Quinta-feira, 18 de Março de 2010
Há cerca de vinte anos, Mia Couto, grande escritor de língua portuguesa, estreou-se numa nova maneira de falar – ou "falinventar" – português, que continua a ser o seu ex-libris. O texto “Perguntas à língua portuguesa”, que publicou em 1997 e que transcrevo mais abaixo, dá algumas pistas quanto aos processos de subversão ou de reinvenção da nossa língua, ou seja, quanto ao “falinventar” do escritor moçambicano. No escassíssimo estudo que segue e que não passa da adaptação para o blogue de uma ficha de trabalho que usei há anos num atelier de escrita criativa, debruçar-me-ei apenas sobre alguns aspectos lexicais, deixando de lado a sintaxe, e, obviamente – atenta a escassez do corpus de análise (duas páginas de uma crónica) – sem nenhuma pretensão de exaustividade.
 
***
 
            1. Atentemos nas seguintes frases e expressões retiradas da primeira crónica – “A carta” – do livro Cronicando (Caminho, 3.ª edição, 1991). *
 
a)    “Amparava-se em poeiras, seria para se acostumar à cova, na subfície do mundo?” (9)
b)    “Era a carta de seu filho, Ezequiel. Ele se longeara, de farda, cabelo no zero.” (9)
c)    “Essas letras cheiram a pólvora, me rodilham o coração.” (9)
d)    “A velha se imovia como se tivesse saudade da morte.” (10)
e)    “E o Ezequiel, em minha imagináutica, ganhava os infindos modos de ser filho (…)” (10)
 
            2. Reparemos nos processos de formação lexical usados pelo escritor.
 
a)    subfície foi formada por analogia com superfície; se “à superfície” significa “à tona, por cima”, “na subfície” significará “por baixo”;
b)    longear-se é um verbo resultante da derivação por sufixação do advérbio longe, com o significado de afastar-se, ir para longe;
c)    rodilhar deriva por sufixação do substantivo rodilha e significa angustiar;
d)    imover-se resulta da derivação por prefixação do verbo mover-se e é, obviamente, o seu antónimo;
e)    imagináutica é o produto da aglutinação de imaginação com náutica (arte de navegar), significando divagação (navegação mental).
 
            3. Na grelha seguinte, estão sistematizados estes casos de subversão linguística.
 
“Infracção” cometida
Na prefixação
Na sufixação
Na aglutinação
subfície
imover-se
longear(-se)
rodilhar
imagináutica
 
 
            4. Este processo de inovação é rico de virtualidades semânticas, porque as novas palavras criadas não são meros sinónimos das que já existiam na língua. “Longear-se” não é exactamente o mesmo que “afastar-se”; é isso mais a sugestão intensificadora da distância, que lhe advém da vogal nasal. Do mesmo modo, “rodilhar” acrescenta ao banal “angustiar” a imagem da rodilha, peça de pano sem valor, usada em limpezas, que se torce para dela se espremer a água. Está-se a ver a distância que vai do seco “angustiar” ao sugestivo “rodilhar o coração”… E sempre, nestes como em todos os outros casos, a surpresa do leitor desvia-o momentaneamente do curso mais ou menos linear da leitura para um deambulação, que pode ser mais ou menos demorada. É como se, no decorrer de uma caminhada, parasse aqui e ali para contemplar um recanto da paisagem.
 
            5. Mia Couto faz um uso tão frequente destes neologismos que eles acabam por ser um verdadeiro ex-libris da sua escrita. No entanto, outros escritores também recorrem a este processo de inovação. É o caso de Eça, com verbos como “cachimbar”, “cervejar” e “gouvarinhar” (do patrónimo Gouvarinho); de Urbano Tavares Rodrigues, que tem um volume de ensaios intitulado “Ensaios de escreviver”; de Luandino Vieira, que escreve, por exemplo, “desanoitecer” e “desconseguir” (De Rios Velhos e Guerrilheiros, O Livro dos Rios).
 
            6. Como é evidente, não se consegue de um dia para o outro subverter e reinventar a língua com a facilidade que Mia Couto aparenta possuir. Essa familiaridade resulta de um convívio prolongado e muito atento com as palavras da língua, que o escritor transforma um pouco como o escultor esculpe.
 
Perguntas à Língua Portuguesa 
 
   Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
   A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
   Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
   No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
   Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
   Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
  • Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
  • No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
  • A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
  • O mato desconhecido é que é o anonimato?
  • O pequeno viaduto é um abreviaduto?
  • Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
  • Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
  • Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
  • Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
  • O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
  • Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
  • Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
  • Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
  • Mulher desdentada pode usar fio dental?
  • A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
  • As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
  • Um tufão pequeno: um tufinho?
  • O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
  • Em águas doces alguém se pode salpicar?
  • Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
  • Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
  • Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
  • Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
   Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
   Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.
11/04/1997
Mia Couto
in http://ciberduvidas.sapo.pt/antologia/miacouto.html
 
 
Eis algumas ideias mais.
 
  1. Escreviler: a arte de escrever e ler.
  2. Escrever (escre-ver) tem duas flexões: eu escrevo e eu escrevejo.
  3. Acariciar-se e ciciar ao mesmo tempo: acariciciar-se.
  4. O João namoraventurou-se com a Maria, isto é, aventurou-se a namorar com ela, lançou-se na aventura do namoro.
  5. Alguém que perde a voz ao topar num muro fica emudecido ou emurecido?
  6. E se, depois de se ter calado, voltar a falar, descala-se?
  7. Se o despertador tocar e eu continuar a dormir, não acordo, logo desacordo?
  8. Navegar devagar, com todo o vagar, não será navagar?
  9. O destino chama-se assim porque não tem tino?
  10.  ...


publicado por tambemdeesquerda às 18:11
Gente, pelo amor de Deus, eu leio, gosto, leio, me perco e estou até agora a tentar entender, em Mia Couto, "desalisar" e "sulbúrbio". Não consigo!!!
Ajudem
Raquel Novaes a 24 de Junho de 2010 às 13:38

Não me querendo arvorar em especialista na escrita de Mia Couto nem conhecendo o contexto donde foram extraídos o verbo e o nome, suponho não me equivocar se lhe disser que "desalisar" é o antónimo de "alisar" e significa "enrugar" (eventualmente "despentear") e "sulbúrbio" será um subúrbio do sul.
Saudações.

Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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