Sábado, 21 de Setembro de 2013

É um livro que se lê como quem degusta um bom vinho – sem pressas, relendo um parágrafo aqui, outro além, o tempo necessário para que o seu alcance seja devidamente entendido, deixando os taninos do texto impregnarem as papilas gustativas da memória. E é também um livro que inquieta. Julgo mesmo que não haverá muitas obras na literatura universal em que, de forma tão eloquente, se exiba aos nossos olhos – cientes de muito, mas ainda assim sempre secretamente esperançados em que afinal não era verdade – os extremos de inteligência e de estultícia, de generosidade e de crueldade, de grandeza e de baixeza a que pode chegar o ser humano.

 

Impossível, ao ler este livro, ficar-se indiferente ao sofrimento de milhões de nossos semelhantes, ao longo dos séculos. Impensável não se condenar, sem apelo nem agravo, uma religião que sempre se prevaleceu de um discurso (oficial) misericordioso para levar à prática as maiores infâmias contra o homem. Imperioso rejeitar – por mais que nos aflija o apodo de ingenuidade e candura – a perpetuação da plutocracia como modelo de organização social.

 

Espejos é um requisitório impiedoso contra todos os poderes que escravizam o homem, sejam eles o poder da religião ou o do Império, de Roma ou de Washington.



publicado por tambemdeesquerda às 23:01
Depois desta dissertação, fica-nos a alma inquieta para encontrar o livro e o autor.
É o que vou fazer.
Arte pura é também esta habilidade de «dissecar» não só a amplitude da escrita, mas a definição certeira do «combustível» que move cada autor.
Parabéns mais uma vez pelo texto. Este blog e os seus comentários têm material para um grande compêndio, mas... a gente sabe, a cultura em Portugal está como a dívida externa!
Um abraço para si desta leitora frequentíssima dos seus escritos.
Estou à espera de mais «Pó» e mais «Bruma».jlima
adélia espírito santo a 23 de Setembro de 2013 às 11:29

Obrigado pelo seu comentário.
O Espejos, que estou a ler em castelhano, é da SIGLO XXI DE ESPAÑA EDITORES e não sei se tem tradução em português. Ainda só vou a meio porque é um daqueles livros que apetece ter sempre connosco para se ir lendo e saboreando. Também não há o risco de se perder o fio à meada, porque não há enredo, nem obscuridades - é simples, cristalino e directo, mas é de uma ligeireza que não obsta à profundidade. E pode-se ler do fim para o princípio ou do meio para o fim, sem perda de legibilidade.
Tenho andado com medo de me embrenhar nos seus poemas. A linguagem da poesia é tão solta e delicada que sempre receio amachucá-la com o meu cartesianismo figadal. Mas espero decidir-me proximamente.
Um abraço.
tambemdeesquerda a 23 de Setembro de 2013 às 23:52

Ó Fernando, é de «cartesianismo fidagal» que a arte precisa. Não só a poesia, como toda a folha que mexe para lá dos sentidos. E a poesia defino-a como «um raio», no sentido lato da palavra. Pode enfeitar o céu, como pode cair onde ninguém a veja ou sinta. Feliz daqueles que, como o nosso poeta morto ontem, conseguem fazê-lo confundir-se com as tempestades e deixar rasto. Um abraço
jl

Julieta,
Se poesia é lirismo e lirismo é emoção, o cartesianismo (aqui, entendido apenas como apego à racionalidade, que não na sua vertente idealista) é adverso à efusão lírica. É nesse sentido que me parece ser imprescindível um certo grau de desprendimento dos processos mentais mais ligados à lógica e um “laissez aller” que não se compadece com a busca incessante de nexos racionais. Aliás, o seu comentário e a sua bela definição de poesia são bem a prova de que, na poesia, a emoção leva a palma à razão.
O seu próximo livro progride?
Abraço.
tambemdeesquerda a 25 de Setembro de 2013 às 23:39

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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