Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2016

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Com capa de Inês Ramos e prefácio de Miguel Real, a Lua de Marfim publicou sete contos de sete autores naturais do Algarve ou aí residentes, cada um deles ilustrado por um artista plástico. Se a minha impreparação no domínio das artes plásticas me aconselha absoluto silêncio quanto à apreciação dessas ilustrações, arrisco uma referência à capa, geralmente ignorada nos textos de crítica literária, que se justifica plenamente, uma vez que, no caso vertente, a expressividade do grafismo (caracteres de vários tamanhos imitando um cursivo algo flamejante) anuncia um conteúdo ficcional rico em fantasia. Por sua vez, o prefácio de Miguel Real procede a uma criteriosa ponderação, catalogação e avaliação dos sete contos, não poupando nos elogios aos sete contistas. Fiel ao método de aproximação do texto pela via do esquadrinhamento, um pouco à maneira do cronista-mor, eis o que se me oferece dizer sobre estas narrativas.


O tema do surgimento inopinado de uma galé romana cheia de legionários, no estuário do Guadiana, em pleno século XXI, no conto "Os Romanos", de António Manuel Venda, com ilustrações de José Bivar, sugeriria, talvez, uma abordagem à maneira do realismo mágico ou nos moldes da literatura do fantástico. Qualquer das opções implicaria uma "encenação" criteriosa do anacronismo, nomeadamente através de uma caracterização cabal da embarcação e dos soldados, abstendo-se o narrador de manifestar a sua surpresa, sobretudo no primeiro caso, e sem solução de continuidade no discorrer narrativo. Por outras palavras, a estranheza que, naturalmente, se deveria sentir deveria ser mantida em surdina, como se o insólito fosse apenas uma das faces do real. O narrador de "Os Romanos" descarta esta possibilidade, optando por uma estratégia narrativa oposta: "Era tudo muito estranho para mim. Um barco cheio de romanos aproximava-se do molhe." (p. 10). É, pois, assumidamente que o insólito, enquanto tal, irrompe no discurso narrativo. Tal opção é legítima, claro, e não inviabilizaria a consecução de uma boa história, sob duas condições: primeiro, que o narrador fosse suficientemente convincente para que o leitor entrasse no jogo; segundo, que a ficção fosse servida por uma escrita ágil, densificada pela conotação e isenta de inoportunos bordões coloquiais ("na volta", "à balda", "à maluca").


Já em "Coração da Cidade", de Fernando Esteves Pinto, ilustrado por Paulo Serra, mais do que a "história" (no sentido de acção), o que sobreleva é a análise psicológica, com a particularidade acrescida de se tratar de um psicologismo frequentemente enigmático, pejado de mistério, perscrutador dos esconsos mais recônditos daquilo a que, por manifesta comodidade linguística, se convencionou chamar a "alma" humana. Esta demanda da interioridade é, aliás, comum a outras obras de FEP, nomeadamente o romance O Carteiro de Fernando Pessoa, onde se alia a uma ironia muito subtil, de tão impessoalizada, a reflexão permanente sobre inúmeros pormenores, reflexão essa que se espraia por períodos extensos. Neste conto, a pesquisa interior é motivada pela iminência do relacionamento íntimo e produz passos como este: " (...) compreenderemos objectivamente a nossa disposição quando uma mulher se propõe desafiar-nos para uma relação ocasional? Haverá nisso algum factor estimulante que fará a ligação com o nosso estado emocional? Não creio. Pode existir excitação, fantasia, ritmo cardíaco acelerado, expectativa, exibicionismo intencional, mas tudo isso é o físico a identificar-nos com a sua pornografia exemplar. É a emoção estética do corpo. A representação sentimentalizada da nossa própria fraqueza. Irracionalmente transmite-se a imagem de alguém moralmente insaciado, imaginando-o a possuir a pessoa que está na sua frente, com a cumplicidade inocente que nunca se confessa no próprio acto" (pp. 37/38). A esta capacidade introspectiva, o A. alia um trabalho sobre a linguagem de que resultam imagens inspiradoras: "Parámos a olhar o rio Guadiana. Tinha um grafismo de luzes na corrente das águas, e sempre numa coreografia incómoda e fria" (p.39). Trata-se, enfim, de um conto em que lateja o sentimento do trágico vivenciado por duas solidões que convergem para logo divergirem, no espaço da cidade moderna, ainda que a do conto não seja propriamente uma metrópole.


Formado em História e conhecedor da literatura oral e tradicional do Algarve, Fernando Pessanha faz o seu narrador, também ele historiador, deslocar-se a Tânger para efeitos de um congresso, em "O sétimo céu e as meninas de Tânger", ilustrado por Gilda David. À sua chegada, a agradável surpresa de um grupo de jovens beldades cuja presença sensual cria no bar do hotel ambiente propício ao advento de um episódio superveniente de As Mil e Uma Noites. O discurso flui com naturalidade, de um só fôlego, e apenas as referências ao relacionamento íntimo mencionado na narrativa encaixada de Samira, uma das beldades, provocam um indesejável efeito de ruído, pois não andarão longe do registo hard-core próprio da literatura erótica. Estranha-se, aliás, que tais referências surjam num contexto (o da cultura árabe muçulmana) em que a mulher é tradicionalmente subalternizada e confinada à passividade sexual. Ou será que o autor desta consideração anda enganado?


Conforme Miguel Real observa no prefácio, "Filho da Mãe", de Paulo Moreira, ilustrado por Inês Ramos, é um conto realista. Por pouco, quase neo-realista. Com efeito, trata-se de uma história verosímil, contrariamente às demais da antologia, evocativa de um meio social pobre e de uma infância afectada pelo estigma da prostituição, e vertida num discurso fluente. Em termos de técnica narrativa, o conto ganharia em qualidade se o narrador, usando de maior discrição, se abstivesse de caracterizar directamente a mãe do protagonista. Do mesmo modo, a carga simbólica do epílogo, com o protagonista prostrado na cama da mãe, é prejudicada pela referência explícita à "posição fetal", que torna demasiado evidente a sugestão do retorno ao útero.


Em "Facelist", de Paulo Kellerman, ilustrado por Reinaldo Barros, o protagonista relata ao seu psicanalista uma experiência a que procedera a fim de testar o interesse dos seus concidadãos pela comunicação com o outro. O resultado parece decepcionante, mas, afinal, apenas o método não foi o mais adequado. O diálogo, escrito em tom ligeiro, mas sustentado e homogéneo, impregnado de ironia tranquila e distendida, insinua-se como metáfora dos paradoxos comunicacionais no mundo dos nossos dias.


"Aquilo" de Pedro Afonso, ilustrado por Sara Ceriz, tem, em comum com "Os Romanos", o insólito e a falta de consistência. Onde António Manuel Venda vê uma galé romana, Pedro Afonso vê uma laranja, que podia ser mecânica, mas é apenas uma "bola de luz" que contraria a gravidade. Se a galé desaparece com a mesma facilidade com que aparece, já a laranja de "Aquilo" (que é, de resto, "aquilo"), suga o corpo do protagonista "para fora de si, como que se espalhando por todo o lado". Embora reconheça que passara já várias vezes pela mesma experiência, o protagonista diz-se "aterrorizado". Porém, o leitor, embalado pela leitura de registo realista das duas primeiras páginas, tem sérias dificuldades em entender a natureza sobrenatural do estranho fruto e, definitivamente, não alinha com a ficção, cujo alcance lhe escapa.


Há, felizmente, um anjo que vem em seu socorro, no conto de Vítor Cardeira "O amor é uma fuga sem fim", ilustrado por Adão Contreiras, conto este que encerra a antologia. Trata-se de um anjo parcialmente desasado e, por via dessa imperfeição, destinado a voos mais rasteiros do que aqueles que, habitualmente, estão cometidos às celestiais criaturas. A narrativa relata, com efeito, a aventura de um anjo que, despeitado pelas mofas dos seus semelhantes, decide abalançar-se a uma vida terrena, pena nas profundezas da terra como qualquer mineiro, conhece os encontros e desencontros do amor humano, enfim, humaniza-se, faz-se homem. Trata-se de uma ficção com óbvia carga simbólica, que ressuma exuberante ironia, recheada de apontamentos resultantes de uma observação atenta do ser e do estar do homem. O insólito da personagem é rapidamente desmentido pelo seu comportamento, em nada, ou quase, distinto do humano. Contudo, o epílogo aparece envolto numa névoa de ambiguidade que contrasta com referências de cunho libidinoso, perfeitamente explícitas, em passos anteriores do conto, e a frase final deixa-nos uma dúvida: houve mesmo metamorfose ou, contrariamente à asa, facilmente amputada, o sexo revelou-se um bico-de-obra? De facto, o anjo "agora compreendia a infinita discussão dos homens sobre o sexo dos anjos" (p. 127), mas o leitor não percebe bem se, em troca da asa perdida, o anjo ganhou todos os atributos dos homens.


Dos sete autores antologiados, quatro eram já meus conhecidos – Fernando Esteves Pinto (FEP), Fernando Pessanha (FP), Paulo Moreira (PM) e Vítor Cardeira (VC). A leitura destes seus contos vem confirmar as diferentes qualidades de todos: escritas reflexivas de FEP e de VC, discursos mais focados no encadeamento das acções em FP e PM; obsessiva auscultação dos subterrâneos do psiquismo em FEP, comentário divertido da comédia humana em VC; pendor para a fantasia erotizante em FP, apego conspícuo ao real em PM. Quanto aos três outros autores, novas leituras permitirão uma apreciação mais judiciosa.


Não termino sem renovar a habitual referência ao trabalho de revisão: que ele seja convenientemente feito, evitando-se gralhas e desencontros sintácticos que perturbam a comunicação.

 

(Uma versão condensada deste texto foi publicada no Jornal do Baixo Guadiana de Fevereiro 2016)



publicado por tambemdeesquerda às 17:28
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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