Domingo, 17 de Abril de 2016

As três mortes do lobisomem, Carlos Brito.jpg

 

Num tempo em que as recordações do que foi o "nosso" fascismo tendem a perder-se nas brumas da memória, é grato encontrar um livro de contos que, na esteira de Soeiro Pereira Gomes e do seu Refúgio Perdido e de Manuel Tiago, com o seu Até Amanhã Camaradas, nos mostra que a liberdade alcançada com o 25 de Abril, longe de se dever apenas a uma acção militar desencadeada por uns quantos jovens oficiais generosos, se alicerçou numa miríade de lutas nas quais se empenharam muitos homens e mulheres, arrostando com sacrifícios pessoais enormes, incluindo, por vezes, o da própria vida.

 

As Três Mortes do Lobisomem e outras rebeldias, de Carlos Brito, é um livro que apetece ler e que se lê com o prazer do convívio com personagens que, nunca tendo aspirado ao estatuto de herói, merecem contudo que se lhes reconheça o indiscutível papel de terem contribuído decisivamente para o fim de um regime que a História se encarregara de condenar, mas que sobreviveu perto de trinta anos à derrota das suas congéneres potências do Eixo. São, de facto, homens e mulheres empenhados na luta clandestina pelo derrubamento do fascismo os protagonistas de alguns dos contos que integram a segunda parte ("Rebeldias") deste livro e, sendo certo que as personagens são sempre seres de papel que o autor constrói com palavras, o facto é que as sentimos vivas e empolgadas pela confiança no advento de um mundo novo e fraterno. Tal é o caso do conto "A montanha pariu um biquíni", cujo protagonista, um jovem jornalista, aproveita uma deslocação de Lisboa a VRSA, enviado pelo jornal, a fim de realizar uma reportagem sobre o turismo na região, para cumprir uma tarefa partidária. Indignado com o rigor repressivo do cabo de mar, que fiscaliza com austera inflexibilidade o tamanho dos biquínis das turistas, redige uma peça para o seu jornal que, esquadrinhada pela censura, lhe vale uma retenção ("Não é detido é retido") por um agente da Pide para averiguações. O contratempo parece não ir muito mais longe e o nosso herói acabará por relatá-lo, presume-se que devidamente autocensurado, na crónica seguinte. Em "Um clandestino em apuros", cuja acção, excepcionalmente, decorre no Norte do país, em Viana do Castelo, um jovem clandestino não encontra no sítio e hora combinados o camarada que devia encontrar. Preocupado com o que possa ter acontecido, procura dissipar a tensão nervosa, passeando pela cidade e entrando para uma refeição frugal num café. É então que se apercebe da presença de um indivíduo que já vira durante a manhã em dois locais diferentes. Não havia que duvidar, tratava-se dum bufo ou dum pide que, no entanto, o jovem clandestino consegue despistar. No encontro com o seu controleiro, uns dias mais tarde, no Porto, tudo se vem a esclarecer: afinal, o suposto bufo ou pide era apenas mais um camarada que estranhara o comportamento do clandestino e o seguira, julgando poder tratar-se de um agente da Pide. Estes são apenas dois dos contos que lembram, aos mais velhos e empenhados politicamente, as vicissitudes e adversidades por que passaram todos quantos se não limitaram a esperar pelo advento da democracia. Noutros casos, personagens menos ganhas ideologicamente para o projecto de construção de uma sociedade socialista, mas inequivocamente avessas à condescendência com o fascismo e movidas por uma rebeldia irrefreável, afirmam a sua solidariedade com as primeiras e contribuem à sua maneira para a consecução de objectivos comuns. Assim acontece, por exemplo no conto cujo protagonista Dinis, depois de uma atribulada experiência na Guerra Civil de Espanha, nomeadamente após a vitória das tropas franquistas, se alheia dos combates políticos para condescender com o epíteto de "pobre diabo" com que as "pessoas importantes da terra" intentam castrar-lhe a rebeldia, mas que acaba por aceitar um "contacto" do narrador militante que o recolocará na resistência activa ao fascismo, porque "a rebeldia não se cura" ‒ conforme o diz o título do conto.

 

Carlos Brito pratica uma escrita transparente, de um equilíbrio que não julgo deslocado qualificar de clássico[1] e que o aproxima dos grandes prosadores da língua. Por outro lado, é óbvia, no agenciamento das sequências narrativas, a capacidade de entrosamento dos diálogos das suas personagens com os segmentos em que ouvimos a voz do narrador. Outra característica da habilidade narrativa do A. prende-se com a organização temporal do discurso. Na novela histórica com que abre o livro, "As três mortes do lobisomem", o primeiro capítulo relata momentos de uma acção que será interrompida por uma espécie de analepse, nos três capítulos seguintes, nos quais se explanam os antecedentes e que constituem, aliás, a parte mais propriamente histórica da novela.

 

Mas no melhor pano cai a nódoa e, conquanto nódoa pequena, não deixarei de a assinalar: há, por duas vezes, confusão de parónimos (descrição/discrição, na pág. 103, mas não na pág. 144, e cardeal/cardial, na pág. 124, que não na pág. 139); por outro lado, algumas vírgulas fora do lugar (veja-se, por exemplo, a pág.147) atentam contra a correcção sintáctica que o A. preza e denunciam um lapso de revisão. Nada que comprometa o prazer da leitura deste livro.

 

[1] por oposição quer ao desequilíbrio tão apetecido dos românticos, quer ao experimentalismo que caracterizou o modernismo e muita da literatura posterior, até aos nossos dias.



publicado por tambemdeesquerda às 23:56
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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