Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

 

2.ª PARTE

LEVANTAMENTO

 

  1. INTRODUÇÃO

 

Debrucemo-nos uma vez mais sobre o tipo do escudeiro. Cito MarceI Bataillon: "Historiquement, l'escudero est une variété d'hidalgo qui attire l'attention dans la société espagnole du XVIè siècle au point d'y faire fleurir un folklore.  Il illustre cette idée d'Alonso Lopez Pinciano que la hidalguia est autre chose que la noblesse. Celle-ci peut se perdre par une pauvreté telle qu’elle empêche le noble de tenir son rang; mais la hidalguia consiste "seulement en quelques libertés et exemptions' (le contraíre d'hidalgo est pechero, contribuable), c’est une qualité héréditaire impossible à perdre. L'escudero du XVIème siècle, héritier pacifique de l'écuyer du moyen âge qui accompagnait le chevalier à la guerre pour porter son écu, c'est un hidalgo pauvre qui entre au service personnel d'un noble pour ne pas mourir de faim. On comprend que ce type social soit à la fois digne de sympathie et ridicule"(p.27).

 

Nao me deterei sobre a parte inicial da definição de MarceI Bataillon, porque tal caberá ao item consagrado ao tema da honra. Quanto à parte final, sobre o serviço prestado a um nobre para não morrer de tome, o escudeiro de Toledo­ (Tratado III do Lazarillo), ele próprio nos informa que “Canónigos y señores de la iglesia, muchos hallo; mas es gente tan limitada, que no los sacaran de su paso todo el mundo. Caballeros de media talla también me ruegan; mas servir con estos es gran trabajo, porque de hombre os habéis de convertir en malilla, y si no: ‘anda con Dios', os dicen, y las mas veces son los pagamentos a largos plazos; y las más y las más ciertas, comido por servido." (pp.148/150) Donde se conclui que se recusa a entrar ao serviço de qualquer nobre. O mesmo parece acon­tecer com os escudeiros a quem servem Apariço e Ordoño, na farsa vicentina; é, pelo menos, o que deixa supor o diálogo entre ambos:

 

Apariço:     Pardeus, ruins amos temos! / Tem o teu mula ou cavalo?

Ordono :     Mula seca como un palo; / alquila-la, y dahi comemos.

 

Quanto à questão da simpatia e do ridículo, propomo-nos tirar as con­clusões que se impuserem depois duma análise segundo três linhas fundamentais:

 

  • a fome,
  • as apreciações valorativas do moço sobre o amo e 
  • a honra.
  •  

Se sigo estes três temas é porque me parece que, efectivamente, as relações entre o moço e o escudeiro se entretecem a partir da preocupação de comer e da dificuldade em obter alimentos, da imagem que o  moço tem do amo e, finalmente, dos conceitos de honra antagónicos.

 

  1. OS TEMAS 
    • A fome ou preocupação de comer

 

“Quien es tu amo? di, hermano?”, pergunta o moço Ordoño ao seu colega Apariço, que lhe responde: “É o demo que me tome: / morremos ambos de fome / e de lazeira todo o ano” (p. 58).

 

Desde o início da farsa está, pois, presente o tema da fome (7). Fome que cabe em sorte tanto ao criado como ao amo (“morremos ambos de fome”) e que aparece como constante na vida de cada um (“todo o ano”). Não se trata de um incidente que afecte a parelha ocasionalmente; a fome é algo que acompanha a ambos na sua digressão espácio-temporal: “Pentear e jejuar, / todo dia sem comer” (p. 58), ou então “E desdontem não comemos!” (p. 69), ou ainda “Já fora rezão comer, pois os galos cantam já” (p. 77). Mas repare-se que esta preocupação só é exteriorizada pelo moço. O escudeiro parece não a sentir, motivado por preocupações doutro tipo: “Cantan los gallos, / yo no me duermo, ni tengo sueño” (p. 78) – canta Aires Rosado à sua apaixonada, ao mesmo tempo que parece dar resposta a Apariço.

 

Mais adiante, quando a mãe de Isabel maldiz o escudeiro e a serenata que veio perturbar o seu sono, Apariço sugere-lhe: “Dizei-lhe que vá comer / que não comeu hoje bocado” (p. 83).

 

A preocupação de comer ligada à angústia do tempo que passa é porventura ainda mais sensível na narrativa espanhola: “Era de mañana, cuando este mi tercero amo topé. Y llevóme trás sí gran parte de la ciudad. Pasábamos por las plazas do se vendían pan y otras provisiones. Yo pensaba y aún deseaba, que allí me quería cargar de lo que se vendía, porque ésta era propia hora cuando se suele proveer de lo necesario […] Yo iba el más alegre del mundo, en ver que no nos habíamos ocupado en buscar de comer. Bien consideré que debía ser hombre, mi nuevo amo, que se proveía en junto, y que ya la comida estaría a punto, y tal como yo la deseaba y aún la había menester” (pp. 124-126).

 

A alegria de Lázaro justifica-se pelo convencimento de que, pelo aspecto do escudeiro, deveria ser homem que tinha mesa farta. Mas, logo a seguir, Lázaro ressente-se da longa relação da sua vida que presta ao amo, dizendo: “Y yo le dí más larga cuenta que quisiera, porque me parecia más conveniente hora de mandar poner la mesa y escudillar la olla , que de lo que me pedia” (p. 126). E a sua preocupação aumenta quando vê “ser ya cuasi las dos y no le ver más aliento de comer que a un muerto” (p. 126).

 

O passar do tempo traduz-se, pois, por um crescendo da angústia, já que, por um lado, cresce a fome, e, por outro, aumentam as dúvidas quanto às possibili­dades de a satisfazer, tanto mais que o escudeiro afecta um orgulhoso desinte­resse pela alimentação: “el hartar es de los puercos, y el comer regladamente es de los hombres de bien(p.128). Desinteresse afectado de que Lázaro se dá plenamente conta ao comentar, num aparte cheio de graça e ao mesmo tempo reve­lador duma experiência da vida e dum desengano ainda não impregnados do azedu­me que, em narrativas posteriores, fará do criado um cínico: "Bien te hé entendido!... Maldita tanta medicina y bondad como aquestos mis amos que yo hallo ha­llan en el hambre!"(p.12S). E, como que para provar aquilo de que Lázaro já não duvidava, o escudeiro aproveita, sem grandes delongas, a oferta do seu moço para partilhar dos escassos bocados de pão, fruto da mendicidade, num quadro em que assistimos à reviravolta dos papéis de cada um (o moço assegura o susten­to do amo), e que constitui, ao mesmo tempo , uma cena enternecedora pela solida­riedade humana patente.

 

Não se pense, todavia, que a partilha do pão do moço põe termo, desde logo, à convenção que relega amo e moço para posições contrárias: o verniz da honra pode estalar acidentalmente, mas o escudeiro logo preenche as brechas a­bertas: "yo, por estar solo, no estoy proveído; antes he comido estos dias por allá fuera"(p.130). As aparências são assim salvaguardadas – só as aparências. E Lázaro medita, como sábio que é (de um saber de experiência feito): “A quién no engañara aquella buena disposición y razonable capa y sayo, y quién pensara que aquel gentil hombre se pasó ayer todo el dia sin comer […]?” (p.132).

 

Se o escudeiro encobre a sua fome, Lázaro confessa-a: "Desque vi ser las dos y no venia, y la hambre me aquejaba, cierro mi puerta y pongo la llave do mandó y tórnome a mi menester [a mendicidade]" (p.136). Quer dizer: como sábio e positivista que é, sem pruridos de honra, em vez de esperar que o amo lhe traga um sustento que sabe ser mais do que improvável, resolve-se a granjeá-lo pelos meios que lhe ensinara o seu “gran maestro”, o cego. Ao chegar a casa, o amo não se mostra zangado pela tardança de Lázaro; pelo contrário, felicita-o por ter conseguido sustento e serve-se da mesma demora para, mais uma vez, salvar as aparências: “Pues esperado te he a comer, y, de que vi que no veniste, comí” (p. 136). Claro que, logo a seguir, a actuação do escudeiro compromete a aparência de satisfação alimentar: “Sentéme al cabo del poyo, y, por que no me tuviese por glotón, callé la merienda y comienzo a cenar y morder en mis tripas y pan, y disimuladamente miraba al desventurado señor mío, que no partía sus ojos de mis haldas, que a aquella sazón servían de plato. Tanta lástima haya Dios de mí, como yo había dél, porque sentí lo que sentía, y muchas veces había por ello pasado y pasaba cada día […]. Póngole en las uñas la otra [unha de vaca], y tres o cuatro raciones de pan, de lo más blanco. Asentóseme al lado, y comienza a comer como aquel que lo había gana, royendo cada huesecillo de aquellos, mejor que un galgo suyo lo hiciera” (p. 138). Assistimos, pois, a uma segunda edição da cena de inversão de papéis, sendo agora muito claro o sentimento de comiseração de Lázaro, que vê retratada no escudeiro a sua própria miséria e que com ele se identifica. Aliás, logo a seguir, noutro momento de reflexão (dos muitos que entremeiam a narrativa), Lázaro considera a sua experiência passada confrontando-a com o presente e, se bem que a sua situação material tivesse piorado, reconhece uma melhoria nas suas relações com o amo: “Contemplaba yo muchas veces mi desastre, que, escapando de los amos ruines que había tenido, y buscando mejoría, viniese a topar con quien, no sólo no me mantuviese, mas a quien yo había de mantener. Con todo, le quería bien, con ver que no tenía ni podía más, y antes le había lástima que enemistad, y muchas veces por llevar a la posada con que él lo pasase, yo lo pasaba mal”. Com efeito, Lázaro quer bem ao seu amo, aceita mesmo, algo como um dever de amizade, alimentá-lo, e isto porque “éste […] es pobre, y nadie da lo que no tiene; mas el avariento ciego, y el malaventurado mezquino clérigo, que, com dárselo Dios a ambos, al uno de mano besada, y al otro de lengua suelta, me mataban de hambre, aquéllos es justo desamar, y aquéste de haber mancilla” (p. 140).

 

O escudeiro de Toledo era o terceiro amo que Lázaro servia e com os dois primeiros apenas recebera lições de maldade, de hipocrisia e de avareza, mas mostra-se sensível à natureza do novo amo, do que se conclui não se ter a sua sensibilidade embotado no contacto com a dura realidade vivida anteriormente (8). Ora esta capacidade de lástima, de comiseração sincera, é uma faculdade que virá a desaparecer nas narrativas posteriores, nas quais, como já disse, a personagem do criado assume plenamente o estatuto do pícaro que definirei como ser engendrado na ignomínia, vivendo na miséria e na ignorância e deixando-se conduzir como simples joguete pela satisfação de necessidades primárias, tais como a alimentação, no completo alheamento das convenções morais e sociais.

 

"El hidalgo del Lazarillo, diz Samuel Gili Y Gaya (9), se mueve por motivos ideales que su criado sabe comprender y disculpar. Hay en la contraposición de ca­racteres de la novela - como alguien ha dicho - algo del maravilloso dualismo Don Quijote-Sancho. Mateo Alemán no atribuye nunca altas cualidades morales a los amos de Guzmán: choque de ruindad contra ruindad, en la que triunfa el inge­nio mas despierto". Que melhor prova desta capacidade preservada em Lázaro do que a sua frase: “Y no tenía tanta lástima de mí, como del lastimado de mi amo, que, en ocho dias, maldito el bocado que comió […]" (p.142)?

 

Deste levantamento operado na farsa vicentina e na novela anónima, extrairei três conclusões:

 

1°, o moço aparece-nos subjugado pela preocupação alimentar, para a qual não vê remédio, e toma consciência do fluir do tempo em termos de fome, isto é, refere-se sistematicamente às horas e às partes do dia associando­-as ao facto de ainda não ter comido;

 

2°, enquanto na farsa a fome serve de mo­tivo ao moço para escalpelizar o amo sem compaixão, mantendo-se ambos no mais completo alheamento afectivo, na novela, pelo contrário, a fome de ambos acaba por constituir um elo que os une numa relação de compreensão, de simpatia e até de amizade;

 

3.º, no que diz respeito, especificamente, à narrativa, vemos que há recurso à caridade pública, à mendicidade, como meio para angariar sustento.

 

2.2. Apreciações valorativas do moço sobre o escudeiro

 

Quando, depois de ter sido despedido pelo clérigo da Maqueda, Lázaro é instigado a procurar um bom amo a quem servir, manifesta o seu desengano e pessimismo pensando entre si que seria necessário que Deus o criasse do nada como criara o mundo. Está, pois, de pé atrás, numa atitude de descrença na possibilidade  de haver bons amos. No entanto, apesar da experiência passada tão cheia de ensinamentos, logo a seguir deixa-se iludir pela aparência nobre do escudeiro: “parecía [-me], según su hábito y continente, ser el que yo había menester (p.12). Com efeito, Lázaro não tivera ainda a oportunidade de servir um fidalgo; a sua aprendizagem demoço de muitos amos ia apenas no princípio; o seu pessimismo não tinha ainda corroído as fibras profundas da sua personalidade.

 

Atitude diferente manifestam os moços Ordoño e Apariço desde as pri­meiras falas da farsa, anunciando o tom geral das apreciações:

 

─ “Como te va compañero?” pergunta o primeiro ao segundo,

─ “S'eu moro c'um escudeiro,

como me pode a mi ir bem?” ─ responde Apariço (p.58).

 

Confirma-se, assim, que as condições de vida desta classe eram conhecidas e tradicionalmente más. Apariço e Ordoño sabiam-no já por experiência própria. Experiência que Lázaro não tarda a iniciar, pois bem depressa se dá conta de que a comida feita e a mesa farta não passam de miragem. O que todavia distingue Lázaro dos dois primeiros é que este, ao descobrir a miséria real do amo, se compadece e simpatiza com ele, refere-se-lhe em termos carinhosos ("el pobre de mi amo", p.128) e até a sua graça é, quase diria, cândida  (“como le sentí de qué pie coxqueaba, dime priesa […] (p.128), diz Lázaro, vendo o amo prepa­rar-se para comer uma porção demasiado grande do seu pão, ao mesmo tempo que finge não o desejar). Apariço, pelo contrário, refere-se ao amo em ternos irreverentes: "[Meu amo] é o demo que me tome […].[Serve] de sandeu” (p.58), “e presume d'embicado” (p.59); “eu chamo-lhe asno pelado” (p.65). Ordoño, por seu turno, encarece estas apreciações, dizendo:

 

"Pues el mio es repeor;

sueñase muy gran señor,

y no tiene media blanca.

 

Júrote á Dios que es un cesto,

un badajo contrahecho,

galán mucho mal dispuesto,

sin descanso y sin provecho. (p.62)

 

A atitude de compreensão de Lázaro para com o escudeiro confirma-se e manifesta-se muito claramente quando Lázaro diz: "Maldíjeme mil veces […] y a mi ruin fortuna, allí [na dura cama improvisada], lo más de la noche y, lo peor, no osándome revolver por no despertarle pedí a Dios muchas veces la muerte" (p.132). É contra si próprio e contra o seu destino ("ruin fortuna") que Láza­ro se eleva, desesperado, e nunca contra o escudeiro, cujo sono, inclusivamente, respeita.

 

Do mesmo modo, quando Lázaro aprecia o aspecto exterior do escudeiro ao subir a rua, a sua graça irrompe mais uma vez com comedimento: "Y súbese por la calle arriba con tal gentil semblante y continente, que, quien no le conocie­ra, pensara ser muy cercano pariente al conde de Arcos, o, a lo menos, camarero que le daba el vestir (p.132) (10). O que nos deixa a grande distância dos sarcasmos de Apariço ou Ordoño:

 

"Pentear e jejuar,

todo dia sem comer,

cantar e sempre tanger,

suspirar e bocejar:

sempre anda falando só,

faz umas trovas tão frias,

tão sem graça, tão vazias,

que é cousa pera haver dó." (p.58)

[…]

"E se o visses brasonar,

e fingir mais d’esforçado;

e todo o dia aturado

se lhe vai em se gabar." (p.59)

[…]

"Quando se viste,

toma dos horas despacio!" (p.64)

 

Os cuidados estéticos, o culto do canto, a jactância e finalmente as preocupações amorosas do escudeiro, outros tantos alvos contra os quais o moço dispara as suas flechas embe­bidas de filosofia positivista:

 

“Todas querem que lhe dem,

 e não curam de cantar:

sabe que quem tem que dar

lhe vai bem.

Querem mais um bom presente

que tanger,

nem trovar nem escrever discretamente.” (p.61)

 

E também com os pés bem assentes em terra que Lázaro comenta o encontro de seu amo com as “rebozadas mujeres”: "él estaba entre ellas hecho un Ma­cías, diciéndoles más dulzuras que Ovidio escribió. Pero, como sintieron dél que estaba bien enternecido, no se las hizo de vergüenza pedirle de almorzar, con el acostumbrado pago” (p.134). Note-se, todavia, que as graciosas comparações com Macias e Ovídio não servem de trampolim para um insulto, como acontece na farsa:

 

"Mas vem comigo e verás

meu amo como é pelado,

tão doce, tão namorado,

tão doudo, que pasmarás." (p.65)

 

Entre moço e escudeiro, dois modos de encarar a vida contraditórios: o escudeiro vive exclusivamente para as manifestações superiores do espírito e da vida, num permanente enlevo que a dura realidade não consegue afectar: “Can­tan los gallos, / yo no me duermo, / ni tengo sueño”, p.78); o moço – fruto doutro meio e doutra educação – vive para a satisfação das suas necessidades básicas, mostrando total descrença em tudo o que não seja palpável (cf. vv. p.61 já citados). E, no entanto, estas duas visões antagónicas que, no caso da farsa, levam naturalmente ao divórcio afectivo e a um tipo acintoso de relações, acabam por encontrar na novela um modus vivendi que leva, não menos naturalmente, a algo que poderíamos definir como uma simbiose afectiva. Vejamos:

 

As relações acintosas manifestam-se na farsa sob a forma de réplicas sistematicamente contrariantes. É o amo a dizer:

 

“Agora qu’estou desposto

irei tanger à minha dama” (p.70)

e o moço a retorquir:

"Já ela estará na cama" (p. 70);

É o escudeiro a cantar:

"Que venida es la hora,

si queréis partir" (p.71)

e o moço a quebrar imediatamente o quadro lírico com a praga:

 “Má partida venha por ti” (p. 71) ;

é o escudeiro a gabar-se das suas relações pessoais com o rei:

“Já privança com el-Rei

a quem outrem vê nem fala" (p.76)

e o moço a chamar a atenção para a realidade:

"Deitam-no fora da sala" (p.76) (11).

 

Enquanto isto, ao meditar sobre o seu destino, e tendo embora a consciência de piorar de amo para amo, Lázaro furta-se a escalpelizar o escudeiro a quem serve, lamentando antes a sorte deste, numa atitude de crítica profundamente construtiva, bem patente quando diz: "sólo tenía dél un poco de descontento" (p.140), não se esquecendo sequer de desculpar a fantasia e presunção do escudeiro porque “segun parece es regla ya entre ellos usada y guardada” (p. 140). E mostra conservar uma recordação saudosa e até enternecida do amo, quando, pela vida fora, ao encontrar “alguno de su hábito con aquel paso y pompa”, o lastima pela triste vida que deve levar, reafirmando o gosto com que o servira, contrariamente ao que sucedera com os dois amos precedentes.

 

Note-se, finalmente, que a atitude de Lázaro para com o escudeiro, além de tudo o que ficou dito, é também a contrapartida do ânimo dadivoso de que es­te nos dá uma prova cabal quando ufanosamente entrega a Lázaro um real que tinha entrado em seu poder por misteriosa "dicha o ventura" (p.142). Pobre como era, o escudeiro não se mostra nada cioso da conservação ou do emprego criterioso do dinheiro, como o faziam o cego e o clérigo dos dois primeiros Tratados: é dia de festa e, se ambos partilhavam da miséria, ambos partilham da alegria de comer. Ora, o mesmo não acontece na farsa: aí, Aires Rosado, o escudeiro, censura o moço pela demora (“Como tardaste, Apariço!”, p. 69) e lança-lhe à cara: “Apariço, bem sei eu / que te faz mal tanto viço” (p. 69), numa atitude que, por si só, revela o profundo cinismo que impregnava as relações mútuas.

 

Cotejando a leitura que fizemos da farsa com a do “Lazarillo”, difícil não é darmo-nos conta do desembaraço critico, da irreverência, do insulto e do sarcasmo como elementos reveladores do materialismo grosseiro e da descren­ça existencial do moço da farsa, que se empenha em depreciar o escudeiro, com o qual não chega a nenhum tipo de comunicação.

 


Pelo contrário, as opiniões e a expressão dos sentimentos de Lázaro para com o escudeiro aparecem, vimo-lo, como que para justificar o comportamen­to deste com razões de ordem supra-individual (ver item 2.3.-A honra). Tudo se passa como se o escudeiro fosse obrigado a não trabalhar, a vestir-se, pentear-se e perfumar-se com cuidado e vagar, subir pela rua com ar de parente do conde de Arcos, bem comido e bem dormido. Algumas palavras sintetizam esta ati­tude: compaixão (se não carinho), compreensão e simpatia (se não amizade), graça e comedimento nas críticas, tudo isto contribuindo para a desculpa do amo, com o qual Lázaro mantém comunicação no plano afectivo, mas não no ideológico.

 

2.3. A honra

 

O tema da honra, se bem que presente nas duas obras, e, de resto, subjacente à generalidade das obras em que intervém a figura do escudeiro, está mais desenvolvida e explicitamente tratado na narrativa.

 

Quando Aires Rosado encarece a sua própria pessoa na tentativa de an­gariar os favores de Isabel e a simpatia dos pais desta, alude à sua qualidade de “escudeiro privado” (p.75) e de “fidalgo afidalgado” (p.76). Logo a seguir, porém, alardeia de riquezas:

 

“não quero que me dêm nada!

[…]

tenho mais tapeçaria,

cavalos na estrebaria

que não há na corte tais” (p.76/7)

 

Se o escudeiro, ao mesmo tempo que afirma a sua condição de fidalgo, chama a atenção para as suas posses imaginárias, está a admitir implicitamente que a condição de fidalgo não é incompatível com a ausência de bens, com a pobreza. Tenta, no entanto, encobrir a miséria real em que vive por detrás da ostentação nas palavras, nos actos, na maneira de se vestir. Numa palavra, o escudeiro é pura aparência que o moço se encarrega de destruir, pondo a nu a realidade.

 

Ora acontece que a fidalguia é, historicamente, algo de diferente da nobreza. Enquanto esta supõe um certo poder económico, a fidalguia consiste “somente em algumas liberdades e isenções” (12) que se herdam e não se perdem jamais. O escudeiro da farsa é, pois, um fidalgo – ou, pelo menos, pode sê-lo –, mas é um fidalgo pobre e, por isso, não cabe no círculo da nobreza. Ao tentar aparentar riquezas e privilégios mais não faz do que dar de si uma imagem que se coadune com o código da honra a que já me referi (13) e que, como também já disse, resulta da degradação progressiva do primitivo conceito de honra – qualidade dos homens de bem, na acepção moral – pela necessidade sentida do reconhecimento público (14). De qualidade própria do homem íntegro, moralmente, e valoroso, a honra torna-se exterior, e o escudeiro sabe que o argumento da riqueza é mais convincente do que o da fidalguia. Por isso, confia nele para atingir os seus objectivos amorosos.

 

Quanto ao moço Apariço, insensível à paranoia fidalga do amo, persiste em denunciá-la :

 

“Ó Jesu! que mau ladrão!

Quer enganar a coitada!” (p.77)

 

e enganar porque se ela se deixar seduzir será na mira de vantagens económicas:

"Todas querem que lhe dem,

e não curam de cantar

[…] (p. 61) (15)

 

 

É deste mesmo positivismo que dá mostras Lázaro, quando desabafa:

 

“Ó Señor, y cuantos de aquestos debéis vos tener por el mundo derramados, que padecen, por la negra que llaman honra, lo que por vos no sufririan!” (p. l34). Mas, como vemos, a mania da honra é para Lázaro um motivo suplementar para lamentar a sorte do seu amo que 'padece'. 'Mau ladrão' enganador, na visão da farsa; vítima, na visão da novela.

 

Do mesmo modo, se Apariço, a propósito da extrema pobreza do amo, invectiva contra a sua presunção  e culto das aparências (“E presume d’embicado  [=esperto] / que com isto raivo eu. - Três anos há que sou seu, - e nunca lhe vi cruzado”, p. 59), Lázaro, ao certificar-se de que a bolsa de seu amo estava "sin maldita la blanca, ni señal que la hubiese tenido mucho tiempo", compadece-se e medita judiciosamente: “éste […] es pobre y nadie da lo que no tiene” (p.140). Logo a seguir, é verdade, critica a presunção do amo, mas fá-lo construtivamente, a modo de conselho, e, como já o disse, desculpando-o: “sólo tenia dél un poco de descontento, que quisiera yo que no tuviera tanta presunción, mas que abajara un poco su fantasía con lo mucho que subía su necesidad. Mas, según me parece, es regla ya entre ellos usada y guardada” (p.140).

 

E, efectivamente, era, entre eles, regra usada e observada: o escudeiro, sendo hombre de bien, não devia descuidar-se “un punto de tener en mucho su persona (p. 148). É o que Lázaro ouve do amo, quando se admira de este ter deixado a sua terra natal (Castela a Velha) apenas para não ter de se descobrir diante dum cavaleiro seu vizinho. Nada mais natural, para Lázaro, do que descobrir-se diante de alguém que tinha muito de seu – Lázaro é sensível ao prestígio económico: “Paréceme, señor, […] que en eso no mirara; mayormente com mis mayores que yo y que tienen más” (p. 146). Outra opinião é a do escudeiro, que lhe responde: “Eres mochacho […] y no sientes las cosas de la honra, en que el día de hoy está todo el caudal de los hombres de bien" (p.146). Ora, uma das normas, uma das “cosas de la honra” em que estavam empenhados os “hombres de bien” era justamente a recusa de se inclinar diante de um superior, desde que não fosse o rei, atitude que tem a sua expressão proverbial em “del rey abajo ninguno”, e é em função desta norma que o escudeiro se recusa a servir qualquer dos amos eventuais que passa em revista, para os denegrir: "Canónigos y señores de la iglesia, muchos hallo […]. Caballeros de media talla también me ruegan; mas servir con éstos es gran trabajo […]” (p. 148/150/150, cf. p. 9 deste trabalho).


Porquê este prurido? Porquê estas manias? Era isto que Lázaro não podia compreender e que o levava a desejar que seu amo “abajara un poco su fantasía con lo mucho que subía su necesidad" (p. 140). Com efeito, o seu ânimo to­do voltado para o lado concreto da existência não podia ver senão fantasia nas atitudes do escudeiro, e fantasia tanto mais absurda quanto o impedia de zelar pe­la própria subsistência, em termos físicos. A oposição de mentalidades poderia sintetizar-se assim: o escudeiro preferiria morrer de fome a abdicar dos seus privilégios, da sua honra; o moço desconhece a honra e não busca senão a satisfação da fome  e a  ascensão até à “buena vida" (p.166).

 

Vai neste sentido também o aparte cheio de graciosa e profunda ironia de Lázaro quando o amo lhe conta que esteve para ultrajar um artesão seu conterrâneo por este não o saudar dizendo-lhe "beso las manos de vuestra mer­ced", ou, pelo menos, "bésoos, señor, las manos”, contentando-se com a fórmula “mantenga Dios a vuestra merced" (p.148) considerada menos deferente. "Pecador de mí, diz Lázaro para consigo, por eso tiene tan poco cuidado de mantenerte, pues no sufres que nadie se lo ruegue" (p.148). Sente-se bem a enorme distân­cia mental que separa o amo do moço: dum lado, a mania da honra levada ao extremo de considerar ofensiva e humilhante uma saudação em que se for­mula um voto invocando Deus; do outro lado, a perfeita incapacidade de perceber o mecanismo que pode levar um homem a desprezar um voto que invoca a própria instância divina, com a agravante de o homem em questão não gozar sequer de um mínimo de desafogo económico. A este respeito, é bem significativa a referência do escudeiro aos seus bens fundiários: um lugar onde se poderiam construir casas grandes e boas e um pombal arruinado que, se não o estivesse, seria muito rendoso […] (p.148)

 

O preconceito da honra age assim como factor de inércia socioeconómica: o escudeiro é um ser parasitário, improdutivo, cultor  das aparências e mantenedor das estruturas herdadas. A completar este inventário sombrio e para acabar de deitar por terra o que de positivo poderia, ainda e apesar de tudo, descortinar-se no código de honra, o próprio escudeiro confessa, depois duma extensa e eloquente apreciação das qualidades comuns dos escudeiros na época, que “los señores no quieren ver en sus casas hombres virtuosos, antes los aborrecen y tienen en poco, y llaman necios, y que no son personas de negocios, ni com quien el señor se puede descuidar. Y con éstos, los astutos usan, como digo el día de hoy, de lo que yo­ usaría; mas no quiere mi ventura que le halle" (p. 150). Donde se conclui que a sua aspiração se satisfaria entrando ele no ciclo da adulação / recompensa.

Do levantamento feito e da análise operada resulta, naturalmente a convicção de que o escudeiro e o moço, quer na farsa quer na narrativa, agem em função de escalas de valores antagónicas: para o primeiro, trata-se de salva­guardar um prestígio herdado com o nascimento e com o nome, contra ventos e marés, ou seja, não obstante ter sido despojado daquilo que concretamente o fazia merecedor desse prestígio; para o segundo, que apenas herdou um corpo para sustentar e que não se sente ligado por quaisquer laços ideológicos ou sentimen­tais ao que quer que seja, trata-se de sobreviver e, progressivamente, ascender a uma vida desafogada. Nas relações entre ambos, o tema da honra vem, mais uma vez, demonstrar o carácter amigavelmente irónico, compreensivo e construtivo da crítica de Lázaro, a par dos sarcasmos grosseiros dos moços da farsa.



publicado por tambemdeesquerda às 12:04
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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