Terça-feira, 08 de Março de 2016

Gostei do debate sobre a eutanásia, ontem à noite, na SIC Notícias. Particularmente do desempenho de Isabel Galriça Neto, médica e deputada do CDS, naturalmente opositora da ideia. Agradou-me aquelas suas referências a uma sociedade solidária em que as pessoas se esforçam galhardamente por defender e prolongar a vida do semelhante, ainda quando esse semelhante, atormentado por um sofrimento intolerável e farto de cuidados paliativos sem fim à vista, já só espera pelo alívio do fim da vida. O respeito inquestionável do direito à vida – inspirador também da recusa pela senhora deputada, e médica, da interrupção voluntária da gravidez – é sempre motivo de regozijo para quem reconhece a dignidade intrínseca da vida humana. Acho, porém, extraordinária e algo intrigante esta paixão da senhora deputada e dos seus congéneres pela vida humana nos seus dois extremos – ainda incipiente e informe, pouco mais do que promessa, nem sempre viável, ou, no lado oposto, esgotadas todas as virtualidades, a de um corpo e uma mente que se exauriram e nada mais pedem do que a clemência do fim. Acho-a extraordinária e intrigante, porque não vejo igual zelo pela mesma vida humana entre essas duas balizas, ou seja, no tocante ao trajecto que concretiza a promessa do feto e desemboca, inevitavelmente, no decessso. É que esse percurso, muito mais demorado do que a gestação e, geralmente, também mais demorado do que as vicissitudes do fim, não é menos vida do que a promessa de um ou a desistência do outro, e aquilo que o condiciona pode ser, muitas vezes, tão determinante que viabilize ou não a promessa inaugural, que propicie ou não a urgência do desfecho. Claro que a protecção desse trajecto existencial a que também chamamos vida implica a criação de condições (de vida...) dignas e de cuidados continuados (que promovam a dispensa dos paliativos, na medida do possível), o que representa o mais sério e inquestionável respeito pela vida humana e pela sua intrínseca dignidade. Há, contudo, forças políticas que sempre se distinguiram por despromover tais condições de vida e por dificultar o acesso aos cuidados de saúde. Estranhamente, a médica Isabel Galriça Neto é deputada por uma delas. O que acho extraordinário. E intrigante.



publicado por tambemdeesquerda às 15:45
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
mais sobre mim
Março 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25

27
28
29
30
31


pesquisar neste blog
 
contador
Website counter
Mapa de visitantes
Visitantes por país
free counters
Visitantes em tempo real
Que horas são?
blogs SAPO