Sábado, 22 de Outubro de 2016

 

Os fundamentalistas anti-AO90 (aqueles que, de tão acérrimos defensores da ortografia vigente, chegam a injuriar quem adoptou o dito acordo) parecem esquecer-se, às vezes, de uma dimensão da língua mais importante do que a ortografia, mas que pode passar por ser um pormenor despiciendo. Refiro-me à sintaxe, e, como não disponho de um registo sistemático de ocorrências, vou simplesmente recensear alguns exemplos de solecismos de que me recordo e que, sendo frequentes na nossa imprensa e no espaço público, estão paulatinamente a enraizar-se e a ganhar a consistência da normatividade. Receio que, num futuro próximo (em alguns casos, já está a acontecer), seja tão natural escrever "ator", "deceção", "espetador", "suscetível" e "cancro retal" como

 

  • "faltam apurar dez freguesias",
  • "fulano foi um dos políticos que mais se notabilizou",
  • "ficou feliz pelas negociações terem dado bom resultado", (ou: "para além da execução não ser muito fácil"[1]),
  • "beltrano colocou-se sobre a alçada da lei",
  • "sicrano falou que",
  • "o sítio onde vamos querer voltar..."[2],
  • "o local onde está o que sabemos que gostamos"[3],
  • "o conselho de ministros vai reunir", (ou: "Alerta. Mau tempo vai agravar nas próximas horas"[4],
  • "volta a repetir a promessa de rever os escalões do IRS durante a legislatura"[5],
  • etc.

 

O primeiro destes solecismos (o das freguesias por apurar) tornou-se absolutamente banal nas emissões televisivas, em serões eleitorais. Os senhores jornalistas esquecem-se de que não são as "freguesias" o sujeito do verbo "faltar" (não faltam dez freguesias), mas sim o infinitivo "apurar" seguido do seu objecto directo (O que é que falta apurar? Falta apurar dez freguesias, apurar dez freguesias é o que falta).

 

O segundo esquece-se de que o político que se notabilizou foi apenas um daqueles que mais se notabilizaram; se a notabilidade lhe coubesse em exclusivo, não faria sentido a referência aos outros e bastaria dizer "fulano foi um político que muito se notabilizou". O pronome que introduz a oração relativa ("que") é o seu sujeito e tem por antecedente imediato "políticos", nome a que se refere. Assim: alguns políticos notabilizaram-se muito; fulano foi um deles (dos que mais se notabilizaram).

 

O terceiro, por estranho que pareça e mal que soe, banalizou-se. Neste caso, três soluções: "Ficou feliz pelo bom resultado das negociações" (a preposição introduz um complemento circunstancial de causa), "Ficou feliz porque as negociações deram bom resultado" (a causa é expressa por uma subordinada conjuncional) ou "Ficou feliz por as negociações terem dado bom resultado". É que "as negociações" são o sujeito de uma oração infinitiva (verbo no infinitivo e sujeito próprio); ora, sendo o sujeito quem "pratica a acção" (as negociações "fazem" um bom resultado), a transformação do sintagma nominal respectivo ("as negociações") num sintagma preposicional ("pelas negociações"), mediante contracção da preposição com o determinante, é incompatível com a natureza de um sujeito gramatical, que, na voz activa, é agente da acção.

 

A confusão entre "sobre" e "sob" tornou-se também uma fatalidade, esquecendo-se muitos falantes de que a primeira destas preposições significa "em cima de" ou "acerca de", enquanto a segunda significa "debaixo de". Não é, assim, plausível que o infractor se "coloque sobre a alçada da lei"; de facto, infringindo-a, ele não se coloca numa posição de superioridade, mas sim de sujeição às consequências da aplicação da lei, logo, sob a sua alçada ou poder.

 

Ouve-se cada vez mais profissionais da televisão dizerem, geralmente em entrevistas, "O Senhor falou que", como se o verbo falar fosse transitivo. Claro que o Senhor em causa pode falar, mas para dizer coisas, logo "O Senhor disse (declarou/afirmou/negou) que".

 

O advérbio "onde" ganhou tal preponderância na comunicação corrente que acabou por usurpar o espaço devido a "aonde" e a "donde". Quem tinha razão, neste caso, era o tipo que, apontando a pistola a Bocage, lhe perguntou: "Quem és? Donde vens? Aonde (para onde) vais?" De facto, nós vimos de, estamos em e vamos a. (Para quem não conhece a história, Bocage terá respondido: "Sou o poeta Bocage, / venho do café Nicola / e vou já para o outro mundo, / se disparas a pistola").

 

O verbo "gostar", contrariamente ao verbo "amar", não é transitivo[6], logo, se a Maria ama o Manel, pode muito bem dizer-lhe que o ama, mas nunca dirá que o gosta. Apesar disso, ouve-se cada vez mais "é um sítio que eu gosto", em vez de "é um sítio de que eu gosto".

 

O conselho de ministros não reúne, reúne-se, e o mau tempo agrava-se ele mesmo ou agrava, por exemplo, a situação das populações mais expostas. O uso de "reunir" e de "agravar" sem o reflexo "se" implica a presença de outro complemento, visto que se trata de verbos transitivos directos.

 

"Voltar a repetir" é uma expressão pleonástica sempre que aquilo que se repete apenas tenha sido dito uma vez. Se o professor, após ter dito aos alunos que não deviam falar durante a realização do teste, se viu obrigado a dizê-lo novamente, disse e repetiu.

 

Outra incorrecção, esta menos facilmente detectável, é a do uso de "já" com valor adversativo em frases cujo significado não encerra oposição. Está certo dizer-se "O governo X impôs uma fiscalidade gravemente lesiva dos rendimentos do trabalho; já o governo Y optou por desagravar esses rendimentos", mas não se vê motivo válido para "A antiga ministra foi contratada por uma instituição financeira; já o antigo primeiro-ministro pôs os seus créditos ao serviço de um grande banco". De facto, o comportamento de ambos é igualmente lamentável.

 

Lamentável é também que estas e outras incorrecções pululem incólumes pela nossa comunicação social, sem que ninguém assuma responsabilidade ou acuse incómodo. E como o autor também tem dúvidas, e algumas vezes se engana, fica a aguardar que lhe apontem eventuais erros, reconhecendo desde já a sua ignorância da TLEBS.

 

 ___________________________________________________

[1] Público de 21/10/2016, artigo de Mariana Correia Pinto, p. 16

[2] Texto inscrito na parede do bufete das lojas Pingo Doce

[3] Idem

[4] msn notícias, 22/10/2016, 18h 55

[5] Público de 21/10/2016, artigo de Maria João Lopes, p. 13

[6] Ao complemento do verbo "gostar" chama-se actualmente complemento oblíquo (cf. https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/o-complemento-obliquo-de-cinema-nos-gostamos-de-cinema/30998)



publicado por tambemdeesquerda às 23:17
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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