Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

É difícil descortinar uma coerência narrativa satisfatória e sentir a emoção estética que, em última análise, suponho ser objectivo central de qualquer manifestação artística, nos últimos romances de ALA. É bem verdade que a literatura enveredou, desde o dealbar do romantismo, por caminhos de subversão e de contaminação de géneros que a afastaram cada vez mais dos cânones estritos compendiados nas poéticas clássicas. Verdade também que, na construção dos sentidos (resultantes da relação triangular autor/livro/leitor) se foi progressivamente alargando a parte reservada ao leitor. E julgo saber que o gosto do leitor moderno e culto se compraz preferencialmente na leitura de narrativas abertas, plurissignificativas e não espartilhadas em conceitos estreitos de géneros. Apesar de tudo isso, estas “sinfonias concretas” de ALA, a mim, soam-me a ruído, a bricabraque.

 

Ao fazer este cotejo entre a escrita de ALA e a música, ocorre-me um outro, agora com Le Corbusier e as suas construções de estrutura tão aparente. É uma associação contraditória, porque em ALA a arquitectura narrativa, pelo contrário, esfuma-se, mal a vislumbramos. Mas num e noutro sobra o desconforto, a estranheza de quem espera encontrar algo de acabado e vê, pelo contrário, uma espécie de estaleiro, onde materiais heteróclitos surgem de todo o lado.

 

Outra associação, esta ensaiada no meu post sobre Comissão das Lágrimas, é a do cubismo, na pintura. Ora a apreensão de uma pintura por quem a observa faz-se de forma global e quase instantânea. Quando olhamos para o “Guernica” de Picasso, somos imediatamente “assaltados” pelo horror de todas aquelas figuras humanas e animais, sem necessidade de voltar a página – creio que a isto se chama efeito plástico. Se a leitura se desenrola no tempo, a pintura, em contrapartida, apresenta-se no espaço. Que, depois, um conhecedor de pintura se debruce demoradamente sobre o quadro, esquadrinhando cada pormenor de composição, tal não invalida que o comum dos consumidores de pintura apreende o quadro de imediato. A escrita, pelo contrário, implica um demorado trabalho de apreensão/construção que se vai processando ao longo das páginas e das horas de leitura.

 

Outra associação ainda, esta mais próxima, é a da poesia. Da poesia, em geral, no que ela tem de linguagem particularmente burilada e em que o signo ascende à condição de objecto de manufactura; da poesia moderna, em particular, na démarche de desconstrução das linearidades. Aqui, sim, parece-me haver convergência: a escrita de ALA é uma escrita poética e os seus últimos romances são, por assim dizer, poemas. Porém, esta sua natureza dúplice submete-os a tensões insustentáveis: são, por um lado, as exigências incontornáveis do género narrativo (que pressupõe sempre uma referencialidade exterior) e das suas categorias (o leitor quer saber quem faz o quê, em que tempo e em que sítio), por outro, as liberdades próprias de um género que se basta a si próprio, que cria uma referencialidade intrínseca, no sentido em que os signos da poesia podem valer por si mesmos, pelas suas virtualidades sugestivas, instituindo-se como objectos-signos.

 

Em suma, parece estarmos a assistir, com António Lobo Antunes, a uma demorada metamorfose: de romancista-crisálida  a poeta-borboleta.

 

Imagem: http://farm3.staticflickr.com/2316/2243577896_9e13312b85_t.jpg



publicado por tambemdeesquerda às 12:16
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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