Sábado, 27 de Fevereiro de 2010
É um dos episódios mais engraçados da minha carreira e recordo-o sempre com carinho. Naquele tempo, ainda as escolas secundárias tinham o 3.º ciclo, isto é, o 7.º, 8.º e 9.º anos de escolaridade e aquela era talvez uma turma de 7.º ano – já não me recordo exactamente – e, portanto, seria constituída por miúdos com treze, catorze anos.
 
Dentre eles, o Nuno, sempre sentado ao fundo, distinguia-se por ser o mais reguila. No extremo oposto, o Filipe, filho de um arquitecto e de uma professora, sempre sentado na primeira fila, distinguia-se pelo ar compenetrado e pela delicadeza do trato.
 
Ora eu tinha-lhes dado um teste com um excerto da Manhã Submersa de Vergílio Ferreira. Mais exactamente, uma montagem de passos do capítulo 15, aquele em que se narram as brincadeiras dos jovens seminaristas, numa bela tarde de Verão, e particularmente o episódio da troça em que é envolvido o Tavares, “um seminarista perfeito, um técnico da correcção”. A chacota foi tal que, à noite, durante o Exame Geral de Consciência, o narrador não consegue reprimir o riso que o assalta. “E de súbito, no instante mais tenso da luta, por cima do silêncio maciço, ressoou claro e inesperado, ó Deus, desde cima até baixo – um traque absoluto. Por mais que eu não quisesse acreditar, era realmente um traque, um traque verdadeiro e firme, desde o cimo da Capela até ao fundo.”
                      
Reconheço que, na escolha deste texto, havia da minha parte uma intenção provocatória e desmistificadora. Tratava-se de revelar um lado menos sisudo da literatura e também de mostrar que um episódio caricato como aquele podia perfeitamente ser objecto de um exercício pedagógico no espaço da escola.
 
Os primeiros minutos decorreram em total silêncio. Porém, ao fim de uns cinco ou seis, o Filipe levantou o braço receoso e disse brandamente:
 
- Ó senhor professor, há uma palavra no texto que eu não sei o que significa…
 
- Diz lá que palavra é, Filipe.
 
- “Traque”.
 
Apanhado de surpresa, fiquei interdito, enquanto uma vontade de rir quase tão irreprimível como a do jovem seminarista do texto me assaltava.
 
- O quê?! Não sabes o que é um traque, Filipe?!
 
- …
 
- Ó diabo, como é que eu te vou explicar isso?!
 
E estava eu, realmente, um pouco embaraçado com a situação, querendo sobretudo evitar a vulgaridade, quando o Nuno, lá do fundo, sai em meu socorro:
 
- Um traque é um arroto que perdeu o ascensor!
 
Providencial.
 
Ri-me. Alguns miúdos riram-se. O Filipe limitou-se a esboçar um gesto indicativo de que percebera.
 
Foto:
 


publicado por tambemdeesquerda às 21:19
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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