Sábado, 26 de Maio de 2012

Independentemente do que vier a resultar do caso das “secretas”, do processo de audição do ministro Relvas, da contenda com o “Público”, da demissão do adjunto do ministro, etc., o que tudo isto vem, uma vez mais, pôr a nu é a enorme desfaçatez com que a burguesia nacional põe e dispõe a seu bel-prazer do aparelho de Estado, que controla, e que, com inegável arte e engenho, consegue fazer quase sempre passar por aquilo a que cinicamente chama Estado de direito democrático.

 

Há, claro, quem não vá na cantiga e saiba muito bem que a democracia burguesa não passa de uma ditadura mais ou menos soft, consoante as necessidades, de uma classe endinheirada, detentora das alavancas dos poderes económico, político, mediático. Mas a sua máquina ideológica e de propaganda é de tal maneira eficaz e o modo de funcionamento dos partidos do sistema concebido de tal maneira (com a substituição frequente do líder, por exemplo, e a consequente obliteração dos “erros” cometidos pelo anterior) que, para a grande massa dos eleitores, o Estado é mesmo democrático. A prova, aliás, é que o ministro Relvas está a ser ouvido.

 

O ministro Relvas está a ser ouvido, e, das duas, uma: hipótese A, prova-se que o homem não tem nada a ver com o quer que seja, nem nunca pressionou jornalistas nem coisa nenhuma. Muita gente sisuda saúda o resultado das averiguações e exalta a excelência do regime democrático, de cristalina transparência. Há, contudo, uns quantos desmancha-prazeres que insistem em que só um parvo pode acreditar em tal conclusão. Esta suspeição faz mancha de óleo e gera algum mal-estar, que o passar das semanas desvanece em grande parte, subsistindo contudo uma franja de incréus que vão somar-se a outros de processos anteriores com idêntica sorte. A hipótese B é provar-se que o homem está enterrado até à base da nuca em histórias que fariam a felicidade de muitos romancistas. A mesmíssima gente sisuda que aplaudira, no meu cenário virtual, a hipótese alternativa, saúda agora esta, tecendo encómios às virtudes cristalinas do regime democrático. Com a mesma convicção – o que só abona a favor da qualidade dos actores. Claro que, nesta circunstância, o ministro Relvas é dispensado; após período de nojo de três meses e meio, ingressa na administração de uma grande empresa; é substituído no governo por um companheiro do partido ou simpatizante que está acima de qualquer suspeita (na visão legalista da tal gente sisuda, que muito preza o princípio da presunção da inocência). O governo sai reforçado, quer porque alijou uma carga embaraçosa, quer porque, ao alijá-la, provou a pureza dos seus intentos. Os desmancha-prazeres de há bocado não podem, desta feita, senão aceitar o resultado das averiguações e nele acreditar. Insistem, contudo, em que, com Relvas ou sem Relvas, casos como este continuarão a surgir, pois estão no código genético da democracia burguesa. Esta insinuação alastra como mancha de óleo e gera um mal-estar crescente, que se vai desvanecendo com o passar do tempo. Entretanto, os incréus da hipótese anterior rendem-se à excelência da justiça burguesa e abdicam da sua descrença temporária. A democracia burguesa triunfa. Quem resiste a tanto charme?



publicado por tambemdeesquerda às 00:09
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
mais sobre mim
Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25

29
31


pesquisar neste blog
 
contador
Website counter
Mapa de visitantes
Visitantes por país
free counters
Visitantes em tempo real
Que horas são?
blogs SAPO