Sábado, 29 de Agosto de 2015

 

O Meu Amante de Domingo,

O Meu Amante de Domingo, A. L. Coelho.jpg

 

de Alexandra Lucas Coelho

 

- "Virar do avesso o que está cá dentro"

 

 

            Tive já a oportunidade de sublinhar a fluência e ductilidade de que Alexandra Lucas Coelho dá bastas provas em E a Noite Roda (Tinta-da-China, 2014). Em O Meu Amante de Domingo (Tinta-da-China, 2014), essas qualidades saltam aos olhos do leitor mais desprevenido. O discurso da narradora jorra como lava de vulcão, em torrente contínua e escaldante. Mas acompanha-o uma onda piroclástica de impropérios passíveis de bolinha vermelha em quase todas as páginas. De tal maneira que, a certa altura, apetece parafrasear o diácono Remédios de Herman José: não havia necessidade, Alexandra, não havia necessidade. A narradora – do Canidelo, Vila Nova de Gaia – não entende este prurido: "O lisboeta tem uma gravata na língua, acha que o palavrão é para quando se descuida. Não entende que é ele quem faz do palavrão um descuido. Todo o palavrão tem arte, a gente lá em cima sabe." (p. 88)

 

            Alexandra Lucas Coelho viveu no Brasil e conhece bem a literatura brasileira. Para quem não a conhece tão bem, apenas um nome se insinua de imediato como provável inspirador de um discurso em que a isotopia do sexo assalta o leitor – João Ubaldo Ribeiro. Mas há, pelo menos, mais um (no Brasil, porque, em Portugal, teríamos talvez Luiz Pacheco), além de que, em literatura, como no resto, propriedade privada é roubo e ninguém se pode arvorar em detentor de exclusividades. Esse outro é o de Nelson Rodrigues, citado a cada passo, e que uma rápida pesquisa na net nos diz ter sido polémico jornalista e escritor (1912-1980), que teve uma vida ainda mais espantosa do que as suas histórias e que era obcecado pelo sexo e pela morte. Dito isto, importa sublinhar que, a par desta, há, como no romance anterior, a isotopia da cultura (a literária, a musical,...) e um vasto conjunto de reflexões sobre o comportamento de homens e de mulheres de diferentes idades, relativamente ao amor, entendendo-se aqui amor na acepção mais lata, isto é, na mais verdadeira – a que imbrica a líbido no emaranhado dos sentimentos. A autora mostra não só dominar com mestria a arte de contar como ser conhecedora dos subterrâneos da consciência humana.

            Voltemos, porém, ao que mais impressivamente convoca a atenção do leitor: o discurso da narradora – seu propósito e a urdidura que tece. Há um diálogo entre ela e um dos amantes, ironicamente designado por futuro Nobel, que é sobejamente esclarecedor do primeiro destes aspectos:

            "— [...] Tu realmente brilhas com a dor dos outros.

            — Estás a falar de quê?

            — Do que escreves.

            — Mas o que é que tu achas que é escrever? Autoterapia? Não há dor do outro. Há dor.

            — A sério? Poupa-me. escreves sem um pingo de colhões. Nunca viraste do avesso o que está aí dentro. Pairas nas alturas, agora são os sumérios. Estás a tentar provar o quê? Mete o dedo na tua ferida.

            — Se lesses um bocadinho saberias que o que há mais é gente a meter o dedo na sua ferida.

            — Mentira, o que há mais é anemia.

            — Isso é comigo?

            —Não. Serias um grande poeta se não tivesses essa necessidade de ser compensado, esse pânico de perder gajas, perder leitores, perder a vez, perder a glória. O mundo não te deve nada e tu não deves nada ao mundo, não tens nada a perder. Em vez disso és um cabrão cheio de medo." (p. 80)

            "Virar do avesso o que está lá dentro", mais prosaicamente, ser autêntico é, pois, o desafio que a narradora lança ao seu amante escritor. Mas este compromisso com a autenticidade não pode deixar de ser lido também como desafio que a autora lança a si mesmo: assumir a escrita ficcional como modalidade de desvendamento da natureza humana, naquilo que ela tem, se não de imutável (mito muito conveniente para quem com ele justifica a discutível humanidade da sua própria "natureza"), pelo menos, de persistente, num quadro histórico determinado.

            Que Eros e Tânatos apareçam como tema recorrente na operação de desvendamento a que a autora procede, por interposta narradora, parece não ser caso para suscitar espanto. E, no entanto,

            "— [...] quem escreve sobre sexo fica reduzido a uma categoria. Se não for anónimo, é maluco, exibicionista, agente provocador ou filósofo, como o Sade.

            — Mas o Sade é filósofo.

            — O que estou a dizer é que, em geral, há a ideia de que os escritores-escritores não fazem isso, ou só no fim da vida, tipo posteridade, ou só como adenda picante, como se a pornografia fosse sempre o sótão ou a arrecadação, qualquer coisa à parte." (pp. 88/89).

            Para a quase-sobreposição a que, abusivamente, venho procedendo entre as entidades autor e narrador, realidades bem distintas, peço a benevolência de quem me lê. O que pretendo aventar é, nesta narrativa, o hipotético papel mediador da personagem narradora - ela seria a enviada, a mensageira da autora, o que, aliás, o primeiro dos "Agradecimentos" parece indiciar, ainda que para situação distinta:

            "A biografia de Nelson Rodrigues mencionada ao longo do livro é, claro, O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro (Companhia das Letras, São Paulo, 1992), uma obra-prima. Pôr a narradora a revê-la para uma imaginária edição em Portugal é estar a pedir que isso aconteça." (p. 179)

            Quanto ao segundo aspecto – a urdidura – é mais ou menos a meio do livro que a narradora decide, ela também, escrever um romance cujo título será O Meu Amante de Domingo. Os textos deste outro romance surgem em fundo cinzento nesta edição. Temos, pois, dois romances homónimos, ainda que não coincidentes:

            "Tudo começaria com uma narradora que decide escrever depois de se apaixonar por um impostor. Eu não revelaria o que pusera fim abrupto à relação. Importante era a fúria, a luta armada, a pulsão de vida contra os filhos da puta. O livro seria uma espécie de antropofagia, ela comendo o inimigo para ficar mais forte, como uma tupi portuguesa no Verão de 2014. Estaria há pouco tempo no Alentejo, como eu, mas noutro Alentejo. [...]" (p. 91)

            Ou seja, há uma autora, Alexandra Lucas Coelho, que vive no Alentejo e escreve um romance chamado O Meu Amante de Domingo cuja narradora, que também vive no Alentejo, decide escrever um romance chamado O Meu Amante de Domingo para o qual imagina uma narradora que vive no Alentejo. O procedimento chamado de "mise en abîme" é evidente. Como na pintura, temos um quadro pendurado na parede da sala, quadro esse que nos mostra uma sala com um quadro pendurado na parede. As salas podem não ser iguais, os livros também o não são, pelo que não se está propriamente na presença de uma metanarrativa.

            Os "recados" da autora prosseguem:

            "[...] eu jamais pensara escrever. Aquilo de escolher um narrador, se é uma terceira pessoa omnisciente e pode tudo, se é uma primeira pessoa e a quem se dirige, os dispositivos, os estratagemas, os imperativos categóricos. (p. 94) [...] Acho graça. Os gajos da prosa têm de inventar dispositivos, os gajos da poesia podem fazer o que lhes dá na telha. A prosa é funcionária, engenhocas, prestadora de contas, e a poesia é o altar acima da compreensão e da incompreensão. Na sua entrega ao que lhes é superior, os mortais permitem ao poeta tanto quanto ele se permita. O poeta é lido no assombro do que não tem resposta, porque é o único deus vivo, só aparentemente no meio de nós. Já repararam que ninguém pergunta aos poetas a quem eles se dirigem? Por acaso alguém anda aí a perguntar, caro Herberto Helder, quando diz 'dai-me uma jovem mulher', quem é o eu do poema?" (p. 98)

            São os constrangimentos inerentes à narrativa postos em confronto com a liberdade da poesia. Mas talvez não seja só a utensilagem técnica do romancista que aqui está em causa. Dir-se-ia, uma vez mais, estarmos perante um aceno da autora ao leitor, por interposta narradora, espécie de censura velada: admites qualquer possibilidade para o eu do poema de Herberto Helder ("Todo o amante? O poeta bruxo? O espírito santo?" (p. 98)), mas quem no meu romance diz "eu" tem necessariamente de ser eu?

                        Falta explicar o que leva esta narradora endiabrada a querer eliminar fisicamente o seu amante. O capítulo XXXIX di-lo: "[...] não é que o cabrão pôs tudo [o que a narradora lhe revelara da sua vida privada durante o mês do relacionamento] na porra do monólogo [texto pretensamente ficcional que o jovem amante leria numa sessão pública juntamente com mais dois autores], os meus quinze anos, o meu folhetim de alcova, o que chorei com a filha do nelson rodrigues, como o abracei por causa disso, o cabrão gravou as minhas palavras, escreveu como se as gravasse, as minhas palavras a dizer eu, um monólogo inteiro a dizer eu [...] desde o primeiro dia comigo devia andar com essa fisgada, o monólogo de uma gaja da minha idade, aquilo a que o mercado hoje chama os novos trinta, porque lha dá jeito, cremes, e botox, e silicone [...] ao fim de um mês tem um texto de carne-e-osso que sou eu." (pp. 162-164)

            O móbil do crime que acaba por se não concretizar tem, pois, a ver com a criação literária – pormenor eminentemente significativo. Com efeito, este romance de Alexandra Lucas Coelho, muito mais do que a história de um homicídio que não acontece, é um manifesto literário que equaciona a problemática da verdade na escolha da linguagem ("[a linguagem é] a própria mensagem", p. 128), e na utilização daquilo a que Somerset Maugham chamou "modelos vivos"[1].

 

[1] Maugham, Somerset, Prefácio de "Seis novelas escritas na primeira pessoa, in Chuva e Outras Novelas, Livros do Brasil, Lx.ª, p. 58



publicado por tambemdeesquerda às 11:29
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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