancados ou apanhados do chão, mas simplesmente negociados. Onde esta então a nova arvore? E que arvore é essa que fazia, subitamente, os preços subirem e a fome instalar-se em vários pontos do país para depois passados alguns anos, começar, sem justificação, a dar frutos em excesso?”
Tiago M. Franco a 25 de Outubro de 2011 às 20:20

Pois é, Tiago. É bem conhecido o episódio histórico do incêndio do Reichstag, em 1933: os nazis incendiaram-no e acusaram Dimitrov de o ter feito. Também não sei até que ponto aquilo de que foram acusados os manifestantes de Wall Street, como pretexto para serem expulsos, não terá sido obra da própria polícia que os expulsou. Aquando da visita do papa a Espanha, houve igualmente um episódio de provocação. E assim sucessivamente...
Quanto à árvore e aos preços qie sobem e descem sem razão aparente, a economia de mercado é isso mesmo - a irracionalidade no poder. Mas não uma qualquer irracionalidade involuntária; trata-se de uma irracionalidade canalizada e perversa, que busca afanosamente o maior lucro imediato, descurando os superiores interesses do homem e até do planeta.

Resposta a morte de Kadafi e ao artigo de Miguel Urbano Rodrigues:

Na minha opinião Kadafi era um ditador que oprimia o seu povo, por isso nunca posso apoiar alguém com estas características.
Mas a verdade é que já o era quando em Dezembro de 2007 veio a Lisboa assistir à cimeira EU-África , mas os 1.300 milhões de euros que tinha depositado na Caixa Geral de Depósitos valaram-lhe para ser recebido com “pompa e circunstância”.
A verdade é que se Kadafi está hoje fora do poder, não foi por oprimir o seu povo, não foi por desrespeitar os direitos humanos, foi porque o Ocidente por razões estratégicas não quis que o ditador Líbio estivesse mais tempo no poder.
De alguns anos para cá Kadafi tornou-se incómodo para o Ocidente e isso custo-lhe a vida.
Tiago M. Franco a 31 de Outubro de 2011 às 12:21

Estamos de acordo. Só que o Tiago aparenta confiar na democracia burguesa. Ora a aparente bondade do discurso oficial de defesa dos direitos humanos, da luta contra o terrorismo, etc., não passa de cínica fachada de circunstância, que esconde uma subtil ditadura de classe. As guerras que o imperialismo euro-americano semeia pelo planeta não passam de guerras de rapina colonial das riquezas de povos martirizados, quer pelas suas elites dirigentes corruptas, quer pelos agressores estrangeiros; a política de austeridade (para a maioria) que o actual governo implementa não passa de uma brutal guerra de classe contra os trabalhadores portugueses; o retrocesso civilizacional a que assistimos nos ditos PIGS não passa de uma "revanche" da burguesia europeia, agora livre do cotejo com países cujas conquistas nos domínios da educação, da saúde, da ciência, ofuscavam e faziam perigar o mundo capitalista. Por isso, de cada vez que esta gente vem com a cantilena da defesa da democracia e dos direitos humanos, eu só não me rio porque sei (todos sabemos) que a seguir vêm os bombardeiros e muita gente vai morrer. Na Líbia, duvido que alguma vez o ditador Kadafi tivesse causado tantas mortes e destruição como a intervenção da NATO.

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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