Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

            Tornou-se moda, entre os comentadores políticos do círculo do poder, com Marcelo Rebelo de Sousa à cabeça, assacar a responsabilidade pelo descontentamento popular às falhas de comunicação dos governantes e, em particular, do primeiro-ministro. Ultimamente, não era propriamente a transferência directa de rendimentos do trabalho para o capital que chocava o professor, mas antes o discurso de Passos Coelho, que seria “descuidado, no mínimo, desastroso, no máximo”. As centenas de milhares de portugueses que se manifestaram no dia 15 foram, assim, induzidas em erro por uma lamentável dificuldade do primeiro-ministro em fazer-se entender, sem o que teríamos todos ficado calmamente no remanso dos nossos lares, poupando à abnegada e ministerial gente o desconforto dos impropérios em que a populaça incorre à falta de léxico mais burilado.

            Esta curiosa interpretação das causas dos protestos produziria, se levada às últimas consequências, uma revisão profunda da própria História. Muito provavelmente a Revolução Francesa não teria como causas, entre outras, as miseráveis condições de vida dos camponeses, que constituíam a esmagadora maioria da população de então, nem o descontentamento de uma burguesia crescentemente mais rica, empreendedora e ilustrada, mas afastada dos centros de decisão, nem a ostentação da nobreza, nem as deficiências de um aparelho produtivo caduco, nem a disseminação das ideias dos Enciclopedistas. Não, tudo isso não passaria de bagatelas, comparado com as falhas de comunicação de Luís XVI e do seu ministro Necker.

            Provavelmente também, o nosso 25 de Abril ter-se-ia ficado a dever, não ao estado de subdesenvolvimento económico e social do país, não à total falta de liberdade, não à guerra colonial, mas sim a falhas de comunicação de Marcelo Caetano, quiçá nas suas famigeradas “Conversas em Família”.

            Muito embora aconteça com alguma frequência os nossos governantes brindarem-nos com atentados gramaticais dolorosos (há dias, o senhor das Finanças construía o seguinte condicional: “eu reservaria-me para…”), pessoalmente sou mais da opinião de que os cavalheiros falam, escrevem, enfim, comunicam razoavelmente e dizem exactamente o que querem dizer, mesmo quando parece que não. E o que eles dizem, como o que eles são, é matéria que não comporta dúvidas para quem alguma vez passou os olhos pelos escritos de Marx. Este conselho de administração dos negócios da burguesia só existe para defender os interesses da classe dominante, esmifrar os trabalhadores e locupletar-se com todos os 7% que formos consentindo em dar-lhes.

E é, verdadeiramente, esta falha de comunicação entre a linguagem do capitalismo e o entendimento marxista da sociedade e da História que me vai levar sábado, mais uma vez, a Lisboa.



publicado por tambemdeesquerda às 19:07
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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