Quinta-feira, 22 de Outubro de 2015

O PR foi coerente, há que reconhecê-lo. Eu diria, quase – há que louvá-lo, pela assunção inequívoca de uma postura antidemocrática, claramente a caminho do fascismo. Estruturalmente reaccionário como é, seria surpreendente Cavaco Silva optar pela solução alternativa, indigitando o líder do partido mais votado dentro da maioria parlamentar de esquerda declaradamente decidida a inviabilizar o governo PSD/CDS. Não por esse partido ser o PS, mas por esse partido se ter "coligado" com o BE e sobretudo com o PCP. Claro que aquilo que se avizinha (a manutenção do governo de direita em gestão durante uns meses) é algo que se aproxima muitíssimo da definição do fascismo como ditadura terrorista. A democracia burguesa desmascara-se de cada vez que vê a sua hegemonia periclitar e só não assume a sua expressão fascista enquanto consegue assegurar a sua sobrevivência por meios (mais) pacíficos. Na actual conjuntura, a capacidade demonstrada pelos partidos à esquerda do PS de influenciarem determinantemente a política governamental, pelo menos na sua dimensão nacional (fiscalidade, política salarial, legislação laboral, etc., que não na vertente dos chamados "compromissos europeus"), configurava uma real perda de poder da classe dominante. Daí o frenesim em que toda uma chusma de comentadores-políticos e políticos-comentadores se empenhou ultimamente, brandindo o fantasma do comunismo e o espantalho do apocalipse. Graças à decisão e ao esclarecedor discurso de Sua Excelência, todos sabemos agora com que contar: ou votamos de acordo com os superiores interesses da clique dirigente ou nos rendemos à triste evidência de que o nosso voto é uma arma de pacotilha.

 

Entretanto, findo este primeiro acto, a cortina abre-se de novo amanhã para o segundo acto da comédia. Cena I: eleição do presidente da AR. Não tenho nenhuma dúvida em relação ao sentido de voto dos 17 deputados do PCP. Acredito que o mesmo acontecerá com os do BE. Mas haverá alguém que possa dizer o mesmo em relação aos deputados do PS? Para cúmulo, o voto é secreto, isto é, permite que aquele tipo em quem eu sempre confiei me possa trair sem que eu saiba que me traiu e possa, daí em diante, continuar a beneficiar da minha confiança.

 

Comédias destas talvez ainda possam fazer rir alguns. Corrigir os costumes, não tanto.



publicado por tambemdeesquerda às 23:42
Espaço destinado a reflexões (geralmente) inspiradas na actualidade e na Literatura.
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