Quinta-feira, 03 de Maio de 2012

            Não acompanhei de muito perto as cerimónias relacionadas com o funeral de Miguel Portas, mas o pouco que vi pela televisão deixou-me com sentimentos contraditórios e mergulhado numa certa perplexidade. É destes sentimentos que vou dar parte, correndo o risco de ser bem interpretado e de que se considere não ser de bom-tom o que vem a seguir.

         Miguel Portas abandonou o PCP em 1989, tendo, três anos mais tarde, fundado a Plataforma de Esquerda, juntamente com outros dissidentes, que viriam a aderir ao PS. Não foi o seu caso, visto que a sua opção foi a de criar um novo partido, o Política XXI, que, em 1999, associado ao PSR e à UDP, dará origem ao BE, onde se manteve até à sua morte.

         Foi, pois, até 1989, militante do partido da classe operária e de todos os trabalhadores portugueses, do partido que, durante os quarenta e oito anos do fascismo e os trinta e seis de contra-revolução e de restauração capitalista, sempre se afirmou como o mais consequente batalhador pela defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo. E deixou de o ser para integrar um partido que, para lá da conhecida heterogeneidade das suas facções (trotskista, marxista, social-democrata) se afirma, genericamente, da área da social-democracia. Não a “social-democracia” do PSD, nem mesmo a do PS, enfeudada ao neoliberalismo, mas uma social-democracia, digamos, mais genuína, de maior sensibilidade social e mais consentânea com as suas raízes históricas, que remontam aos finais do século XIX. Porém, o facto é que, entre marxismo e social-democracia não há compromisso possível: a segunda pronuncia-se inequivocamente pela ilusão do reformismo; o primeiro sabe que o capitalismo não é reformável e que só a revolução, superando as contradições e antagonismos de classe, conduzirá a sociedade a uma síntese superior.

         E é aqui que está o busílis. A burguesia portuguesa não é ingénua e sabe donde lhe pode vir mossa. Ao passar-se do PCP para a social-democracia, mesmo esta com farpela de extrema-esquerda (o que não deixa de ser curioso), Miguel Portas passou a ser um adversário político “doce”, “convicto, mas doce” – adjectivos que vi serem-lhe atribuídos por vários lídimos representantes da classe dominante, desde Marcelo Rebelo de Sousa a Pedro Santana Lopes.

         Creio que era Bernard Shaw que dizia serem as pessoas sensatas muito úteis àquelas que o não são. Poder-se-ia dizer o mesmo dos políticos doces e, em geral, das pessoas que levam a sua tolerância tão longe que acabam no extremo de pactuar com as injustiças e as desigualdades, ou, pelo menos, com os seus promotores. Porque a política não é exactamente um jogo de futebol, em que ganhar ou perder se traduz por uma classificação na tabela. A vitória sucessiva de partidos de direita (PSD e CDS) ou do partido dito socialista, ao longo dos anos, em Portugal, tem tido como contrapartida a destruição de conquistas da Revolução que configuravam avanços civilizacionais. Nos dias que correm, a concretização da agenda ideológica da burguesia no poder, pela coligação reaccionária, visa a supressão do Estado social e a sua substituição por uma selva em que os trabalhadores por conta de outrem, os desempregados, os pensionistas, os contratados com vínculos precários, os trabalhadores a recibo verde, os pequenos empresários são devorados por quem se encontra no topo da cadeia alimentar – grandes empresários, banqueiros, administradores e gestores, bem como os seus serventuários no poder político – todos eles, naturalmente, grandes defensores da tolerância e da convivência “democrática”, ou não dependesse a manutenção dos seus privilégios imorais da doçura e da compreensão das suas vítimas, condenadas a condições de vida miseráveis ou próximas disso, ao assistencialismo e à caridade, à degradação moral, por vezes, até à morte. Com os promotores destas políticas não há que ser doce nem tolerante. Pelo contrário, há que dar corpo à célebre máxima de Saint-Just: “pas de liberté pour les ennemis de la liberté”.

         Em conclusão: não estão em causa as qualidades intelectuais e morais de Miguel Portas; está em causa a sua opção política. E por muito que me esforce por acreditar na sinceridade do seu empenhamento na transformação social, as efusivas mostras de pesar pela sua morte, vindas de quem pouco se preocupa com a sorte de milhões de trabalhadores, deixam-me a desagradável impressão de que quiseram prestar-lhe um tributo pela sua deserção.



publicado por tambemdeesquerda às 16:37
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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