Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2016

"Quando um clérigo iraniano, senil, animalizado pelo fanatismo, decretou a pena de morte a certo autor inglês, por uma questão literária de contornos religiosos, criou um CASUS BELLI, uma ocasião de guerra. A resposta deveria ter sido, de imediato, um ULTIMATUM. Sendo necessário, com consequências enérgicas. Lamento – mesmo – ter de ser eu a dizer isto.

Mas não foi assim que se considerou. Entendeu-se que era uma questão menor. Metia apenas um escritor. Contemporizou-se. Havia negócios em curso e em perspectiva. Para a mentalidade mafiosa que predomina na EU os negócios contam. Os princípios são fantasias de intelectuais. A ocultação (a censura) de obras de arte por ocasião da visita de outro clérigo da mesma seita é uma cedência vergonhosa. Atinge-nos e diminui-nos a todos. Obscenidade, no sentido mais literal da palavra.

Mário de Carvalho, Mdc, no facebook, 28/01/2016"

 

Surpreende-me ler o autor do excelente A liberdade de pátio propugnar o uso da força militar como meio (seguramente expedito, menos claramente eficaz) para combater os inimigos da liberdade de expressão do pensamento e de criação artística. Não que eu os defenda. E digo-o com a clara consciência de que nada do que aqui direi levará os estrénuos defensores da liberdade de pensamento a deixar de pensar que não passo de mais um desses biltres de uma certa esquerda que, de tão obcecada pelo papão do imperialismo ou pelas virtudes do multiculturalismo, está sempre disposta a desculpar as malfeitorias dos pobres e humilhados muçulmanos, tornando-se, assim, sua cúmplice. Dou-me por excomungado ab initio, sem apelo nem agravo.

 

Dito isto, porque me surpreende a posição assumida por Mário de Carvalho, escritor que muito prezo? Surpreende-me, porque, sendo alguém superiormente culto, me parece, nesta circunstância, adoptar uma postura em tudo igual à do cidadão menos culto, o cidadão que, perante uma manifestação de intolerância de uma cultura diferente, raciocina segundo os termos da sua própria cultura, incapaz de equacionar as premissas culturais em que o estranho, o outro, o diferente se movimenta. Chama-se a isto etnocentrismo, como Mdc sabe melhor do que eu, e "o etnocentrismo é uma doença cultural que ataca a faculdade de discernimento e o comportamento em face de outras culturas diferentes da própria e leva, necessariamente, ao preconceito cultural e social", na definição de Bernardo Bernardi, conhecido antropólogo, que acrescenta: "A cultura de pertença surge de facto ligada a termos de comparação mais ou menos censuráveis e em medida discriminatória; é rude, bárbaro, incivil, aquilo que é praticado pelos outros; é sempre bom aquilo que cada um pratica de acordo com a educação que lhe é própria"[1]. Chegados aqui, adivinho duas perguntas: o etnocentrismo é exclusividade dos incultos? o clérigo muçulmano não é etnocêntrico?

 

À primeira, respondo que não. O homem culto (e, aparentemente, até o superiormente culto) pode ter manifestações de etnocentrismo. Vemo-lo a toda a hora na rua, na TV e no facebook. E tem essas manifestações de indignação que radicam no etnocentrismo porquê? Porque não é fácil produzir juízos de natureza ética abstraindo-nos de tudo o que constitui a nossa identidade cultural, para mais quando essa identidade é a resultante de séculos de História durante os quais as manifestações de intolerância e de crueldade que hoje verberamos nos outros foram sendo paulatinamente postergadas em razão do avanço das Luzes. Guerras de religião, perseguições, cruzadas, Inquisições, autos-de-fé, colonialismos, fascismos vários, neocolonialismos, xenofobias e racismos foram (por vezes, são ainda) o nosso doloroso quinhão cristão e ocidental. O processo histórico fez com que nos livrássemos de algumas dessas cangas mais cedo do que outros povos, sem o que talvez estivéssemos hoje a ser duramente criticados por eles e nos mesmos termos.

 

À segunda pergunta respondo, evidentemente, que sim. Mas faço uma ressalva inaceitável para muitos: se o etnocentrismo de um ocidental adulto, normal e culto se me afigura deslocado, ou não tivesse ele recebido a vacina das Luzes a que atrás me refiro, já o etnocentrismo e até a intolerância de comunidades cujo trajecto histórico divergiu do nosso me parece entendível.

 

O meu relativismo cultural não obsta ao reconhecimento da superioridade inerente a uma cultura que consagra a dignidade intrínseca do ser humano, a igualdade dos cidadãos perante a lei (se bem que as desigualdades económicas a prejudiquem seriamente) e um vasto conjunto de liberdades (embora frequentemente mais formais do que reais), tal como acontece nas nossas sociedades, nem me parece redundar numa variante de etnocentrismo. Há, efectivamente, valores propriamente indiscutíveis, inquestionáveis. Entendo, sim, que comunidades diferentes chegarão necessariamente a essa conclusão em tempos diferentes, e é contraproducente tentar acelerar o processo.

 

Se a experiência histórica nos mostrasse que um bom safanão, conforme se dizia noutros tempos, pode resolver os atropelos aos direitos a que, em 1789, o Terceiro Estado deu força de lei, eu não digo que não iria por aí. Infelizmente, os ultimatos "com consequências enérgicas" a que temos assistido, para além de se servirem de tais atropelos como pretextos para, na realidade, assegurarem a prossecução de políticas de pilhagem de riquezas naturais ou de controlo de posições geoestratégicas e promoverem os negócios dos seus autores, apenas têm agravado substancialmente a situação a que os povos vítimas dos atropelos são sujeitos, provocando renovadas e potenciadas violações de direitos que acabam por alimentar o terrorismo e gerar vagas de refugiados.

 

O recurso ao ultimato para debelar manifestações culturais que justamente repugnam à nossa sensibilidade levar-nos-ia a abrir hostilidades com os numerosos países onde se praticam, por exemplo, os castigos corporais ou o horror da mutilação genital feminina. E se adoptássemos uma perspectiva histórica proléptica, isto é (em língua de gente), se agíssemos por antecipação do porvir, talvez devêssemos proceder semelhantemente com todos aqueles, e não são poucos, que, entre nós, rejeitam horrores como, a título de exemplo, o casamento homossexual ou a adopção por casais homossexuais, porque tudo leva a crer que, dentro de alguns decénios, qualquer limitação de direitos resultante da orientação sexual será vista pelo conjunto da comunidade e não apenas pela vanguarda, como acto de cueldade.

 

A indignação de Mário de Carvalho é certamente legítima e compreensível. Porém, não queiramos ver o Irão transformado num novo Iraque, numa nova Líbia ou numa nova Síria. Já há muito, no mundo, quem nisso esteja interessado.

 

A quem discorda, digo que posso estar errado e que não desdenho ser criticado. Mas abomino o insulto.

 

E que Mário de Carvalho não me leve a mal. Apenas me lembrei de que era bom trocarmos umas ideias sobre o assunto.

 

[1] Bernardo Bernardi, Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos, Edições 70, Lx.ª, p. 45



publicado por tambemdeesquerda às 19:37
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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